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2 HOSPITALIDADE E ACOLHIMENTOS, DÁDIVA E

2.4 COMENSALIDADE

2.4.3 Comensalidade

A Comensalidade, para esta pesquisa, é ponto de partida para o entrelaçamento do alimento ofertado na Festa do Divino e a sua Hospitalidade

intrínseca, nos locais em que a presente pesquisa se deu, quais sejam, Alcântara e Criúva. Tal aspecto constituiu-se um desafio, pois o universo de pesquisas disponível não se mostrou vasto e acessível, mas ao que se percebeu, via de regra, as pesquisas encontradas deixam clara a relação entre Comensalidade e religião, apontam o que ambas têm em comum: “a partilha do alimento como ato de purificação espiritual. Seja no ato da dádiva, seja no ato de sociabilidade, seja no ato de purificação, os trabalhos abordaram a importância da Comensalidade em momentos de fé” (SOARES; CAMARGO, 2015, p. 196).

Do que já fora exposto sobre o partilhar nas recorrentes e diferentes formas do festejar do Divino Espírito Santo, a Comensalidade é percebida como ato de comunhão e reciprocidade entre os convivas de uma mesma prática religiosa. A partilha é movimento solidário contínuo de acolhimento e sociabilidade pois, ao “dividir o alimento com o próximo consegue superar a necessidade básica de saciar o apetite, que é uma necessidade fisiológica primordial das pessoas. A sociabilidade que aflora no ato de se alimentar junto consegue ser mais importante ainda” (SOARES; CAMARGO, 2015, p. 42).

A fusão entre Comensalidade e Hospitalidade é notória em trecho de pesquisa de Mundicarmo Ferretti (1985, p. 47), quando diz que durante a Festa do Divino os anfitriões procuram servir aos visitantes um café ou um copo de mingau de milho para agrada-los “e prepara-se jantar aos tocadores [...] Serve-se jantar para todos os presentes. E na do Espírito Santo não pode faltar um chocolate com bolo após a missa e a preparação de várias mesas de doces que são distribuídos no último dia”.

Os resultados a que se chega em níveis de culturas individuais, não se deram de maneira pacífica e harmoniosa. O que se elege como cultura própria carrega consigo um lastro histórico não tão pacífico, mas que, de alguma forma, corroborou para as novas identidades culturais as quais o ato de comer junto ocupou seu lugar em cada povo. Por sua vez, Boff (2015, p. 45):

Etnobiólogos e arqueólogos acenam para um fato singular. Quando nossos antepassados antropoides saíam a coletar frutos, sementes, caça e peixe, não comiam individualmente. Tomavam os alimentos e os levavam ao grupo. E aí praticavam a Comensalidade, o que significa: distribuíam os alimentos entre si e comiam-nos comunitariamente. Essa Comensalidade permitiu o salto da animalidade em direção à humanidade. Essa pequena diferença fez toda uma diferença.

Fica claro que a cultura, a religiosidade e as crenças, influenciam na relação dos povos com o ato de comer junto, o que comer, quando e como fazê-lo, em processo de desenvolvimentos dos laços sociais. Então não só por necessidades, mas principalmente, a relação do humano com o alimentar-se parece ser espiritual, tradicional e cultural, antes mesmo de ser uma necessidade fisiológica. Essa é a tônica percebida nos banquetes e festividades comensais do Divino, a exemplo do que evidenciei no campo de pesquisa, tanto em Alcântara, quanto em Criúva.

Banquete significa: “Refeição solene e aparatosa; festim. Banquete sagrado, a comunhão eucarística-boda”. Leva a que, em uma primeira impressão, a simplicidade e a rusticidade pareçam contrárias à sua definição. Nesse sentido, os alcantarenses substantivam corretamente a mesa que preparam para o Espírito Santo. Trata-se de um banqueteamento sagrado na medida que não comem para saciar a fome, mas, sim, para consagrar e comungar em um ato solene que demanda dias de trabalho e um número elevado de pessoas que se reúnem para gratuitamente preparar os pratos da tradição local, a serem servidos aos que ultrapassam a soleira da porta. A Comensalidade está intrínseca à Hospitalidade. Nas palavras de Haroldo Junior, experiente membro da Festa de Alcântara, “oferecemos o que temos de melhor em uma grande Festa” (HAROLDO JUNIOR, 2018, n.p.)4.

