2 Uma tipologia da comida
2.2 Comida e subsistência
Ao pensar sobre como seria a comida dos que pertenciam ao baixo estrato (subalter- nos e/ou pobres), poderíamos começar pelos possíveis temperos a que teriam acesso, tais como cerefólio37, alho e cebola; se tivessem acesso a uma horta.
O acesso à carne era escasso, acontecendo, provavelmente, somente em festivais, quando os sacrifícios eram realizados. Mas Beard, referindo-se ao acesso à carne por parte dos pompeianos pobres, cita que, além de frutas, lentilhas e alguns vegetais,
[...] O peixe também era consumido e, com menos frequência, também carne. Cer- tamente, a carne mais consumida era de porco e ela provavelmente vinha na forma de linguiça ou chouriço, mais do que um grande pernil assado. As galinhas e os ovos, além da carne de carneiro ou cabrito, permitiam variar um pouco (2016, p. 260).
Esse acesso à carne talvez acontecesse de forma peculiar nessa cidade, pois, geral- mente, o preço da carne era alto, visto ser um reconhecido artigo de luxo. Os valores dimi- nuíam quando ocorriam as festividades públicas pois, dado o número de sacrifícios, a quan-
69 tidade do produto aumentava e, ao ser vendida no mercado38 de carne (macellum), sofria
uma queda no preço. Mas a informação da pesquisadora nos faz pensar se essas pessoas não poderiam, por vezes, ter conseguido se alimentar com carnes de animais de pequeno porte, sacrificados no ambiente doméstico.
A dieta do pobre deveria ser repetitiva e monótona, constituída de pão, azeitonas, vi- nho, queijo, frutas, lentilhas e alguns vegetais. Segundo Corbier (2015), a tradição de con- sumir cereais em forma de papa e bolo sem levedo, presente no século III a.C., pode ter sido preservada nos lares mais modestos; sendo assim, a puls – farinha misturada com água ou leite, em sua versão mais simples, poderia se constituir em alimento do pobre e do campo- nês. Fato é que a cozinha popular, tal como atualmente:
[...] é aquela que aproveita tudo: as tripas, o sangue consumido como morcela, os restos de carne com os quais se preparam bolos, a cabeça do carneiro (para Juve- nal, ‘um manjar de sapateiro’) (CORBIER, 2015, p. 226).
No que tange aos escravos, eles provavelmente teriam acesso a mais gêneros al imen- tícios do que um cidadão livre. Visto constituírem um investimento financeiro por parte de seu senhor, sua saúde e alimentação precisavam ser conservadas. A descrição abaixo nos informa sobre escravos de áreas rurais, mas pode nos dar uma ideia do que acontecia no espaço urbano, guardadas as devidas proporções:
[...] A ração recebida além do pão poderia variar de acordo com as estações, os lu- gares e os trabalhos: óleo, sal e vinagre eram fornecidos sempre; azeitonas depois da colheita; depois o allec (resíduos de carne e peixe provenientes da produção de
garum) e figo (CORBIER, 2015, p. 224).
Buscando o tema dentro do espaço de vivência das pessoas mais simples, as popinae e tavernas ocupavam um lugar de extrema importância. Para a população pobre, ambas de- veriam ser indissociáveis, pois, na taverna, poderia se comer com vinho, grãos-de-bico, rá- banos e carne ou peixe salgado. Na popina, poderiam ser encontradas refeições acompanha- das de bebidas. Esses eram locais populares, os quais eram frequentados por pessoas de bai- xo estrato e onde também poderiam se alimentar. Nesses locais, poderiam ser encontradas comidas quentes, pois a panela e o caldeirão estavam sempre no fogo; a primeira para os alimentos cozidos e o segundo para a água quente (CORBIER, 2015).
38 Nesse período, temos alguns mercados específicos, tais como o mercado de bois (forum boarium), vendidos ainda vivos; o macellum, onde a carne do sacrifício era vendida, e o forum piscarium – mercado de peixes (DU- PONT, 2015, p. 207).
70 Esse grupo majoritário de pessoas, com certeza, não acompanhava “cursos” ao se alimentar, tal como os que ocupavam o alto estrato. Os itens presentes à sua refeição eram básicos e, por vezes, adquiridos no comércio, como supracitado.
Ao observarmos os dois tipos de comida, perguntamo-nos: a cena dos pobres não poderia se configurar em um eterno prandium, uma vez que monótona, repetitiva e com recursos escassos? E essa monotonia não poderia ser “quebrada” quando nas reuniões co- munitárias, tais como as ocorridas na comunidade cristã em Corinto? Se identificarmos a refeição comunitária como uma eranos, na qual todos os participantes colaboram com al- gum item, por que não? Alguém poderia trazer um item que destoasse do convencional...
Na orientação paulina, presente no bloco de 1Coríntios de 8 a 11, os itens citados são: carne, pão e vinho. Mas se faz necessário criar todo o quadro, uma vez que a comuni- dade poderia ter algumas poucas pessoas com uma situação econômica melhor. Contudo, tendo como grupo majoritário indivíduos empobrecidos e/ou que viviam em situação sim- ples, tal como vimos na proposta de Friesen.
Para nos auxiliar na criação desse cenário, veremos de forma breve a organização dos espaços de uma cidade antiga e os possíveis locais em que as reuniões cristãs podem ter acontecido. Diferente de O’Connor, que afirmou o espaço da domus romana como local das reuniões cristãs em Corinto, apresentaremos outros espaços nos quais, provavelmente, não só a comunidade cristã em Corinto, mas todas as demais comunidades devem ter se reunido e celebrado a refeição comunitária, bem como o rito eucarístico.