5. CAPÍTULO V – DISCUSSÃO
5.6. Combate ao racimo nas escolas: a quem cabe essa luta?
Gomes (2005) argumenta que, para muitos educadores, a tarefa de discutir as relações raciais não cabe ao sistema educacional, sendo geralmente atribuída à militância do Movimento Negro, aos sociólogos e antropólogos, o que velaria a crença de que, à escola, cabe apenas o papel de transmitir conteúdos. O presente estudo encontrou alguns resultados diferentes, pois os professores o atribuíram também, à autoridades, órgãos e grupos que, hierarquicamente, estão ligados ao sistema educacional.
A partir dos discursos apresentados, pode-se dizer que, para os professores, de uma forma geral, a implementação de ações de combate à situações semelhantes à relatada pela pesquisa é uma tarefa conjunta, que não cabe apenas ao professor. Foi prioritário a atribuição deste papel às autoridades governamentais e aos órgãos diretamente ligados à Educação, como visto nas classes 4, 3 e 2 que representam 63,3% do total do corpus. Cabe ainda a todos que compõe o ambiente escolar, como a
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comunidade e a família, tal como indicado no discurso que compôs a Classe 1. Destaca- se também a atribuição àqueles que são alvo de discriminação.
Observa-se, pelos termos presentes nos discursos apresentados, um posicionamento de certo distanciamento e passividade diante da questão. Ao afirmar que cabe ao governo e secretarias ligadas ao sistema educacional a tarefa de implementar ações de combate ao racismo nas escolas, fica implícito o papel do professor como executor de leis e medidas previamente elaboradas. Esse posicionamento cria um paradoxo com o discurso apresentado na questão anterior. Se cabe ao professor a tarefa de executar as ações implementadas pelas autoridades do sistema educacional e se isso é feito sem a participação dos educadores em sua elaboração, o resultado são medidas que não representam estes últimos e que não são executadas de modo a produzir os resultados a que se propôs.
Esse distanciamento é também verificado nos discursos que atribuem aos alvos da discriminação a tarefa de exigir a efetividade das ações implementadas. Assim como ao atribuir essa tarefa ao Movimento Negro, o combate ao racismo torna-se papel apenas daqueles que o vivenciam, eximindo a responsabilidade dos demais, inclusive dos que o manifestam.
Uma maior aproximação é verificada nos discursos que atribuem esse papel à escola e aos grupos mais envolvidos, presentes e ativos no ambiente onde os professores atuam, tais como os membros da comunidade escolar e a família dos alunos. Como destaca Gomes (2002), não se pode dizer que o desinteresse pela temática é comum a todos os educadores visto que têm aumentado o número de docentes envolvidos na criação de estratégias de combate ao racismo na educação. Ainda que esse discurso tenha sido reunido em uma classe percentualmente maior quando comparada às demais classes de forma individual, a semelhança dos discursos verificados nas outras classes
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apontam para o predomínio de um discurso que distancia o professor do papel de implementar tais ações.
Essa dicotomia aproximação/distanciamento emergiu também quando os professores foram questionados sobre um envolvimento pessoal com a situação descrita pela pesquisa.
A partir dos segmentos de texto que compuseram cada uma das classes formadas, observam-se dois diferentes posicionamentos no discurso dos professores. Por um lado, foram reunidos nas classes 6, 2 e 4, que representam 55,7% do total do
corpus, o discurso daqueles que não se sentem pessoalmente envolvidos, seja por o
preconceito ser algo que atinge a todos de uma forma geral ou por não acreditarem na existência de preconceito de cunho racial em nosso país, o qual seria motivado, na verdade, por diferenças econômicas. Por outro lado, as classes 5, 1 e 3, que representam 44,2% do total do corpus, reúnem o discurso dos que se sentem pessoalmente envolvidos, por serem educadores e por acreditarem que é papel do educador o trato com situações de racismo nas escolas.
Ao negar a existência de preconceito racial no país, o professor se distancia da mesma, assim como ao atribuí-lo como um problema de todos, não envolvendo nenhum indivíduo de forma pessoal pela sua ocorrência, tão pouco os professores.