Durante os banquetes das Festas do Divino em Alcântara, a mesa das Caixeiras tem destaque, ali presentes os laços sociais e culturais com o quilombo5.

No desenrolar dos processos históricos a Hospitalidade se confunde com a Comensalidade ao providenciar aconchego e segurança de um grupo. Esteve sempre atrelada a inúmeros códigos de ética e de relações sociais e sobre os papéis implícitos, tanto de quem recebe como de quem é recebido, “em todas as tradições, as relativas às refeições tem um caráter obrigatório e constrangedor; o hóspede não pode furtar-se à refeição sem ofender aquele que o recebe. [...] o dono da casa tem

4 Entrevistado em 2017 durante a Festa do Divino de Alcântara.

5 Definição: “povoação fortificada de negros fugidos do cativeiro, dotada de divisões e organização

interna (onde tb. se acoitavam índios e eventualmente brancos socialmente desprivilegiados)”. Segundo Dicionário Online de Português. O histórico de quilombos é de fundamental importância para contar a história da própria cidade. O termo quilombo, no Brasil, a partir da Constituição de 1988, “a questão quilombola passou a ser reconhecida oficialmente” (PINHEIRO, 2014, p. 1). A Carta Magna “reconhece a titulação das terras de comunidades remanescentes quilombolas e após décadas de exclusão, as políticas de reconhecimento foram adotadas como forma de evitar a aculturação e extinção de grupos étnicos”. Fonte: https://www.dicio.com.br/quilombo/.

obrigação de alimentar seu hóspede; ao fazer ele o honra” (TOPARKOV, 2011, p. 209).

O dar e receber se constituem em uma via de mão dupla no diapasão das benesses e dos pontos de tensão que envolve os processos de comunicação aqui instaurados em “transmissão e prestação de contas. Tudo vai e vem como se houvesse troca constante de uma matéria espiritual que compreendesse coisas e homens, entre clãs e os indivíduos, repartidos entre as funções, os sexos e as gerações” (MAUSS, 2003, p. 202-203).

Uma das formas mais reconhecidas de Hospitalidade, em qualquer época e em todas as culturas, é o compartilhar à mesa com alguém. Comer junto assume então, um significado ritual e simbólico muito superior à simples satisfação em alimentar-se. Essa forma de partilha, de troca e de reconhecimento interseccionada com a Hospitalidade.

Na acepção ordinária, o comensal assume, antes de tudo, a figura do hóspede. Ele se identifica, desse modo, sob o termo genérico de convidado (isotopia da recepção) ou, de maneira mais específica, de conviva (isotopia da refeição), porque a noção de Comensalidade condensa os traços da Hospitalidade e os da mesa [...]. (BOUTAUD, 2011, p. 1213).

Então, Comensalidade e Hospitalidade, diante do “pôr-se na condição” de Hospitalidade a Comensalidade Religiosa, e a serviço dela, cria um comando próprio ao dissocia-la do sentido primeiro de Hospitalidade, ainda que se mantenham interdependentes e retroalimentares. Nas imbricações entre a Comensalidade e a Hospitalidade, ressalta-se também a Hospitalidade doméstica que “é representada pelas relações que se estabelecem na casa, no lar. E é definida como a matriz e o espaço de preservação dos rituais legados pela tradição, tanto na forma de recepcionar como de hospedar, alimentar e entreter” (CAMARGO, 2017, p. 718), pois Hospitalidade é, em minha análise, um processo na formação e reafirmação dos laços sociais e garantia de repasse de tradições em oralidade ou replicação de comportamentos e consumos à mesa, à guisa de hospitalidade.

Comensalidade é processo de mediação do acolhimento, contem nela mesma a sua própria Hospitalidade, ecoada pela comunicação interpessoal que é “carregada de conteúdos não verbais ou de conteúdos verbais que constituem fórmulas rituais que variam de grupo social para grupo social” (CAMARGO, 2004, p. 31), resulta em

sociabilidade e, me parece, um passo para além da Hospitalidade. E por intrínseco ato de retroalimentação, a Comensalidade parece se confundir com a Hospitalidade à medida que o alimento, o estar à mesa e o acolhimento, dificilmente podem ser lidos individualmente e dissociados. Então é Comensalidade ao dizer do ser hospitaleiro na forma de alimentar o outro, de acolhê-lo de forma amalgamada por não haver limites definidos entre um e outro termo, não há também diferença entre um e outro (quem acolhe e quem é acolhido, quem alimenta e quem é alimentado).

