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III. BLOGUES E A CREDIBILIDADE DO JORNALISTA

III.2. A credibilidade do jornalista e os blogues

II.2.2. Comentários e credibilidade do jornalista/blogueiro

Contudo, um blogue pode tornar-se um espaço traiçoeiro para o jornalista profissional por ser um local onde se expõe e fica aberto a comentários. Este é uma característica própria da comunicação na rede mundial:

La participación es una característica propia de la comunicación en Internet y una demanda de los usuarios. Los medios son conscientes de ello y han pasado de ser simples proveedores de información a intentar convertirse en comunidades online, convencidos de que esta estrategia es una vía eficaz para incrementar el número de usuarios y fidelizar a su público. Tampoco se deben olvidar las posibilidades que la cercanía con la audiencia ofrece como fuente de información durante el proceso productivo. (Masip. Comentarios de las noticias: la pesadilla de los cibermedios 2010, p1)

Traiçoeiro também porque este é um local privilegiado para emitir opiniões e é neste quesito que pode apresentar algum atrito porque o público espera do jornalista uma característica de imparcialidade como explicita o Nº1

do Código Deontológico dos Jornalistas Cabo-verdianos: O jornalista submete-

se ao compromisso escrupuloso de relatar com rigor e exactidão os factos, pautando a sua actuação pelo distanciamento em relação aos acontecimentos, e pela correcta verificação e confrontação dos factos, através da consulta de diversas fontes de informação.

Problemas Associados à Credibilidade do Jornalista/Blogueiro

67 Será que quando um jornalista faz uso da sua liberdade de expressão num blogue estará a colocar em causa a sua isenção? Neste caso pode-se dizer que todos têm direito a ter opinião, menos o jornalista? Na convicção de José Leite, o que deve ser observado é que o jornalista tem certos deveres éticos e deontológicos de rigor que um cidadão comum não tem. Neste sentido é que a responsabilização social deste profissional o faz ser rigoroso, mesmo quando expressa a sua opinião:

Porque é preciso notar que, antes dos blogues e das redes sociais, já se faziam artigos de opinião, principalmente nos jornais mas também nas rádios. Isto significa que a publicação de opinião nos blogues não é nada de novo, mas que agora obriga a uma certa adaptação, de todos, a esta nova realidade. (Leite. 2012, entrevista concedida ao autor)

Entretanto, o que se nota é que maioria dos “opinion makers”, ou fazedores de opinião, nos jornais nacionais são comentaristas que não são jornalistas mas que escrevem sobre a realidade relatada, produzida e demonstrada por estes. A questão é: porque é que então os jornalistas não fazem uso da sua liberdade de expressão e começam a emitir suas convicções se estão na posse de estas e, quiçá, de outras informações que estes comentaristas não têm? Aqui, José Leite aponta como razões para a falta de este hábito de produção de artigos de opinião por parte dos jornalistas à “pequenez” de Cabo Verde, onde todos se conhecem e a outros condicionalismos - de entre os quais, por exemplo, a tentação/obsessão de conotar politicamente as pessoas por uma opinião que não terá agradado a gregos ou a troianos.

Pode-se notar, então, que quando o jornalista/blogueiro abre seu espaço mediático para comentários vindos de um público sem rosto e continua a discussão através de outros comentários, este está sujeito a abalos ou a

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68 estímulos à sua credibilidade. A questão que fica é saber como quantificar e qualificar estes abalos e onde estes recaem: se na sua posição como jornalista,

blogueiro ou ambos. Para Sibelle Martins35, formanda em Ciências de

Comunicação para a área do jornalismo e com experiência no jornal cabo- verdiano A NAÇÃO, um abalo negativo como blogueiro terá sempre efeitos na reputação do jornalista porque este está sempre exposto a avaliações sobre o seu desempenho. “A sua carreira será sempre efémera, passível de ser minada por atitudes irresponsáveis do profissional, mesmo se estiver na condição de blogueiro. O mesmo acontece se o feedbak do leitor for positivo. Mas no caso de um estímulo negativo, depende da capacidade de resposta do jornalista/blogueiro e este, por seu turno, depende da forma como ele expos a matéria ou artigo de opinião que originou esse estímulo negativo”, explica esta que é também blogueira.

Para Francisco Delgado36, jornalista da emissora cristã cabo-verdiana, Rádio

Nova, um comentário no blogue pode abalar a credibilidade do jornalista mas esta recai maioritariamente sobre a credibilidade do blogueiro que naquele momento encontra-se nesta posição, mesmo reconhecendo que não é possível descolar o blogueiro do jornalista. “Fazendo uma analogia: por acaso se poderia chamar o padeiro de pasteleiro? Claro que não, a não ser que as duas premissas fossem verdadeiras se as duas funções fossem desempenhadas pelo profissional e se no caso fossem duas profissões compatíveis e as referencias fossem feitas numa circunstância especifica onde o padeiro pasteleiro eram chamados. Mas na questão do jornalista é sempre jornalista a partir do momento que assume-se como profissional credenciado para o exercício da profissão” afirma Delgado que também já foi blogueiro e que questiona se o jornalista deixa de o ser durante os momentos que publica no seu blogue.

35

Sibele Martins é formanda em Ciências de Comunicação para a área do jornalismo e com experiência no jornal cabo-verdiano A NAÇÃO e

autora do blogue <www.olhosdezepra.blogspot.com>. As declarações proferidas neste estudo foram recolhidas durante uma entrevista por correio electrónico efectuada pelo autor desta monografia, na data de 31 de Julho de 2012.

36

Francisco Delgado é jornalista da emissora cristã cabo-verdiana, Rádio Nova e autor do blogue <www.rebuliss.blogspot.com>. As declarações

proferidas neste estudo foram recolhidas durante uma entrevista por correio electrónico efectuada pelo autor desta monografia, na data de 31 de Julho de 2012

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