• Nenhum resultado encontrado

1

Ai Tereza, geme o doutor Emiliano Guedes desprendendo-se do beijo e a cabeça de prata tomba no ombro da amásia. Ainda a se expandir em gozo, Tereza percebe nos lábios o gosto de sangue e no braço o aperto de uma garra, a testa caída a lhe tocar o ombro, na boca entreaberta a baba vermelha, sente o peso da morte sobre o corpo nu. Tereza Batista abraçada com a morte, tendo-a sobre o peito e o ventre, por entre as coxas a penetrá-la, com ela fazendo amor. Tereza Batista na cama com a morte.

2

Então não é? É o torto falando do aleijado e o nu do esfarrapado. Criticar é fácil, nada mais simples e agradável do que botar defeito no alheio, meu jovem. Dizer que Tereza Batista não cumpriu a palavra e deixou todo mundo no ora veja, com a festa pronta, a pitança posta na mesa, aquele mundo de garrafas de pinga, não custa esforço: buscar os porquês de tal procedimento, isso sim que dá trabalho, não é para qualquer borra-botas.

Meu jovem, debaixo do angu tem sempre carne, quem mexe e re- mexe encontra os bons pedaços. Quem deseja saber como deveras se passou um acontecido de tal porte, com todos os etecéteras, tem de bancar o intrometido, o bisbilhoteiro, sair perguntando a todo mundo como, aliás, o jovem está fazendo. Não se importe se algum mal- educado lhe virar as costas e não prestar atenção a seu pedido, dê o desprezo. Vá remexendo o angu, pondo a mão no bonito e no feio, no limpo e no sujo, vá fuçando em toda parte. Se tocar em bosta ou em pus, não se aflija, acontece com freqüência. Mas não acredite em tudo que lhe contarem, atente em quem responde, não saia por ai dando crédito barato, muita gente gosta de falar do que não sabe, de inventar o que não houve. Ninguém quer confessar ignorância, considerando uma vergonha não conhecer todas as passagens da vida de Tereza. Tenha cuidado, sendo o senhor moço moderno é fácil de ser enganado e de enganar-se.

De mim, meu jovem, lhe digo: do sucedido nesse porto da Bahia, cais onde nasci, e me fiz gente ouvindo e entendendo, posso algumas regras lhe fornecer sobre Tereza e seus enredos, a ordem de despejo, a greve, a ignorância da polícia, a cadeia, o casamento e o mar sem cancela e sem fronteira, atropelos de luta e de amor. Sou velho mas ainda faço filho, já fiz mais de cinqüenta em minha vida torta, já fui ri- co, tive dezenas de alvarengas a singrar o golfo, hoje sou pobre de marré-marré, mas quando entro no terreiro de Xangô todos se levan-

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA 195

tam e me pedem a bênção, sou Miguel Santana Obá Aré e por Tereza ponho a mão no fogo sem o menor receio.

Tereza nunca abrigou no peito a traição nem usou de falsidade. Com ela, sim, usaram e abusaram. Nem por isso se dobrou à sina má, não inventou urucubaca, dando-se por vítima de ebó ou coisa-feita, perdida a esperança, entregue. Nunca? Não posso garantir, meu jo- vem, veja como é difícil dar informação certeira. Pensando bem, acho ter ela chegado, após o rolo da greve e as funestas notícias do mar distante, ao cansaço e à indiferença, portos ruins de arribação onde apodrecem os barcos abandonados como as minhas alvarengas. Tão cansada e farta de viver, resolveu parar de vez, aceitou a proposta e ordenou a festa. Essa história do casamento de Tereza Batista eu pos- so lhe contar, meu jovem, coube-me o rol de padrinho, conheço toda a trama — e sendo amigo da outra parte dou razão à moça, veja bem.

Desanimada andou, entregue à sorte, sem esperança, tão sem â- nimo: basta lhe dizer que ouviu dichote de moleque em língua de sota- que e nem ligou, nem saiu atrás do covardão — tão cansada de tudo, até de pelejar. Mas se aconteceu sentir-se assim, foi coisa transitória — bastou soprar a brisa do Recôncavo e novamente foi Tereza inteira, a sorrir e a velejar.

