Capítulo III – A comicidade na encenação: gestos e situações
Foto 40 The comedy of errors – Delacorte Theatre – agosto de 1992
Na versão brasileira, que só ocorreu dois anos depois, em maio de 1994, na cidade de São Paulo, permanecendo em cartaz durante dois anos, as torres que antes possuíam tamanha dimensão foram substituídas por telões pintados.
Foto 41 – Elenco e equipe técnica da peça. A comédia dos erros. Fonte: Programa da peça. Foto de Ana Iwanow.
Foto 42 – A comédia dos erros. Fonte: Arquivo do Ornitorrinco. Foto cedida por Victor Nosek.
A partir dessa montagem, Rosset assume uma postura diferente. As viagens internacionais diminuem significativamente. Segundo Chachá (2008, ver anexo), “(...) Foi uma peça que não viajou, estávamos num período mais caseiro do grupo. O Cacá já estava
cansado de tantas viagens e para mim foi perdendo um pouco o encanto (...)”. Também, não havia mais um estudo coletivo, um trabalho de mesa e de pesquisa aprofundado em torno das peças como ocorreu, por exemplo, na primeira versão de Ubu e na montagem de O doente imaginário. Cacá passou a optar por soluções cênicas já experimentadas em que o efeito final tornava-se previamente conhecido, tanto pelo diretor como pelos atores que participaram das montagens anteriores e pelo público que acompanhava a trajetória do grupo.
Sobre o processo de montagem, o ator Eduardo Silva comenta:
Foi aquela “pauleira”, como é no Ornitorrinco. “Duzentas” horas de ensaio por dia! (...) No início, eu estranhei o trabalho com o Cacá, porque ele é muito rígido nas marcas (...). Ele sabe muito bem como tirar riso do público, como fazer as pessoas darem risadas. Se ele fala para você colocar a mão aqui, é aqui. Não é ali e nem lá e o pessoal vai dar risada. Ele faz isso muito bem, com uma maestria sem fim (...) O trabalho de mesa foi bem rápido. Ele parte mais para a marcação. (SILVA, 2008, ver anexo).
De acordo com Augusto Pompeo:
(...) Na Comédia dos erros, o equívoco e a maestria! O espetáculo era todo pontuado, como uma grande coreografia. Novamente, uma grande equipe. Eu acho que o Cacá prima pelo trabalho em equipe. Ele começa, ele dá o tom, e todos vão fazendo parte daquele acorde e, de repente, quando se vê, ele envolveu todo mundo (...). (POMPEO, 2008, ver anexo).
Cacá Rosset acrescentou ao espetáculo um clima farsesco, o escracho das chanchadas da Atlântida e buscou referências nos filmes de Os Três Patetas e o Gordo e o Magro, percebidas por meio das interpretações de Luciano Chirolli e Eduardo Silva. Ao ser questionado pela crítica sobre a falta de fidelidade em relação à maneira como encena os clássicos, o diretor argumentou:
Eu tenho uma preocupação de fidelidade, mas através de uma via da infidelidade (...) as pessoas não conseguem mais distinguir o que é essa tradição e o que realmente a essência da obra. É como se você tivesse uma mesa que se vai acumulando o pó dos séculos. A certa altura você já não distingue o que é mesa e o que é pó. (...) Cada época lê o Shakespeare à sua maneira. O Shakespeare montado no século XVI é diferente do montado no século XVII e assim sucessivamente. Certos aspectos da obra vão sendo colocados em primeiro plano dependendo da
sensibilidade, da cultura e do local. A obra de Shakespeare é generosa, permite essas releituras. (...) O que tenho horror é da ditadura dos doutores em Shakespeare (...) (SANTOS, 1994, p. 69).
