O TAO DO HOLOS
“O céu é meu pai e a terra, minha mãe,
e até uma criatura pequenina como eu encontra um aconchego no seu seio.
Aquilo que se entende por todo o universo eu contemplo como meu corpo,
e aquilo que governa o universo eu contemplo como minha natureza. Toda gente é meu irmão e minha irmã e todos os seres são meus companheiros.” (Chang-Tsai – Século XI)
O tao é o caminho, o princípio e o fim. A vida e a morte de todas as coisas. O holos é uno, a totalidade, é tudo. O contexto é o espaço onde tudo acontece. “Todo texto tem contexto”, sabia Paulo Freire, e nos diz a toda hora Daniel Silva.
Tudo que houve e haverá ocorreu e se dará sempre dentro de um contexto ambiental de uma bacia hidrográfica, fonte única de toda matéria prima, de todos os processos e destino final de todos os rejeitos.
Todas as bacias hidrográficas são irmãs, unidas num ciclo eterno das águas, filhas, estas, do mesmo oceano, berço e destino de todas as águas planetárias.
É o relevo do planeta que assim determina. Os ventos e as águas repartiram: ventos nas montanhas e os vales para as águas buscarem outras águas e, juntas, romperem montanhas e voltarem ao mar .
Todo fenômeno, ato, fato, ação humana, quando acontece, ocorre em um espaço real e essa ação contribui para gerar, nesse espaço real, um ambiente resultante, interacional, emergente, da relação desse fenômeno/ato/fato/homem/texto/contexto/tempo.
O ser humano, um entre um número estimado de 30 a 50 milhões de outras espécies de seres vivos, guardando em si zilhões de outros seres vivos, na microbiota natural que co-habitam os corpos humanos, é um fato-homem dentro do contexto cósmico planetário denominado fato-terra.
Aqui, nunca alhures, o homem exercita a apoteose da vida animal: come, dorme e reproduz. Tudo muito. Além do necessário. Muito além do suficiente.
Somos 6 bilhões de significativos impactos ambientais individuais humanos. Uns maiores, outros menores, cada um com seu significado ambiental. O prazer é sempre a satisfação de uma necessidade?
e a dor, uma carência, uma necessidade insatisfeita?
O prazer e a dor nos guiam. E necessidades são reais e necessidades são imaginárias. É como você chegar ao cinema com a projeção do filme já iniciada. Você fica ali vendo o movimento das personagens e tentando contextualizar cada uma delas, dentro de uma estória que você nunca está entendendo muito bem.
Neste instante falta energia elétrica no cinema escuro. A estória é interrompida, sem desfecho, sem final. No cinema, no máximo, alguém devolve seu ingresso.
Jack Kerouac, outro louco norte-americano, poeta bitnic, dizia que “felicidade é perceber que tudo não passa de um grande e estranho sonho.”
Nascemos para ser plenos e felizes e sofremos profundas dores, eternas e cruéis, originadas em nossa infindável criatividade humana. Talvez sejamos o único ser planetário que sofre, também, dores imaginárias, de legitimidade questionável e causas puramente simbólicas. Fôramos sábios e olharíamos em volta, só e apenas isto, reconheceríamos nosso contexto ambiental e atuaríamos nele, homeostático com ele. Teríamos ainda, e também, cor-agem, de agir com o coração, para viver com atenção e sensibilidade, capazes de perceber as inúmeras oportunidades de ousar emoções diárias verdadeiras. Seríamos, enfim, seres amorosos, pois fora do amor, emoção fundadora, não há chance alguma.
Maturana, na pedagogia do amor, reconhece minha legitimidade e, em contrapartida cooperativa, eu também reconheço a dele. Renato Russo, cantante, pedia “é preciso amar as pessoas.” Eric Fromm, filósofo, em A Arte de Amar, diz das infinitas possibilidades do amor. Platão já ensinava que o amor começa em mim por mim, no meu auto-conhecimento e aceitação de mim mesmo, no meu reconhecimento do outro, pelo outro, no mundo, pelo mundo. Caetano, filósofo zen-baiano, garante que “toda maneira de amor valerá” e Fernando Pessoa, poeta português , assegura que “tudo vale a pena se a alma não é pequena.”
