Raúl Delgado Wise
COMENTÁRIO FINAL: O PACTO GLOBAL EM MATÉRIA MIGRATÓRIA E ALÉM
Nas primeiras reuniões do FGMD, o espaço para a participação da sociedade civil era, em essência, marginal e disperso. Muitas organi-zações que participaram das Jornadas da Sociedade Civil não eram representativas nem sequer estavam preocupadas com as comunida-des de migrantes em suas regiões ou países de origem. Além disso, existiam conexões limitadas entre os participantes da sociedade civil e praticamente não havia canais de diálogo ou interação com delegados governamentais. Depois das Jornadas da Sociedade Civil em Bruxelas, essas circunstâncias começaram a mudar.
A convergência progressiva dos participantes da sociedade civil com uma atividade paralela da Global People’s Action on Migration, Development and Human Rights, como espaço externo- interno, deu lugar à abertura de um espaço alternativo único em que redes são criadas e uma agenda alternativa é desenvolvida centrada nos direi-tos humanos: a Coalizão Global de Migrações. Um espaço alternativo inventado é o FSMM, desprendido do Fórum Social Mundial (FSM), que se caracteriza, entre outras coisas, por ser um espaço de debate democrático de ideias, reflexão, formulação de propostas, troca de ex-periências e articulação de movimentos sociais, redes, ONGs e outras organizações da sociedade civil que se opõem à globalização neolibe-ral. Em vista dos grandes desafios para manter, expandir e consoli-dar esse espaço alternativo, contra-hegemônico e inventado, a oitava edição do FSMM foi concebida como um processo de reestruturação do próprio Fórum — um divisor de águas na dinâmica do FSM — destinado a expandir o escopo e a diversidade das organizações, re-des e movimentos sociais envolvidos, e incentivar o re-desenvolvimento de estruturas organizacionais abertas, livres e horizontais capazes de promover iniciativas de transformação social, e desenvolver um plano de ação capaz de interconectar ações, campanhas e lutas em escala local, regional e global.
No cenário político, existem essencialmente duas possibilidades opostas: permanecer enclausurado em um espaço convidado ou avan-çar para a consolidação de um espaço alternativo contra-hegemônico.
A primeira opção limita-se a obter concessões de curto prazo com o risco de cooptação e a segunda implica afastar-se do conforto relativo do espaço convidado e entrar em um campo de batalha contra-hege-mônico.
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Como não há espaço no capitalismo para a participação contra--hegemônica na governança global, a resistência desde baixo é, em nossa opinião, a única opção capaz de construir um regime de mi-gração internacional socialmente justo. Para tanto, é necessária uma redefinição importante da noção tradicional de resistência (passiva e reativa) para transformá-la em uma concepção radicalmente dife-rente, de acordo com o lema do FSM 2017: “Resistir é criar, resistir é transformar”, que aponta a necessidade de alternativas para outro mundo possível. O processo de reestruturação no qual o FSMM está envolvido representa uma etapa crucial na configuração de um bloco contra-hegemônico.
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