Caberia uma conclusiva de Camargo (2015), ao relacionar uma “filosofia e uma teologia que se ocupam da Hospitalidade do ponto de vista ético e estético e uma antropologia que desvela as peripécias do exercício dessa ética e dessa estética da cena hospitaleira, ao longo dos eixos da intimidade e do anonimato” (p. 63).

Portanto, a Comensalidade é, em minha compreensão, mais que o mero fato de se alimentar, emana da necessidade que o sujeito tem em partilhar ao comemorar qualquer que seja o evento. Comemorar - comer e orar sugerem celebração e mesmo diante da velocidade que a atualidade nos impõe, quando os tempos cronológicos são suprimidos por outros tempos mais fluidos, impede ou dificulta o encontro para o comer junto, ao que se percebe, ainda há uma busca por esse encontro, por esse momento, pois ao ser humano é importante o agregar-se e a agregação, substancialmente, sugere celebrar o momento. Entretanto, invariavelmente, representará um modo de ser, uma expressão cultural e representação social em seu conjunto.

Por fim, em qualquer que seja a época o alimentar-se aparece nas narrativas como ponto central das festivas, nos momentos de acolhimento e alteridade em torno da mesa, onde o alimento é motivo para o fortalecimento dos laços no elo entre o Eu e o Outro, o preparo da comida, a exibição desta e a própria cerimônia da ceia como parte do cimento social (SANTOS, 2008). Ao utilizar modo levinasiano de acolhimento e alteridade análogo à Festa do Divino Espírito Santo, tem-se também um abrir mão do próprio alimento para alimentar a Outrem, como no caso dos festeiros na cidade de Alcântara, que a duras penas conduzem a manifestação, mantem a tradição de alimentar a quantos “irmãos” os visitarem.

Importa o bem-estar e bem receber de quem louva ao Espírito Santo, não importam as condições financeiras limitantes que os assola constantemente: “O Divino providencia” (Festeira de 2017) e por isso alimentam primeiro aos que visitam e o

quanto sobra, alimenta a própria casa. A Comensalidade religiosa é a própria Hospitalidade na lógica do receber na Festa do Divino.

Importante ressaltar as constantes referências à Festa do Divino em relação à fartura, partilha e sociabilidade dos devotos. Ainda que os comensais não caibam todos ao mesmo tempo em torno do banquete providenciam generosa distribuição de centenas e até milhares de pratos de comida. "Os festeiros almoçam com padre em um local privilegiado da casa da Festa. A figura dos reis da celebração é colocada em destaque, afinal são considerados os mentores de toda festividade naquele ano" (VILLANOVA; PELEGRINI, 2011, p. 5). É considerada, então, a hierarquia para compor as mesas de forma que todos sejam servidos independentemente da posição no império ou na Festa. Em alguns casos, talvez não haja uma imposição rígida de poder, “mas sim da liderança do casal sobre a comunidade. Estas figuras são capazes de reunir familiares, amigos, conhecidos e turistas em volta de uma refeição que tem a benção divina” (VILLANOVA; PELEGRINI, 2011, p. 5). Os sujeitos estão à serviço do Divino e assim instituídos de um poder simbólico segundo os autores.

Hábitos e práticas alimentares, pelo fator agregador, que contribui para laços sociais mais unificados, podem desenvolver nos indivíduos o sentido de pertencer àquele grupo, esses hábitos normalmente constituem as tradições culinárias que nos indivíduos “outorga uma identidade, reafirmada pela memória gustativa” (SANTOS, 2005, p. 5).

As dádivas sob a forma de comida sempre tiveram um papel importante nas sociedades tradicionais para estabelecer e/ou reforçar os laços de solidariedade no conjunto da comunidade. [...]. Entendendo que a comida desperta lembranças que permitem reconstruir a memória, o que possibilita redefinir e reconstruir identidades. Na cozinha, prevalece a arte de elaborar os alimentos e de lhes dar sabor e sentido. Nela, há a intimidade familiar, os investimentos afetivos, simbólicos, estéticos e econômicos. Em seu interior, despontam as relações de gênero, de geração, a distribuição das atividades que traduzem uma relação de mundo, um espaço rico em relações sociais, fazendo com que a mesa se constitua, efetivamente, num ritual de Comensalidade. (SANTOS, 2005, p. 8-11).

