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5 IDADE E GÊNERO

5.2 COMEÇAR A EXISTIR / TORNAR-SE ADULTO

As crianças estão presentes nas descrições de enterramentos das arqueografias de sítios de pescadores – coletores do litoral do estado do Rio de Janeiro, em meio aos adolescentes, jovens, adultos jovens e idosos, em toda a extensão geográfico-temporal da pesquisa, não cabendo, em relação a essas descrições, a crítica de invisibilidade discutida no início da seção. Elas estão ali, sua existência registrada. O gráfico abaixo dá uma dimensão dessa presença, no conjunto total da amostra2.

GRÁFICO 1: Crianças de 0 a 12 anos

EM 407 INDIVÍDUOS 23%

CRIANÇAS DE 0 a 12 anos

Um sítio com uma amostra mais significativa, como o Corondó, com 120 indivíduos, tem uma proporção maior de crianças (são 58 crianças de 0 a 12 anos), alguns daqueles com amostra bem menor também as incluem, embora em proporção bem menor, como se observa no quadro a seguir:

QUADRO 1: Crianças por amostra (exemplos)

SÍTIO TOTAL DE INDIVÍDUOS TOTAL DE CRIANÇAS (0/12 anos) Algodão (sup) 6 2 Guaíba 7 2 Major 8 3 Massambaba 7 1 Ilha de Santana 4 1 Tarioba 17 8

2 Os percentuais apresentados em gráficos e quadros são números arredondados, que visam dar uma idéia da ordem de grandeza.

Há sociedades que abandonam os infantes e as crianças pequenas por desconsiderá-los, por não lhes atribuir existência social. O ato de prover um ritual de enterramento nos mesmos espaços físicos onde se realizavam os enterramentos dos adultos, como o faziam os pescadores-coletores, constitui indicativo da percepção, pelo corpo social, de pelo menos uma parte das crianças.

As crianças são enterradas predominantemente ao lado de adultos ou de outras crianças, mas também ocorre de serem enterradas sozinhas, como mostra o quadro abaixo:

QUADRO 2: Crianças sós ou acompanhadas

CRIANÇA CRIANÇA COM CRIANÇA CRIANÇA COM ADULTO NÃO DEFINIDO 13 7 62 14 13,5% 7,5% 64,5% 14,5%

Da mesma forma como ocorre com os jovens e os adultos, os cenários de enterramento são os mais variados. Observam-se muitas crianças sem qualquer acompanhamento, outras com apenas corante e umas poucas com adornos, uma variabilidade que expressa construções simbólicas do mundo dos adultos e que espelha o olhar dos adultos sobre elas. Os gráficos a seguir dão uma idéia dessa variabilidade no acompanhamento:

GRÁFICO 2: Crianças sem acompanhamentos CRIANÇAS 0 a 12 anos

55%

GRÁFICO 3: Crianças com corante e outros (sem adornos) CRIANÇAS 0 a 12 anos

35%

CORANTE E OUTROS (SEM ADORNOS)

GRÁFICO 4: Crianças com adornos CRIANÇAS 0 a 12 anos

10%

COM ADORNOS

Observando-se as idades das crianças no registro arqueológico, percebe-se uma variação, resultado da interação de diversos fatores como preservação, mortalidade, representatividade da amostra e escolha cultural. Enquanto escolha cultural, a idade a partir da qual a criança passa a ter existência social varia de sociedade para sociedade. Considerando o registro tal qual ele se apresenta, compomos um quadro com o total de indivíduos por sítio ou camada, o total das crianças de 0 a 12 anos, e a idade mais baixa observada para cada sítio ou camada, com o intuito de identificar variações locais e temporais dos patamares etários a partir dos quais as crianças estão presentes no registro arqueológico. Obtivemos o seguinte quadro:

QUADRO 3: Idade mínima3 SÍTIO TOTAL INDIVÍDUOS TOTAL CRIANÇAS (0 a 12 anos) IDADE MÍNIMA BAÍA DA ILHA GRANDE

Algodão (sup) 6 2 0/2 meses

Algodão (inf) 13 2 -

Major 8 3 3/5 anos

Peri 1 - -

Caieira II - - -

Ilhote do Leste 33 2 6 anos

Ponta do Leste 1 - -

Guaíba 7 2 2 anos

GUARATIBA

Zé Espinho (―A‖) 12 2 4/5 anos

Zé Espinho (―D‖) 11 - (13/15 anos) BAÍA DE GUANABARA Amourins 2 - - Arapuan 17 2 fetos Sernambetiba 5 - - ÁREA DE SAQUAREMA Itaúnas 4 - (12/15 anos) Beirada (I) 12 - -