Dentre os que se declaram pessoalmente envolvidos, é interessante destacar que o fazem por se sentirem comprometidos, por serem educadores, a tratar todos os seus alunos de forma igualitária e contribuindo para que não haja, também, entre os alunos, situações de discriminação entre eles.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo se propôs a observar as relações raciais na escola a partir da ótica dos professores. Nesse percurso, foi observada uma série de resistências provocadas pela temática, em uma dinâmica semelhante a que é verificada na população brasileira em geral quando questões relacionadas ao preconceito, à discriminação e ao racismo vêm à tona.
Os professores apresentaram certa rejeição à temática, expressa na recusa em participar do estudo e respaldada na negação da existência de preconceito racial no país e em seu local de trabalho. Entre os participantes, houve uma tendência a reconhecer a influência do preconceito racial quando em referência ao contexto das escolas em geral, mas uma negação de sua existência ou influência no ambiente escolar onde atuam.
Quanto a possíveis medidas com vistas à modificação do quadro de racismo verificado nas escolas, foi observado um posicionamento que parece se opor ao princípio que rege as ações afirmativas implementadas com vistas a minimizar as desigualdades raciais presentes em diferentes espaços sociais, como o sistema educacional. Enquanto nestas a cor da pele constitui critério de inclusão, o discurso dos professores sugere, como uma medida a ser adotada, uma menor ênfase atribuída à cor da pele.
Em relação aos responsáveis pela implementação dessas medidas, não se pode dizer que os professores não a atribuem a si, contudo, foi observado certo distanciamento desse papel ao atribuí-lo, prioritariamente, aos órgãos hierarquicamente superiores que compõe o sistema educacional. A implementação de ações somente pelo governo e secretarias de educação sem um maior envolvimento dos professores pode levar à promulgação de medidas que não os representam, resultando em determinações
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que, muitas vezes, não são cumpridas pelos docentes ou são executadas de forma distorcida.
Não se pode negar a importância que possuem os professores na tarefa de superação do racismo nas escolas e para isso, é fundamental uma formação específica para lidar com a temática do preconceito e do racismo em suas práticas de ensino e em seu relacionamento com os alunos. Para que essa formação possa resultar em ações efetivas, um primeiro passo pode ser considerar o modo como os próprios professores vêem o racismo nas escolas.
Em sua experiência de formação para o trato com as relações raciais de líderes sindicais, Bento (2002), procura observar as reações dos participantes e atuar sobre elas. Em discussões sobre o racismo, observa a autora, as pessoas esperam deparar-se com uma situação que se encontra na sociedade, mas que não a envolvem diretamente ou a instituição da qual fazem parte. A temática pode levar a reações tais como a negação do preconceito e da discriminação, a dúvida diante dos dados apresentados, a isenção do branco, além da culpabilização dos negros pela discriminação que sofrem visto que eles mesmos se discriminam. A partir das reações manifestadas pelos participantes e da visão destes quanto ao racismo nos sindicatos, são promovidos planos de ação elaborados pelos mesmos com o propósito de pensar sobre possíveis ações antirracistas.
Iniciar a formação de professores a partir de seus discursos e reações frente ao racismo nas escolas poderá converter-se em ações com as quais haja um maior envolvimento, resultando em práticas mais efetivas de combate ao racismo nas escolas.
Com vistas a obter uma visão mais ampla quanto o racismo nas escolas na ótica dos professores, pretende-se, em estudos posteriores, ampliar a amostra, sobretudo à docentes de instituições particulares e buscar uma compreensão mais profunda sobre
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influência das variáveis caracterizadoras dos participantes, tais como idade, cor da pele, nível e escolaridade nos discursos que apresentam.
Pretende-se ainda submeter os dados produzidos às demais possibilidades de análise textual oferecidas pelo software IRAMUTEQ, o que poderá contribuir para o desenvolvimento deste programa que ainda encontra-se em fase experimental.
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ANEXO A. Questionário.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PSICOLOGIA SOCIAL
MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
INSTRUÇÃO
A presente pesquisa tem o propósito de observar o posicionamento dos professores