Do casamento posso lhe falar, seu moço; da greve do balaio fe- chado e da passeata das senhoras meretrizes reunidas na frente da I- greja, da carga da polícia e do resto — de tudo isso lhe dou conta e, sendo pobre mas tendo sido rico, lhe ofereço de-comer, moqueca de primeira, no restaurante da finada Maria de São Pedro, nos altos do Mercado. Só não posso é lhe contar, como me pede e quer saber, da vida de Tereza em amigação e morte com o doutor. Dessa história não dou notícia, dela só sei de oitiva. Se o jovem deseja realmente saber como se deu, vá a Estância onde tudo se passou. A viagem é um pas- seio, a gente é boa e o lugar lindo, lá se reúnem os rios Piauí e Piaui- tinga para formar o rio Real e dividir Sergipe da Bahia.

3

Encerrando a longa e imprevista conversa daquela noite de domingo, o doutor Emiliano Guedes sussurrou:

— Quem me dera ser solteiro para me casar contigo. Não que isso modificasse em nada o que significas para mim — As pala- vras eram acalanto, música em surdina, a voz familiar inespera- damente envolta em timidez, parecendo ainda mais tímida ao ou- vido de Tereza: — Minha mulher. . .

Repentina timidez de adolescente, de aflito postulante, des- protegida criatura, em absoluta contradição com a personalidade forte do doutor, acostumado ao mando, seguro de si, direto e fir- me, insolente e arrogante quando necessário, se bem o mais das vezes cordial e gentil, uma dama no trato fino — senhor feudal de terras, canaviais e usina de açúcar mas também capitalista citadi- no, banqueiro, presidente de conselhos de administração de em-

presas, bacharel em direito. Não era a timidez atributo do caráter dó doutor Emiliano Guedes, o mais velho dos Guedes da Usina Cajazeiras, do Banco Interestadual de Bahia e Sergipe, da Exim- portex S.A., de tudo isso o verdadeiro dono — empreendedor, ou- sado, imperativo, generoso. Tanto quanto as palavras, o tom de voz enterneceu Tereza.

Ali, no jardim de pitangueiras, a lua desmedida de Estância escorrendo ouro sobre mangas, abacates e cajus, o aroma do jas- mim-do-cabo evolando-se na brisa do rio Piauitinga, após ter-lhe dito, com amargor, ira e paixão o que jamais pensara confiar a pa- rente, sócio ou amigo, o que jamais Tereza imaginara ouvir (se bem muita coisa houvesse adivinhado pouco a pouco no correr do tempo), o doutor a envolveu nos braços e beijando-lhe os lábios, concluiu, a voz comovida e embargada: Tereza, minha vida, meu amor, só tenho a ti no mundo. . .

Depois, levantou-se, alta estatura de árvore: árvore frondosa, de acolhedora sombra. No decorrer desses seis anos os cabelos grisalhos e o basto bigode tornaram-se cor de prata mas o rosto ainda liso, o nariz adunco, os olhos penetrantes e o corpo rijo não demonstravam os sessenta e quatro anos já cumpridos. Um sorriso encabulado, tão diverso de seu riso largo, o doutor Emiliano fita Tereza ao luar, como a lhe pedir desculpas pelo travo de aspereza, de mágoa e até de cólera a marcar a conversa, no entanto uma conversa de amor, de puro amor.

Ainda deitada na rede, tocada fundo, tão fundo a ponto de sentir os olhos úmidos, o coração repleto de ternura, Tereza deseja lhe dizer tanta coisa, tanto amor lhe expressar mas, apesar do mui- to que aprendeu em companhia dele nessa meia dúzia de anos, a- inda assim não encontra as palavras exatas. Toma da mão que ele lhe estende, arranca-se da rede para os braços do doutor e nova- mente lhe entrega os lábios — como lhe dizer marido e amante, pai e amigo, filho, meu filho? Deita a cabeça no meu colo e re- pousa, meu amor. Um monte de emoções e sentimentos, respeito, gratidão, ternura, amor — ai, compaixão, jamais! Compaixão ele não pede nem aceita, rocha irredutível. Amor, sim, amor e devo- tamento — como dizer-lhe tanta coisa ao mesmo tempo? Deita a cabeça no meu colo e repousa, meu amor.