Beirada (II) 10 1 7/9 anos

Beirada (III) 8 2 6/18 meses

Beirada (IV) 2 1 9/11 anos

Manitiba I 2 - -

Moa (I) 13 4 0/6 meses

Moa (II) 20 2 0/6 meses

Saquarema 9 - -

Pontinha (I) 2 1 3/4 anos

Pontinha (II) 7 - -

Pontinha (III) 5 - -

Pontinha (IV) 5 - -

ÁREA DE CABO FRIO

Forte (I) 13 1 4/5 anos

Forte (II) 3 - -

Cond.do Atalaia 3 1 (?) -

Massambaba 7 1 7/8 anos

Boqueirão 4 - -

Geribá I 3 - -

PLANÍCIE DO RIO SÃO JOÃO

Corondó (I) 9 4 2/3 anos

Corondó (II) 27 10 3 meses

Corondó (III) 23 14 0 a 1 ano

Corondó (IV) 61 28 recém-nascida

Ilha da B. Vista I 18 2 6 a 12 meses

MACAÉ

Tarioba (IVb) 7 2 0/3 meses

Tarioba (IVa) 5 2 recém-nascida

Tarioba (110/130 cm) 3 2 recém-nascida

Tarioba (40/50 cm) 2 2 6 meses

Ilha de Santana 4 1 recém-nascida

TOTAL 407 96

Os dados são apresentados segundo uma seqüência espaço – temporal que teve por parâmetros, na dimensão espacial, as áreas de concentração de sambaquis no estado do Rio de Janeiro (TENÓRIO 2003, p.177-187), acrescida da região de Macaé, na qual não se observam

grandes concentrações de sítios, mas para a qual dispomos de algumas descrições. Na dimensão temporal, consideramos datações disponíveis na bibliografia (ANEXO A - DATAÇÕES). Essas datações foram utilizadas para compor um panorama temporal de caráter apenas aproximativo, suficiente para o que pretendíamos apurar.

Considerando as datações, os sítios foram situados em três faixas temporais, numa ampliação livre do modelo proposto por Márcia Barbosa para Saquarema (BARBOSA, 2007) correspondentes, grosso modo, aos períodos inicial, central e final da ocupação sambaquieira no litoral do estado do Rio de Janeiro. O ―período inicial‖ corresponderia a uma faixa, aproximadamente entre 7.800 AP e 5.000 AP (onde se incluiriam Algodão Inferior, Itaúnas, Forte I e Beirada IV); o ―período central‖ à faixa temporal entre 4.600 AP e 2.600 AP (incluindo Algodão Superior, Major, Peri, Caieira II, Ilhote do Leste, Ponta do Leste, Amourins, Arapuan, Beirada [III, II e I], Manitiba I, Moa II e I, Forte II, Corondó [IV, III, II e I] e Ilha da Boa Vista I); e o ―período final‖, à faixa entre 2.500 AP a 1.000 AP (incluindo Guaíba, Zé Espinho ―D‖ e ―A‖, Sernambetiba, Saquarema, Pontinha [IV, III, II e I], Geribá I, Tarioba [IV b e IV a], Ilha de Santana).

Estabelecemos dois patamares etários: o dos infantes e crianças menores, com idades mínimas variando entre 0 e 24 meses; e o das crianças maiores, com idades mínimas que vão de 3/5 anos a 9/11 anos de idade. Os patamares escolhidos representam tendências, para menos ou para mais, não idades concretas. Associando o fator espaço – temporal às idades, observa-se que a idade mínima a partir da qual as crianças aparecem no registro arqueológico varia conforme os grupos sociais e ao longo do tempo dentro dos grupos sociais. Propomos algumas hipóteses como discussão, levando em consideração que, em algum nível, as idades mínimas verificadas no registro arqueológico incluem, entre os fatores que geraram esse registro, escolhas culturais de incorporação da criança à sociedade.

Identificamos cinco situações, a primeira delas tem por base a observação de que três dos quatro sítios do período remoto da ocupação sambaquieira apresentam idades mínimas que vão de 4/5 anos de idade a 12/15 anos de idade (Quadro: Idade Mínima). Em que pese o tamanho das amostras, não há infantes ou crianças pequenas. Neste contexto pode estar atuando mais fortemente o fator de baixa preservação de ossos de infantis, por corresponder à faixa temporal mais remota do conjunto de dados. A este fator acrescentaríamos a possibilidade da escolha cultural de incorporação mais tardia da criança ao universo social.

