12. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
12.2.1 COMENTARIOS SOBRE O COMITÊ DE BACIA DO RIO ITAPICURU
Faz-se necessário refletir sobre alguns fatores relevantes à implementação do comitê de bacia com vistas a agregar elementos de análise deste momento. Tem-se inicialmente o fato da empresa contratada para realizar a implementação do comitê, a CONAP ter sido responsável pelo processo de mobilização na bacia do rio São Francisco (como sub-contratada do IMAN), o que já representa um ponto positivo diante da experiência vivenciada e capacidade laborativa desenvolvida. Porém, a CONAP, não vivenciou o processo de mobilização anteriormente promovido na bacia o que dificultou na identificação das lideranças que poderiam vir a agregar na mobilização para consecução da formação do comitê. A CONAP baseou-se tão somente em algumas orientações da própria SRH. Este fator foi negativamente determinante no processo de formação do comitê, pois não contou com a participação de diversos líderes locais ocasionando até em alguns casos sentimento de rejeição ao processo devido à interpretação equivocada de “abandono”.
Observou-se também que os 4 (quatro) mobilizadores contratados para auxiliar no processo de convocação das instituições e da sociedade de forma geral, nos 43 municípios (identificados no momento da formação das COMUA’s) com vista à realização dos Encontros Regionais, não tinham perfil adequado citando-se como exemplo a mobilizadora do município de Santa Luz, que era uma anotadora de “jogo do bicho” e desconhecia a razão efetiva para a qual estava trabalhando (fora indicada por um vereador da cidade que era membro da Comissão Coordenadora do comitê). Como justificativa, a questão do tempo foi o argumento mais forte. Entre o período de liberação dos recursos por parte da SRH e a contratação dos mobilizadores e o fechamento do processo teve-se tão somente 4 meses, o que atenta de forma negativa para a consecução dos trabalhos. Não havendo tempo para identificar os mobilizadores com perfil ideal passou-se a aceitar, sem muitos critérios, às indicações.
Houve uma etapa de “capacitação” dos referidos mobilizadores, porém totalmente inócua devido ao tempo exíguo do treinamento face a grande quantidade de informações repassadas, o que dificultou a disseminação das mesmas, que deveriam ser repassadas ao público alvo desta mobilização (Poder público, sociedade civil representada pelas associações e Organizações não governamentais e os Usuários da água, definidos de acordo com a Resolução nº 5 do CNRH).
Os mobilizadores contratados tiveram de realizar visitas aos municípios vizinhos e localizar as instituições que foram alvo desta mobilização, sendo que para tanto receberam o valor mensal de R$ 300,00 (trezentos reais) para custeio de despesas com alimentação, hospedagem e transporte passando a atuar na verdade como “voluntários”, pois não receberam remuneração. A Diretoria do Consórcio Intercomua tentou auxiliar no processo, porém por falta de apoio financeiro não realizaram ações significativas, segundo depoimento do Sr. Antônio Augusto, Vice-presidente da instituição. Verificou-se neste momento ainda a falta de apoio dos representantes do poder público dos diversos municípios envolvidos que ficaram omissos ao processo devido ao esforço desprendido em campanha eleitoral coincidentemente vivenciada imediatamente antes do período de mobilização, sendo que alguns destes representantes não se reelegeram ou não elegeram seus pares, e outros que estariam assumindo o poder local não manifestaram interesse.
Para quantificar a mobilização pode-se refletir o processo de mobilização a partir dos números de instituições inscritas para pleitear uma vaga no comitê que limitou-se a 134 inscrições, que ocorreram devido a forte esforço desprendido por parte de todos envolvidos na implementação do comitê. No Diagnóstico Institucional realizado durante o período de formação das COMUA’s e AUA’s, registrou-se um número de 936 instituições cadastradas nos 43 municípios envolvidos. Das 134 inscrições 14 não se habilitaram a participação no processo eleitoral, sendo que somente 86 fizeram-se presentes em plenárias (desconsiderando o poder público que de 43 municípios só comparecerão 8 prefeitos para a plenária). Segundo Relatório Final da CONAP, os Encontros Intermunicipais, realizados com o objetivo de estabelecer uma integração entre os atores locais e representantes do poder público (estadual e municipal), ocorreram com alto índice de ausência de representações. Justificou-se afirmando que apesar das sentida ausência, este fato não impediu o alcance dos objetivos estabelecidos. A ausência das representações foi também justificada pelo período pós-eleitoral, sendo confirmada pela baixa presença de representantes do poder público na sua Plenária Eleitoral.
Tabela 5 - Representação da participação das entidades no processo eleitoral do Comitê do rio Itapicuru
Fonte: CONAP, 2005.
Nas Plenárias Eleitorais não foi possível preencher todas as vagas disponíveis devido à ausência de representações, justificadas pela dificuldade de locomoção, falta de apoio do poder local, e falta de conhecimento do processo.
O Futuro dos organismos de bacia e do Comitê
A visão do futuro desses organismos instituídos reproduz um paradoxo nos diversos depoimentos registrados nos Grupos Focais, onde os participantes admitiram a necessidade de participarem, porém reconhecerem que participar é uma tarefa bastante complexa em face da sua natureza voluntária e não remunerada.
Precisamos repensar as COMUA e AUA para que as pessoas que ainda acreditam não desistam e contribuam para a continuidade dos trabalhos. O Comitê será conseqüência.( Ione Jatobá, do município de Jacobina).
Como participar se temos tantas outras tarefas a realizar? Somos pessoas ocupadas. (Cirilo Damasceno, do município de Cansanção).
Espero que possamos recomeçar, pois, precisamos participar da defesa de nossas águas, só não sei como poderemos fazer isto. (Zenilda Miranda do município de Miguel Calmon).
A participação da sociedade é obrigatória devido ao financiamento da política publica por bancos internacionais para diminuir a corrupção. Mas não é verdadeiramente uma necessidade do governo. Não dá para entender o que se quer com essas coisas. (Jessé Rodrigues dos Reis do município de Quixabeira).
É complicado porque não é prioridade para alguns gestores. (Rosenete Bertolodo do município de Caem).
O futuro da COMUA, AUA e Comitê depende da comunidade. (Romero Menezes do município de Andorinha).
Preocupante. (Salvador de Oliveira do município de Valente).
A SRH deve garantir a subsistência das COMUA. (Antonio Gonçalves de Matos do município de Capim Grosso).
Convocar a gente para poder dar continuidade aos trabalhos. Estamos adormecidos mas queremos muito participar. (Judivam Sobrinho do município de Quinjngue).
Se o Consórcio não funcionar o Comitê terá mais trabalho. (Paulo Terra Nova do município de Sr. do Bonfim (Consórcio)).