Mais além do aroma embriagador dos jasmineiros, Tereza sen- te no peito do doutor aquele discreto perfume, seca madeira, do qual aprendera a gostar — tudo aprendera com ele. Ao término do beijo, apenas diz: Emiliano, meu amor, Emiliano! e para ele foi bastante, sabia o quanto significava pois ela sempre o tratara de senhor, jamais lhe disse tu ou você e só na hora do gozo na cama se permitia confessar-lhe amor. Transpunham os últimos obstáculos.

— Nunca mais me tratarás de doutor. Seja onde for.

— Nunca mais, Emiliano — Seis anos tinham-se passado desde a noite em que ele a retirara do prostíbulo.

Na força dos sessenta e quatro anos vividos intensamente, Emiliano Guedes, sem aparentar esforço levanta Tereza nos bra-

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA 197

ços e a conduz ao quarto por entre o luar e a fragrância do jas- mim-do-cabo.

Uma vez ela tinha sido assim carregada, sob a chuva, no quintal do capitão, igual a uma noiva em noite de núpcias mas fo- ram núpcias com a falsidade e a traição. Hoje, porém, quem a conduz é o doutor e essa noite de amor quase nupcial foi precedi- da de largos anos de terna convivência, leito de delícias, amigação perfeita. Quem me dera ser solteiro para me casar contigo. Não mais amásia, ilícita manceba de casa e mesa postas. Esposa, a verdadeira.

Nesses seis anos não houvera instante na cama com o doutor que não tivesse sido perfeito de prazer, deleite absoluto. Desde a primeira noite, quando Emiliano a fora buscar na pensão de Gabi e, escanchada na garupa do cavalo, a levara campo afora. Refina- do mestre, nas mãos dele, sábias e pacientes, Tereza floresceu em mulher incomparável. Mas naquela noite dos jasmineiros em flor, noite de confidencia e intimidade sem limites, na qual o doutor abriu o coração, lavou o peito rompendo a dura crosta do orgulho, quando Tereza foi arrimo para o desamparo, bálsamo para o de- sencanto, alegria a apagar a tristeza e a solidão, quando a clandes- tina casa da amásia foi o lar e ela a esposa que lhe faltava, naquela noite única de paz com a vida, o desvelo envolveu o prazer e o fez extremo.

Durante um tempo vadio trocaram agrados de namoro, brin- cadeiras de noivos em núpcias, antes de partirem em cavalgada o cavaleiro e sua montaria, doutor Emiliano Guedes e Tereza Batis- ta. Quando o doutor se alteou para assumi-la, Tereza o enxergou tal como o conhecera na roça do capitão, bem antes de vir com ele viver: montado em árdego ginete, na mão direita o rebenque de prata, a esquerda a afagar o bigode, atravessando-a com olhos de verruma — dá-se conta de tê-lo amado desde então pois, escrava morta de medo, ousara reparar num homem. Pela primeira vez.

Nua de trapos e lençol mas coberta de beijos, anelante, rece- be-o por cima e com os braços e as pernas o prende e tranca con- tra o ventre; a cavalgada irrompe nos prados infindos do desejo. Incansável galope por montanhas e rios, subindo, descendo, cru- zando caminhos, sendas estreitas, vencendo distâncias, crepúscu- los e auroras, à sombra e ao sol, ao luar amarelo, no calor e no fri- o, num beijo de amor eterno, ai, Emiliano, meu amor, juntos atin- gem na hora exata o destino do mel. As línguas se enroscam, tor- na-se mais apertado o abraço quando os corpos se abrem e se des- fazem em gozo. Ai, Tereza, exclama o amante e tomba morto.

4

Ao saltar da cama Tereza sente apenas o peso da morte sobre o peito e o ventre, o derradeiro estertor do amante, um gemido cavo, de dor ou de prazer? Ai, Tereza, disse e ali mesmo morreu, em pleno amor; já o companheiro inerte e ela ainda em júbilo se

deleitando na folgança, a desfazer-se em néctar até sentir o peso da morte. Não pôde gritar nem pedir socorro, tomados o peito, a garganta, a boca suja do sangue da outra boca, — até na morte sentindo-se a maneira do doutor na escolha da hora certa e na de- vida discrição.