Considerando a área da Lagoa de Saquarema, na faixa temporal ―central‖ da ocupação sambaquieira, nos primeiros níveis, o registro arqueológico apresenta crianças em idade mais tenra. Este é o caso do Beirada camada III e do Moa camadas II e I: as idades mais baixas vão de 0/6 meses a 6/18 meses. Na medida em que se avança no tempo, as idades mínimas começam a subir, ou simplesmente não há mais crianças (QUADRO 3: Idade Mínima). Isto ocorre nas camadas II e I do Beirada, no sambaqui de Saquarema e em todas as camadas do Pontinha. Na interpretação de Márcia Barbosa, o sambaqui de Saquarema representa ―o início do colapso da sociedade sambaquiana e Pontinha o seu fim‖ quando, entre elementos da cultura que permanecem, manifestam-se mudanças no universo simbólico relacionadas às práticas funerárias, em especial a cremação (BARBOSA, 2007 pág. 239 – 241). Se o aumento do patamar da idade mínima observável no registro arqueológico for decorrente, também, de uma escolha cultural, poderia ser um dado a agregar às transformações culturais do final da ocupação sambaquieira na área.

No sítio Zé Espinho, na área da planície de Guaratiba, subdividido em sambaqui ―A‖ e sambaqui ―D‖, não há registro de enterramentos de infantes ou crianças em tenra idade, em nenhum de seus componentes, ressaltando-se que a amostra não é das menores, no quadro geral, com 23 indivíduos representados, todos com idade estimada. Em termos de escolha cultural, se

configuraria aqui uma tendência de incorporação mais tardia das crianças, que coincide também com a faixa temporal ―final‖ da ocupação sambaquieira, como no caso anterior da área da lagoa de Saquarema.

Na área da Baía de Ilha Grande, no sítio Ilhote do Leste, com a significativa amostra de 33 indivíduos, só foram identificadas duas crianças, uma delas com idade de 6 anos (a outra não teve idade identificada) ―[A] indiscutível pouca incidência de crianças enterradas no sítio [reforçaria, para Cristina Tenório,] a hipótese de que alguns indivíduos tivessem sido sepultados fora dele‖ (TENÓRIO 2003, p.509). Considerando que uma sociedade pode optar pelo não enterramento de determinadas categorias de pessoas, propomos, para a circunstância descrita, discutir a possibilidade, também, de o registro arqueológico apontar para uma escolha cultural, para o reconhecimento mais tardio da criança enquanto membro do grupo social.

A quinta situação está relacionada à região da bacia do rio São João. Nos dois sítios da área, para os quais há descrições pormenorizadas, o Corondó e o Ilha da Boa Vista I, as crianças mais novas têm idade muito tenra. No Corondó, elas aparecem em todas as camadas de ocupação e seu número é absolutamente surpreendente. Neste caso, a grande presença de crianças em tenra idade pode estar mais fortemente associada ao grande número de indivíduos da amostra, embora que na camada mais recente o número de indivíduos seja relativamente menor e, ainda assim, as crianças pequenas estejam ali. O Ilha da Boa Vista, com um total bem menor de indivíduos, também apresenta crianças bem pequenas no registro arqueológico. Caso o fator escolha cultural fosse preponderante, teríamos, no caso do Corondó, uma escolha de longa duração, nos seus mais de 1.000 anos de ocupação.

A questão complementar a que se discutiu até agora diz respeito ao início da vida adulta. Seria possível distinguir no ritual funerário dos enterramentos em sítios de pescadores-coletores

elementos indicativos dessa transição? Em termos de cultura material, isso significaria detectar variações palpáveis entre enterramentos de indivíduos biologicamente adultos e não adultos. Uma classe de artefatos, os ―instrumentos‖, são mais freqüentemente vistos como atributos da pessoa adulta e, como tais, ocorreriam em seus enterramentos, numa perspectiva de que representassem objetos da pessoa falecida. Os instrumentos se constituiriam, em princípio, nos parâmetros ideais para o reconhecimento do momento de transição para a vida adulta. Analisando-se sua ocorrência nos diversos sítios, entretanto, esse panorama não se confirma. Os instrumentos utilitários, embora sejam encontrados preferencialmente em enterramentos de adultos ocorrem, também, associados a crianças bem pequenas, embora que em número bastante restrito, como mostra o quadro:

QUADRO 4: Crianças com instrumentos

SÍTIO Nº IND. IDADE INSTRUMENTOS

Corondó 110 A 6 meses / 1 ano 1 ponta óssea 111 2 / 3 anos 1 artefato de concha Ilhote do Leste S6 (7) criança 3 pontas ósseas

A6 (22) 6 anos 59 pontas ósseas

Moa 25 1 / 1 ano e meio 1 almofariz de diabásio Tarioba 4 0 a 3 meses 3 batedores, 1 mó, 1 lasca

Todos os exemplos acima se referem a enterramentos individuais, ou coletivos com apenas crianças, não pairando dúvida quanto à sua atribuição. Sua ocorrência, nesses casos, descarta a possibilidade de se tratarem de objetos de uso pessoal do falecido. Por outro lado, o espectro de possibilidades simbólicas é amplo: doação do adulto à criança, como manifestação de pesar; objeto indicativo de atividade futura da criança; símbolo de pertencimento a um sub-grupo na sociedade, associado ao instrumento.

A distribuição dos instrumentos não parece ser o parâmetro adequado para investigar a faixa etária na qual se daria a transição da infância para a vida adulta, já que acompanham crianças tão pequenas e, por outro lado, observam-se numerosos adultos sem eles. Uma situação bastante especial ocorre no Beirada em que não há qualquer instrumento em contexto funerário,

para adulto ou criança. O único ―instrumento‖ é uma ponta óssea ―fincada‖ entre as costelas de uma mulher, sua provável causa mortis.

Um melhor parâmetro de diferenciação entre infância e idade adulta seriam os adornos. Eles existem para adultos e crianças, mas os adornos das crianças se constituem, em muitos casos, de um maior número de peças do que as dos adornos dos adultos. Investigar como se distribuem os adornos poderia propiciar um melhor indicativo da transição para a vida adulta. O único conjunto de dados capaz de permitir uma reflexão dessa natureza é o sítio Corondó, já que todos os 120 indivíduos foram identificados por sexo e idade, uma amostra em que todas as faixas etárias estão representadas com estreito grau de precisão.

Reunindo todos os indivíduos com adornos no Corondó, tem-se o seguinte quadro: QUADRO 5: Indivíduos com adornos no Corondó

Nº IND IDADE ADORNOS

118 A 0 /1ano 25 dentes humanos, 35 dentes de animais 64 A 6 meses / 1 ano 35 dentes humanos, 9 dentes de animais

110 A 6 meses / 1 ano 13 dentes de felino

111 2 /3 anos 3 dentes de felino

91 9 / 10 anos 11 dentes humanos, 9 dentes de animais, 1pingente lítico 73 15 / 17 anos 18 dentes de animais

125 25 anos 5 vértebras de peixe

120 30 /35 anos 10 vértebras de peixe 122 30 / 35 anos 2 dentes de tubarão, 2 vértebras de peixe 107 + 40 anos 5 dentes de felino, 1 concha

58 45 anos 3 dentes de animais, 4 vértebras de peixe, 1 concha

87 46 anos 1 pingente lítico

52 + 50 anos 1 dente de cachorro-do-mato, 1 unha de capivara, 3 conchas 106 A adulto 6 dentes de felino, 1 dente humano

Associando os fatores idade, quantidade de peças do adorno e material de que este é feito, obtêm-se dois conjuntos, que destacamos no quadro anterior, o primeiro formado por idades que vão desde as crianças pequenas até o jovem de 15/17 anos; o segundo constituído de adultos na faixa de 25 a + 50 anos. O limite etário superior do primeiro conjunto produz um patamar para o que poderia ser o início da vida adulta no Corondó, pelo critério da quantidade de peças dos adornos, situado em algum ponto após os 15/17 anos. O patamar etário inferior do segundo

conjunto inicia um padrão diferente, que inclui, de uma maneira geral, adornos feitos de outros materiais e com menor quantidade de peças.

Chamamos a atenção para o fato de que os elementos que compõem os conjuntos que construímos não têm caráter absoluto, tanto há criança com número pequeno de peças, como adulto com um número um pouco maior. São tendências, não verdadeiros padrões. Esta parece ser uma característica nos acompanhamentos em mounds litorâneos do Rio de Janeiro, que não haja regras rígidas, que a variabilidade seja a regra.