Segundo o crítico Nelson de Sá,
A comédia dos erros é a resposta que Cacá Rosset estava devendo. Não é circense,
embora seja uma palhaçada e tenha, com alguma distância, ecos de um humor ingênuo, próprio de um país antigo, que, pelo interior, confundia realmente teatro com circo. Mas o humor de Cacá Rosset volta um pouco mais no tempo. Não é apenas ligado à Commedia dell’arte ou aos esquecidos palhaços do Brasil. Volta mesmo a Plauto (...). É um humor no qual, já lembrou o próprio Cacá Rosset, tempo atrás, nada é respeitoso (...). Uma sátira que já surge de cara, com mui respeitável Shakespeare escrevendo, na lousa: “A Comédia dos Erros”. Uma comédia clássica, mas levada na gozação, por mais que respeite e realce o texto, o que, aliás, faz como poucas vezes se viu por aqui. Um espetáculo próprio de Cacá Rosset, um comediante maior. E original, tanto quanto Plauto, seu ídolo do século 3 a.C. (SÁ, 1994, p. 54).
Na visão de Bárbara Heliodora, a encenação de A comédia dos erros é confusa e apelativa.
A direção de Cacá Rosset optou, ao contrário, por uma linha de má chanchada, onde tudo e todos gritam e viram exageros e caricaturas totalmente destituídos de sentido (...) tudo vai para o mesmo ramo da caricatura e do desmando, e nada é buscado além de um possível riso imediato (que nem sempre é alcançado). (HELIODORA, 1994, s. p.).
Guy Corrêa, espectador do Teatro do Ornitorrinco e redator do livro sobre o grupo (que será publicado neste ano de 2008), assistiu à A comédia dos erros três vezes e fala sobre a encenação:
Eu tinha vontade de ser ator e, quando eu fui assistir A comédia dos erros e vi a atuação do Chachá e do Eduardo Silva eu desisti completamente! Eu vi que eu não tinha condições, que não dava, que era uma coisa muito forte. Eu acho que eles têm uma coisa que é da essência do artista... Eles têm voz, presença cênica, são brechtianos. A persona aparece ali, antes da personagem. E essa peça, como já falei, eu vi três vezes e, todas às vezes, foi diferente. O Eduardo Silva com o Pompeo! Chegava uma hora que você não sabia mais quem era quem. Era muito “louco” aquilo! (CORRÊA, 2008, ver anexo).
Em março de 1996, o Ornitorrinco reapresenta Ubu, folias physicas, pataphysicas e musicaes, de Alfred Jarry. Essa montagem foi acompanhada da exposição Ubu, a Patafísica nos Trópicos e contou com a participação de mais de sessenta artistas plásticos. A peça
permaneceu um ano em cartaz, encerrando sua carreira no Teatro João Caetano, o mesmo local onde estreara em 1985.
Foto 43 – Elenco da peça Ubu, folias physicas, pataphisicas e musicaes (1996; 2ª versão). Fonte: Programa do espetáculo. Foto de Gal Oppido.
A opção de Cacá Rosset por remontar Ubu da mesma maneira de onze anos atrás ocasionou muitos questionamentos. O único diferencial foi a ausência da banda ao vivo, elemento rico e importante que deveria ter sido mantido. Ao fazer essa escolha, Rosset assumiu uma postura contraditória em relação à proposta inicial do grupo constante ao longo de sua trajetória: a irreverência. Segundo Eduardo Silva:
Ele fez igual. Se eu fosse ele teria criado uma outra coisa para surpreender as pessoas, porque aquela ficou datada. Na primeira montagem, foi tão retumbante a surpresa e, na segunda, não, era igual. As mesmas coisas, as mesmas piadas. Não tinha nada de diferente (...) Ele tem capacidade para isso, para fazer algo que surpreendesse novamente as pessoas, mas ele optou por fazer igual. (SILVA, 2008, ver anexo).
O Ornitorrinco estréia no dia 09 de março de 1998, em São Paulo, a comédia O avarento, de Molière, no Teatro Popular do Sesi. Foram ao todo 250 apresentações para um público estimado em mais de 130.000 pessoas.35