Sem limitações humanas reducionistas, o Holos é a expressão do amor total maior. A linguagem do reconhecimento do amor é o respeito mútuo. Co-operar é operar junto, nunca mais sentir solidão! A fraternidade, a solidariedade, a legitimidade do outro próximo, e dos outros outros distantes, são expressões de uma mágica equação autopoiética, pois que, do amor e da paz, quanto mais amo, mais dou amor ao outro, crio e compartilho a paz, mais tenho amor e paz comigo. O meu pequenino amor é parte de um amor holístico, maior, total. A paz é o espaço necessário para este amor. Só por amor nasci, cresço e me torno maior na paz a cada dia.
Não se exigem realizações àqueles desprovidos de capacidades. Aos néscios, a sombra do esquecimento. Aos resistentes, portanto, fortes combates, possíveis derrotas e grandes vitórias. Teremos que ser rápidos e hábeis contra os adoradores do mal, inimigos da paz, promotores da degradação humana e ambiental.
Adoradores do bem, uni-vos! Urge agir!.
“Sou cidadão de Marte e de Saturno, ligado a todas as estrelas,
a todas as águas, a todos os animais, aos espaços vazios, à luz e à sombra, ao ruído e ao silêncio.”
Dom Helder Câmara (CZAPSKI, 1998:51)
2.1 – Marcos de Referência Legal
A ópera bufa ou tragédia entrópica crescente
No bojo da revolução cultural dos maravilhosos anos 60, a temática ambiental surgiu como bandeira na contracultura norte-americana, ecoando no planeta globonorteamericanizado, do pós II guerra, misturando feminismo, negritude, panteras negras, “black is beautyfull”, pacifismo, liberalismo sexual, cinema americano, peiote, peace and love, mochileiros sem fronteiras, latinoamericanidad, todo mundo nu udistoque tupiniquim, chá de cogumelo, televisão em preto e branco, maconha e violão, muito ácido lisérgico, doses alcoólicas de Raulzito e overdoses de rock americano e rock brasileiro, xerocopiado, sim, balançando cabeças, sim, dizendo que o tempo não pára, não pára e não pára. Onde você estava quando as luzes se acenderam ?
O livro Primavera Silenciosa, da jornalista Rachel Carson, em 1962, alertava para os riscos do uso indiscriminado de produtos químicos na natureza, na produção suicida de alimentos e criticava o modelo de desenvolvimento ensandecido, que constrói a sua negação, cava, com as próprias mãos, o próprio abismo, com as próprias bocas, suas covas.
“Elixires da Morte
Pela primeira vez na história do mundo, cada um dos seres humanos está agora sujeito a entrar em contato com substâncias químicas perigosas, desde o momento em que é concebido, até ao instante em que sua morte ocorre. Em menos de duas décadas do seu uso, os pesticidas sintéticos foram tão intensamente distribuídos pelo mundo – seja pelo mundo animado, seja pelo mundo inanimado – que eles aparecem virtualmente por toda parte. Tais pesticidas foram encontrados e retirados da maior parte dos grandes sistemas fluviais, e até mesmo de cursos de água que fluem, sem ser vistos por nós, através da Terra, por vias subterrâneas.” (CARSON, 1969:25)
Para atentarmos para a gravidade do pensamento linear do aumento da produção agrícola para exportação e geração de divisas, o Brasil é hoje o terceiro pais importador de insumos agrícolas, considerando como tais os agrotóxicos, os pesticidas, fertilizantes químicos. Há ainda a considerável produção nacional destes anabolizantes da produção agro-industrial brasileira. Há uma década, o Brasil vem quebrando recordes de volume de produção agrícola. Para esse incremento e crescimento de produção já foram desmatados, além de 95% da mata atlântica, 40% do cerrado brasileiro. Sacrificamos nossa maior fortuna natural em troca de dólares da exportação primária, em detrimento do atendimento ao mercado interno. As políticas públicas necessitam atuar de forma integrada. A percepção sistêmica deve gerar soluções sistêmicas. “O que reluz nem sempre é ouro”, sabem os filósofos simplórios.
