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CAPÍTULO 2 Alvenaria Estrutural e Seus Componentes

2.6 Comentários do Capítulo

O propósito deste capítulo inicialmente foi apresentar, através de uma contextualização histórica, a evolução da alvenaria como sistema construtivo e de

seus materiais constituintes. Em seguida foram discutidas as características e propriedades mecânicas dos componentes da alvenaria – unidade, junta de argamassa e interface unidade/junta – visando uma melhor compreensão acerca da influência de cada um destes no comportamento estrutural do compósito.

Posteriormente foram apresentadas pesquisas realizadas com o intuito de avaliar a influência do não preenchimento da junta vertical no desempenho da alvenaria tanto à compressão quanto ao cisalhamento. Em cada uma das investigações apresentadas foram apontadas as principais características como os materiais e métodos utilizados, bem como as conclusões obtidas em cada uma delas.

Por meio da revisão bibliográfica apresentada, percebe-se que os diferentes autores obtiveram resultados e, por vezes, conclusões distintas quanto a influência do não preenchimento da junta vertical no comportamento da alvenaria à compressão e ao cisalhamento. Essa divergência ocorre em partes pela utilização de diferentes materiais e métodos de ensaio em cada uma das investigações realizadas.

Na Tabela 2.1 são apresentadas de forma resumida as características e conclusões dos ensaios de compressão realizados pelos diferentes autores.

Tabela 2.1 – Quadro comparativo entre as pesquisas desenvolvidas acerca do comportamento da alvenaria à compressão. Fonte: autoria própria.

A partir da Tabela 2.1 é possível observar que, apesar de terem sido utilizados materiais e métodos distintos, Santos (2001) e Passos et al. (2002) obtiveram as

MATERIAL ESCALA TRAÇO ASSENT. Santos (2001) Cerâmico (16 MPa) Reduzida 1/3 1:1:6 Total Compressão Normal à Junta Horizontal Redução da resistência (21%) Passos et

al. (2002) Concreto (9 MPa) Natural 1:1:6 Total

Compressão Simples (NBR 8949) Redução da resistência (17%) Capozucca (2002) Cerâmico (21 MPa)

plana e dentada Natural 1:4:9,28

Parcial Total Compressão Normal (ENV 1996 1-1) Redução da resistência (13%) Vilató (2004) Concreto (4,5, 8 e 12 MPa) Natural 1:2:9, 1:1:6 e 1:0,5:4,5 Parcial Compressão Normal à Junta Horizontal

Não houve redução da resistência Haach (2009) Concreto (6,5 e 7,6 MPa) Reduzida 1/2 1:3 Total

Compressão Normal à Junta

Horizontal (EN 1052-1) Pouca influência

Miranda

(2012) Cerâmico (10 MPa) Natural 1:0,5:4,5 Total

Compressão Normal (NBR 15812-2)

Não houve redução da resistência

CONCLUSÃO AUTOR UNIDADE ARGAMASSA MÉTODO DE ENSAIO

mesmas conclusões quanto a influência da junta vertical no comportamento à compressão da alvenaria, além de percentuais de redução de resistência muito próximos. Da mesma forma Capozucca (2002) verificou, mesmo que num percentual um pouco menor, que houve uma redução da resistência quando da utilização de juntas verticais secas. Já Vilató (2004), Haach et al. (2010) e Miranda (2012) obtiveram unanimidade quanto a pouca influência da junta vertical na resistência à compressão da alvenaria, mesmo tendo sido utilizados materiais e métodos bem distintos em suas investigações. Desta maneira, no que tange a influência da junta vertical na resistência à compressão da alvenaria, é possível constatar que as conclusões obtidas pelos diferentes pesquisadores são conflitantes.

Quanto aos ensaios de cisalhamento, na Tabela 2.2 são apresentadas as características e conclusões das investigações realizadas pelos diferentes autores.

Tabela 2.2 – Quadro comparativo entre as pesquisas desenvolvidas acerca do comportamento da alvenaria ao cisalhamento. Fonte: autoria própria.