Foram alguns minutos tão-somente durante os quais Tereza Batista se sentiu maldita e louca, tendo a morte por amante, com- panheira de cama e de deleite. Olhos esbugalhados, muda e perdi- da, imóvel ante o leito de alvos lençóis lavados em água de alfa- zema, não enxerga o doutor a quem o coração falhara, gasto nas decepções e no orgulho; vê a morte em gozo exposta. Ela, Tereza, a tivera peito contra peito, com os braços, pernas e coxas a pren- dera ao ventre, dela penetrada, a dar-se e a recebê-la.

A festa terminou. De súbito foi a morte, tão-somente a morte, instalada na noite, estendida na cama, arrodilhada no ventre e no destino de Tereza Batista.

5

À custa de ingente esforço, Tereza enfia um vestido, vai açor dar Lula e Nina, o casal de empregados. Deve estar com aspecto de louca, a criada se alarma: .

— O que foi, siá Tereza?

Lula aparece na porta do quarto, acabando de vestir a camisa. Tereza consegue dizer:

— Vá correndo chamar o doutor Amarílio, diga para vir de- pressa, doutor Emiliano está passando mal.

Saem correndo, Lula rua afora. Nina casa adentro, semi-nua nos trapos de dormir, a benzer-se. No quarto, toca e examina os lençóis marcados de sêmen e de morte, põe a mão sobre a boca a suster uma exclamação — ai, o velho morreu se esporrando, tre- pado nela, na condenada!

Tereza retorna em passo lento, ainda sem o completo domí- nio das pernas e das emoções. Ainda não se detém a pensar nas conseqüências do acontecimento. De joelhos aos pés da cama, Ni- na puxa uma oração e por baixo dos olhos espia a face de pedra da patroa — patroa lá dele, sou empregada do doutor. Por que a re- negada não cai, ela também, de joelhos a rezar, a pedir perdão a Deus e ao falecido? Esforça-se Nina em busca de lágrimas; teste- munha dos arroubos juvenis do idoso ricaço, para a criada aquela morte em condição tão singular não constitui surpresa. Tinha de terminar assim o bode velho, de congestão. Nina dissera e repetira a Lula e à lavadeira: um dia ele emborca na cama, em riba dela, afrontado.

Nos últimos tempos, o doutor não levava mais de dez dias sem aparecer em Estância e quando por força de afazeres se atra- sava, ali permanecia tempo dobrado, a semana inteira — noite e dia na barra da saia de Tereza, a-lhe mamar os peitos, a gozar com

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA 199

a perdida. Velho maluco, sem medir as forças, a desperdiçá-las com mulher jovem e fogosa, sem enxergar outra em sua frente, tantas a se oferecerem, a começar por Nina, e ele embruxado pela fingida, sem consideração à idade avançada nem às famílias gra- das pois não satisfeito de receber em casa da amásia visitas do Prefeito, do Delegado, do Senhor Juiz e até do padre Vinícius, sa- ía com ela de braço dado pela rua, iam fretar-se na ponte sobre o rio Piauí ou banhar-se juntos na Cachoeira do Ouro, no Piauitinga, a desavergonhada de maiô mostrando o corpo, ele praticamente nu, apenas os bagos cobertos por minúscula sunga, indecências da estranja a corromper os bons costumes de Estância. Assim nu, o velho ainda parecia rijo, bonitão, ainda homem de boa serventia; na idade, contudo, mais de quarenta anos o separavam de Tereza. Tinha de dar naquilo, Deus é bom mas é sobretudo justo e nin- guém adivinha a hora do castigo.

Velho fogueteiro. Por mais forte e sadio parecesse ia cumprir os sessenta e cinco, Nina o ouvira dizer na antevéspera ao doutor Amarílio, ao jantar, sessenta e cinco bem vividos, caro Amarílio, no trabalho e no prazer da vida. De mágoas e desgostos não falara como se não os tivesse. Homem gasto a bancar rapaz moderno, a fingir de garanhão — era na cama, era no sofá da sala, era na rede, em qualquer lugar e a toda hora, em incontinente abuso digno de quem possuísse dezoito anos e o mais que na velhice falta a todo homem, parecendo a ele não faltar, pecador empedernido.