O alimento, então, na dinâmica de sua competência agregadora, também nos remete ao ambiente da cozinha. “A cozinha é, portanto, um espelho da sociedade, um microcosmo da sociedade, é a sua imagem” (SANTOS, 2005, p. 11). O pesquisador também firma que as cozinhas mudam “transformam-se graças às influências e aos intercâmbios entre as populações, graças aos novos produtos e alimentos, graças às

circulações de mercadorias” (SANTOS, 2005, p. 11). São muitas as festividades que selam datas comemorativas e reafirmativas da memória de um povo:

A festividade, o comemorar, o reencontrar memórias vividas, exemplificam experiências temporais em interação, identidades valorizadas, porém em geral, pouco historicizadas e contextualizadas; é, também, a partir da necessidade de ritos, símbolos e vivências de memórias coletivas que é possível imaginar uma ética e uma política de memória coletiva que têm, na experiência, nas vivências vividas (de carne e osso) ou inventadas, sua mediação. [...] memória como lugar de persistência, de continuidade, de capacidade de viver o insistente. (TEDESCO; ROSSETO, 2007, p. 36)

Desse conjunto de ações voluntária e involuntárias que resultam os laços sociais no desenrolar da Festa do Divino Espírito Santo, a comunhão com os pares, as festivas em torno da mesa é mais que mesa, mais que saciar a fome corporal, isto é, o alimento quantitativo não é o mais urgente e importante, mas é o simbólico e o imagético como sinal de liberdade e vida.

O esmolar, a doação e a partilha muito significam em acolhimento, em dádiva, em amor e caridade, a exemplo do que Lévinas nomeou acolhimento, e a exemplo também da compreensão da alteridade e os fios que a constituem (em Derrida), quando passam pelo nó da Hospitalidade, todos estariam na instância de uma Hospitalidade que precede a propriedade como sugeriu Lévinas, elenca agora novos condutores desta Hospitalidade em um dar, receber e retribuir que se encontram imbricados de forma amalgamada e indissociável nas trocas relacionais.

A mesa no período contemporâneo, especialmente, nas famílias, acabou por perder um pouco o espaço, sobretudo, pela organização cotidiana irregular e esporádica do tempo nos dias e tempos atuais. A Hospitalidade e a Comensalidade enfrentam também esse aspecto, ao sufocar o lugar na mesa e da partilha pelo da rapidez e praticidade.

Para mim, a Hospitalidade implícita e explícita nos objetos pesquisados, baseia-se também no que os convivas pensam sobre a Festa na perspectiva do acolhimento: O acolhimento e a Hospitalidade transmitidas pela Comensalidade dos que fazem a Festa do Divino aos visitantes, transmuta-se em um para além da Hospitalidade (Hospitalidade Comensal da Hospitalidade formal) na reafirmação dos laços sociais e os princípios de alteridade, que se evidenciarão nas análises das

narrativas dos sujeitos que depuseram suas impressões e compreensões sobre as trocas no contexto da Festa.

A Festa é, por excelência, um momento de convívio e compartilhamento. Associá-la à Hospitalidade é, portanto, um encaminhamento profícuo, que pode contribuir para o melhor entendimento da manifestação. Iniciando pela Festa, na atualidade esta se inclui entre as mais ricas expressões culturais presentes no cotidiano das comunidades, por denotar modos de vida atuais e experiências passadas, que nela são repassadas às gerações futuras. (GOMES; GASTAL; CORIOLANO, 2015, p. 90).

No capítulo seguinte serão ambientados os Estados e Municípios onde as Festas do Divino Espírito Santo, objeto desta Tese, estão situadas. Estrutura o entendimento sobre as similitudes e diferenças entre Alcântara e Distrito de Criúva, na dimensão mesma da Festa e da cultura. Esses lugares, são os espaços apropriados para que se compreenda a Hospitalidade mediada e contida na Comensalidade das duas Festas.