A partir da observação da Tabela 2.2 é possível constatar que há uma certa unanimidade entre os pesquisadores quanto aos efeitos negativos do não preenchimento da junta vertical na resistência ao cisalhamento da alvenaria estrutural. No entanto, verifica-se que há uma variação muito grande entre os percentuais de redução de resistência ao cisalhamento sugeridos pelos autores.

MATERIAL ESCALA TRAÇO ASSENT. Cavalheiro

(2000)

Concreto (8,5 MPa) Cerâmico (9,5 MPa) Natural

1:1:6, 1:0,5:4,5 e 1:0,25:3,75 Parcial Compressão Diagonal (ASTM E519) Redução da resistência (45% à 68%) Santos (2001) Cerâmico (16 MPa) Reduzida

1/3 1:1:6 Total Racking Test

Redução da resistência (25% a 5%)

Capozucca (2002)

Cerâmico (21 MPa)

plana e dentada Natural 1:4:9,28

Parcial Total Compressão Diagonal (ASTM E519) Redução da resistência (70%) Vilató (2004) Concreto (4,5, 8 e 12 MPa) Natural 1:2:9, 1:1:6 e

1:0,5:4,5 Parcial Racking Test

Redução da resistência (9% a 2%)

Gomes

(2008) Concreto (3 MPa) Natural Pré-dosada Parcial

Compressão Diagonal (ASTM E519) Redução da resistência (39%) Haach (2009) Concreto (6,5 e 7,6 MPa) Reduzida 1/2 1:3 Total Compressão Diagonal (ASTM E519) Redução da resistência (68%) Miranda

(2012) Cerâmico (10 MPa) Natural 1:0,5:4,5 Total

Compressão Diagonal (NBR 14321)

Redução da resistência (50%)

Estas constatações reforçam a necessidade, evidenciada no início deste trabalho, da elaboração de pesquisas experimentais e numéricas que busquem contribuir para um melhor entendimento acerca da influência da utilização de juntas verticais secas no comportamento da alvenaria estrutural.

Na presente pesquisa espera-se que o fator tipo de junta vertical não exerça influência significativa nos valores de resistência à compressão de pequenas paredes tanto de unidades cerâmicas quanto de concreto, pois, de acordo com o que foi visto neste capítulo, verifica-se que a unidade, a junta horizontal e a interface unidade/junta horizontal são os componentes do compósito que governam a ruptura das pequenas paredes quando submetidas à compressão. Este fato pode ser constatado no modo de ruptura das pequenas paredes (item 2.5), sendo explicado pelo estado de confinamento no qual a junta horizontal passa a trabalhar e pela interação entre esta junta e a unidade quando da compressão da alvenaria (item 2.3.3). Desta forma se espera que a unidade, a junta horizontal e a interface entre elas exerçam maior influência nos valores finais de resistência à compressão da alvenaria do que a junta vertical.

Quanto ao comportamento das pequenas paredes submetidas ao cisalhamento por compressão diagonal, espera-se nesta pesquisa – em concordância com os resultados já apresentados – que o fator tipo de junta vertical exerça influência significativa na resistência ao cisalhamento das pequenas paredes tanto de unidades cerâmicas quanto de concreto. Essa expectativa se justifica pelo fato da presença da junta vertical promover um aumento na área de contato entre as unidades, o que permite uma melhor distribuição das tensões ao longo das pequenas paredes, a redução da concentração de tensões numa determinada região e a diminuição da possibilidade de ocorrência de rupturas localizadas que levariam à obtenção de valores de resistência abaixo do esperado. Além disso, de acordo com o observado no item 2.5 deste capítulo, a região da interface unidade/junta (horizontal e vertical) governa a ruptura por cisalhamento da pequena parede submetida à compressão diagonal. Logo, percebe-se que esta região possui fundamental importância no comportamento das pequenas paredes submetidas ao cisalhamento, exercendo grande influência no valor final da resistência.