Nas noites de lua, a lua de Estância enlouquecida em ouro e prata, quando Nina e Lula se recolhiam para dormir, os dois vici- ados, o caduco e a sem-vergonha, punham uma esteira sob as ár- vores, mangueiras centenárias, e ali faziam de um tudo, largando o leito de jacarandá com colchão de barriguda e lençóis de linho fino no quarto voltado para a viração do rio. Nina abria uma nesga na porta dos aposentos nas aforas da casa e entrevia na luz do luar o embate dos corpos, escutava no silêncio da noite os gemidos, os ais, palavras esparsas. Tinha de terminar em congestão cerebral, o doutor era de sangue forte. Calmo, raras vezes se exaltava mas, quando lhe acontecia contrariar-se ou enraivecer-se, o sangue su- bia-lhe à cabeça: a cara vermelha, os olhos em fogo, a voz um ru- gido, capaz de qualquer desatino. Numa única ocasião Nina o vira assim, quando um vendedor de inhame e aipim faltou-lhe com o respeito; segurou o tipo pelo gasnete, esbofeteando-o sem parar. Bastara, porém, um gesto e uma palavra de Tereza para fazê-lo suspender o castigo e recompor-se — o ousado, na garganta a marca dos dedos do doutor, saíra em disparada abandonando o cesto de raízes. Tereza mandara Nina buscar um copo com água; ao trazê-lo a criada os encontrou aos beijos e agrados, a cabeça do doutor no colo da rapariga. Raquítica criatura apareceu depois pa- ra recolher a carga de aipim, a pedir desculpas pelo atrevido; sempre a lhe dar desgostos; dessa vez tomara lição e tanto.

Por que fica Tereza ali parada, não vem rezar pela alma do falecido? Homem direito e bom, sem dúvida, mas emborcando em pecado mortal, em cima da amásia, sendo casado e pai de filhos,

avô de netos. Para salvar-lhe a alma só com muita oração, muita missa, muita promessa, muito ato de contrição e caridade, e quem mais deve pedir a Deus por ele senão a herege? Rezar e arrepen- der-se da vida errada em companhia do marido de outra, na imora- lidade a exigir o impossível das gastas forças do velho. Cabe-lhe a culpa da congestão, a ela e a mais ninguém.

Velho gaiteiro, buscando passar por competente, mostrar-se à altura da situação, de mulher na casa dos vinte, arretada, inconten- tável, carente de macho forte e jovem, de mais de um até. Por que a viciosa não arranjara xodó entre os rapazes da cidade, economi- zando assim as forças do burro velho? Tão viciosa a ponto de manter-se honesta guardando intactas para o coroca a ânsia, a pre- cisão, a labareda a consumi-la. Na exigência e no pecado da car- ne, o pior de todos os pecados como é por demais sabido, a siri- gaita matara o ricaço, quem sabe na pressa de receber a bolada.

Por que não se põe de joelhos para rezar pela alma do peca- dor? Ele não só precisa como bem merece terços, rosários e ladai- nhas, missas cantadas. Nina costuma prestar ouvido às conversas, enquanto varre a casa, arruma aqui e ali, atende e serve. Ainda no começo da noite, ao chegar no jardim com a bandeja de café, ou- vira referência a testamento na conversa do doutor com a combor- ça. Por que a ímpia não se lastima, não cobre a cabeça com cin- zas, não irrompe em gritos e soluços, não aparenta sequer? Fica ali, parada, muda, distante. Devia ao menos dar uma satisfação ao mundo enquanto espera o testamento e a partilha para gozar a vi- da, em Aracaju ou na Bahia, desperdiçando a massa dó velho bro- co com rapaz moderno, capaz de agüentar o baque da insaciável. Bolada de respeito certamente, dinheiro roubado pela indigna aos filhos e à legítima esposa a quem de direito cabe toda a herança. Rica e livre, a sabidória, um pecado a mais e dos maiores.

Espertalhona, sem moral, sem coração, depois de tê-lo suga- do e esvaído até a morte nem para agradecer as larguezas, os des- perdícios do defunto milionário, mão-aberta, louco por ela, nem para agradecer o testamento reza uma ave-maria, derrama uma lá- grima — nos olhos secos uma luz estranha, lá no fundo, carvão ardente. Nina renega o velho e a maldita, na contrição da reza.

6

Tendo ido Nina arrumar-se e ferver água, Tereza, sozinha no

Documentos relacionados