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6 ANÁLISE DOS DADOS

6.5. Construções modais

6.5.5. Com valor modal atributivo/predicativo

Curiosamente, esse uso do como é muito mal explorado pelas nossas gramáticas normativas, sob variados outros rótulos. Na verdade, só podemos encontrar algumas observações acerca deste uso em poucos autores, entre eles Bechara (1999), quando este fala no aposto circunstancial. Mesmo assim, parece não se tratar do mesmo uso que evidenciaremos em nosso corpus. Vejamos a definição dada pelo autor e logo em seguida um exemplo dado por ele mesmo (1999:457):

“Aposto circunstancial (comparação, tempo, causa, etc., precedido ou não de palavra que marca

esta relação a mais, já que o aposto explicativo acrescenta um dado a mais acerca do fundamental)”.

(210) As estrelas, como grandes olhos curiosos, espreitavam através da folhagem.

Luft (2000:43) fala em aposto atributivo ou explicativo. O exemplo dado pelo autor aproxima sua abordagem da de Bechara (1999). Vejamos:

(211) O mestre, como guia da juventude, deve levar vida exemplar.

Moura Neves (2000:433) também aborda o fenômeno de maneira similar. Ao falar em sintagmas nominais em aposição, a autora cita os seguintes exemplos:

(212) Eu, como professor de arte, poderia escolher qualquer um dos quadros pendurados na parede.

(213) A respeito da sua dança de São Vito, digo-lhe, como médico, que pastilhas de ópio têm surtido excelentes resultados no tratamento da moléstia.

Os autores supracitados, como vimos, apresentam abordagens similares ao fenômeno, mas, na verdade, não o enfocam de maneira muito clara. De uma maneira geral, tratam do assunto de maneira inadequada e restringem-se às construções não-oracionais. Verificamos, assim, um grave problema descritivo que leva a um profundo desconforto analítico.

Segundo Ayora (1991:73), o como com valor modal atributivo ou predicativo é muito freqüente em espanhol. Acreditamos que sua produtividade também seja bastante alta em língua portuguesa. Neste uso específico, o como pode ser substituído pela expressão em forma de. Possui uma das seguintes estruturas:

VERBO + SN1 (objeto direto) + COMO + SN2 ou

Nessa estrutura, o significado de um sintagma nominal é definido ou interpretado, segundo o significado do outro SN. Temos, assim, um SN ligado ao verbo e outro SN ligado ao como, conforme atesta o quadro anterior.

À estrutura como + SN2 , denominaremos complemento predicativo, como fizeram Alcina y Blecua (1975). Segundo Ayora (1991:75-6), esse termo genérico tem a vantagem de reunir tanto o complemento predicativo quanto o atributivo, que são descritos por Gómez Torrego (1985:88) da seguinte maneira:

“Se o elemento que complementa o nome e o verbo é eliminável sem que o verbo tenha seu significado e função afetados, temos um

predicativo; por outro lado, se isso não é possível,

temos um atributivo.”

(214) Consideraram aquela chuva como um bom sinal para os tempos vindouros. (exemplo referente à estrutura 1)

(215) A Dinamarca foi qualificada como o país menos corrupto do mundo. (exemplo referente à estrutura 2).

Nesta pesquisa, optamos por não estabelecer a diferença entre o uso predicativo e o atributivo, já que nosso objetivo, como já dissemos, é propor uma descrição lingüística adequada, mas simples. Novamente, devemos frisar que, segundo nossa avaliação, tal atitude não conspurca a qualidade global do trabalho.

Vejamos nossos dados:

(LXXVII) A fusão agora consumada | teve seu primeiro projeto em | 1959 através de plano elaborado | pelo economista e sociólogo Paulo de Assis Ribeiro, atendendo a | pedido do Centro Industrial do | Rio de Janeiro. Logo esquecida, a idéia renasce em janeiro de | 1970, quando a Federação das | Industrias do Estado da Guana- | bara (FIEGA) entrega ao Gover- | no federal um estudo e antepro- | jeto de lei complementar, suge- | rindo a medida COMO um remé- | dio para a estagnação industrial do Estado-município. E-B-94-Jn- 001