A água no solo é parte do ciclo da água. A contaminação do solo é a contaminação da água. Os riscos para lençóis freáticos e aqüíferos é apenas uma questão de tempo. Do corpo solo ao corpo hídrico, do corpo hídrico para os corpos vivos, para o corpo humano, a saúde humana , e de todos os vivos, corre sérios riscos no ciclo eterno das águas, onde haja água, onde haja vida.
Em 1968 era publicado o “Relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade – Os Limites do Crescimento.”
“Já estamos lúcidos para antever catástrofes”,
diziam, e alertavam aos decisores da condução da humanidade para a necessidade urgente de medidas políticas, ecológicas, econômicas e sociais capazes de impedir o caos humano e, catastróficos, a hecatombe da espécie. Os efeitos e ameaças produzidas pelos atuais modelos de desenvolvimento econômico do primeiro mundo, usados como padrão no terceiro mundo, já mostravam a ponta do grande iceberg da crise ambiental global. A degradação batendo na nossa cara.Como sintomas da crise civilizacional, Leonardo Boff aponta:
“O sintoma mais doloroso...é um difuso mal-estar da civilização. Aparece sob o fenômeno do descuido, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de cuidado.
Há um descuido e um descaso pela vida inocente de crianças usadas como combustível na produção para o mercado mundial...
Há um descuido e um descaso manifesto pelo destino dos pobres e marginalizados... Há um descuido e um descaso imenso pela sorte dos desempregados e aposentados... Há um descuido e um abandono crescente da sociabilidade nas cidades. A maioria dos
habitantes sente-se desenraizada culturalmente e alienada socialmente... Há descuido e descaso pela dimensão espiritual do ser humano.
Há um descuido e um descaso pela coisa pública. Organizam-se políticas pobres para os pobres; os investimentos sociais em seguridade alimentar, em saúde, em educação e em
moradia são, em geral, insuficientes...
Há um descuido vergonhoso pelo nível moral da vida pública marcada pela corrupção e pelo jogo explícito de poder de grupos, chafurdados no pantanal de interesses
corporativos.
Há um abandono da reverência, indispensável para cuidar da vida e de sua fragilidade... Há um descuido e um descaso na salvaguarda de nossa casa comum, o planeta Terra.
Solos são envenenados, ares são contaminados,
águas são poluídas, florestas são dizimadas,
espécies de seres vivos são exterminadas;
um manto de injustiça e de violência pesa sobre dois terços da humanidade.” (BOFF, 1999:20)
Neste contexto, dez anos após a Primavera Silenciosa, aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, conhecida como Estocolmo72. Enquanto a delegação brasileira nessa conferência clamava por dólares, empregos e poluição, a UNESCO e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA – lançaram as bases para um Programa Internacional de Educação Ambiental – PIEA, que foi referendado na Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, realizada em Tbilisi – Geórgia, antiga URSS, em 1977.
Na Rio/92, em reunião paralela, o MEC e demais participantes lançaram a Carta Brasileira para a Educação Ambiental.
“O MEC ainda está devendo para a sociedade brasileira o cumprimento da recomendação de inserir a educação ambiental no ensino superior.” ,
nos lembra José Carlos Barbieri, na introdução do documento intitulado Educação Ambiental Legal, disponibilizado no site do www.mec.gov.br
Ainda no Educação Ambiental Legal, João Roberto Cilento Winther, em Parecer Técnico Jurídico sobre a Política Nacional de Educação Ambiental – Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, destaca o vínculo jurídico da
integração da política de educação ambiental com as demais políticas públicas
expressas em dispositivos legais (muito legais!) como a
Lei Federal nº 7.347, de 24 de julho de 1985, conhecida como Lei dos Interesses Difusos e Coletivos; e a Lei n° 6.938, de 31 de agosto de 1981, da Política Nacional de Meio Ambiente.
Destacamos a Lei n° 9.433, de 9 de janeiro de 1997, da Política Nacional de Recursos Hídricos, em processo moroso de regulamentação, reconhecendo a importância da educação ambiental para a sustentabilidade dos recursos hídricos no país.
Na Resolução n.º 5, do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, das atribuições dos comitês, a educação ambiental lá está, integrando as duas importantes políticas públicas. “Art. 7º Cabe aos Comitês de Bacias Hidrográficas:
(...)