(LXXVIII) O futebol brasileiro viveu ontem um dia de contrastes. | Em Lisboa, Ronaldinho foi escolhido pela Fifa

troféu | (foto) ao lado do inglês Alan Shearer, terceiro colocado | na votação de 120 técnicos de todo o mundo. E-B-94-Jn-025 (LXXIX) O presidente definiu o encontro COMO | uma conversa entre pessoas que se respeitam. E-B-94-Jn-030

(LXXX) As autoridades admitem tratar-se de «correios» de diferentes redes de tráfico de droga, que utilizavam Portugal

COMO escala, já que o destino da droga era, nos dois casos,

Espanha. E-P-95-Jn-007

Como pudemos verificar, o uso do como com valor modal atributivo ou predicativo é o mais prototípico, com 30,8% de todas as ocorrências modais, ou seja, praticamente 1/3 dos usos registrados. Segundo Ayora (1991:73), esse uso deve ser qualificado como modal, posto que “aparece o como indicando implicitamente a qualidade do substantivo, ou o conceito com o qual se lhe compara ou equipara mentalmente”.

O uso do como nessa função predicativa/atributiva é abordado inadequadamente em nossas gramáticas normativas com o rótulo de preposição acidental (c. Leitão, 2000; Ribeiro, 2004). A riqueza pragmática do termo praticamente é nula em termos de abordagem teórica, apesar da alta freqüência de uso, como pudemos comprovar.

Essa construção modal, como vimos, tem como objetivo definir ou interpretar o valor de um substantivo segundo o significado de outro. Há, estruturalmente, um substantivo ligado ao verbo e outro substantivo ligado a como e introduzido por tal elemento. Assim, em termos estruturais, podemos representar os exemplos de nosso corpus da seguinte forma:

(LXXVII‟) Federação das Indústrias do Estado da Guanabara - sugerir – medida – COMO – remédio para a estagnação industrial do Estado-município.

(LXXVIII‟) FIFA - escolher – Ronaldinho – COMO – melhor jogador do mundo em 1996. (LXXIX‟) Presidente - definir – encontro – COMO - conversa entre pessoas que se respeitam. (LXXX‟) Redes de tráfico de drogas – utilizar – Portugal – COMO – escala.

As estruturas acima podem ser esquematizadas da seguinte forma: SN1 (sujeito) + V + SN2 + COMO + SN3. Uma regularidade digna de nota é que SN2 e SN3, nos casos acima, são correferenciais, ou melhor, o último termo da estrutura SN3 é sempre atributo ou

predicativo do termo expresso em SN2, segundo avaliação de SN1. Podemos concluir, portanto, que SN2 é melhor explicitado ou caracterizado em SN3.

Há outros usos atributivos/predicativos do como com função idêntica à anteriormente analisada, porém, com pequenas diferenças estruturais. Vejamos:

(LXXXI) Mais tarde ou mais cedo surgirá pois, inevitavelmente, no palco planetário, uma potência ou um conjunto de potências que se constituirão COMO alternativa à liderança solitária dos Estados Unidos. E-P-95-Je-010

(LXXXII) Se existem ambições de mando- objeto substantivo do jogo do Poder- elas estariam ocultadas por uma espécie de pudor apolítico. Ora, compreende-se o apoliticismo COMO forma burocrática ou tecnocrática de fazer política. De fato ela não é a conduta mais aconselhável. E-B-94-Je-001

Os exemplos (LXXXI) e (LXXXII) também espelham usos modais do como com valor atributivo/predicativo. A diferença reside no fato de serem construções introduzidas por verbos na voz passiva sintética, adquirindo, portanto, caráter mais econômico.

Por fim, registramos também usos modais de valor atributivo/predicativo em construções com voz passiva analítica. Vejamos:

(LXXXIII) Nada menos de 28 legendas disputaram os cargos, embora não mais de 6 delas pudessem ser apontadas verdadeiramente COMO Partidos. E-B-94-Je-003

Como pudemos verificar, essa construção é intensamente utilizada em nossa língua portuguesa, principalmente por conta de seu poder argumentativo. Por ora, verificamos a premência de se encetar outros trabalhos empíricos com o objetivo de descrê-la mais pormenorizadamente.

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