O 28 de Setembro na RTP
4.2. As mudanças que Setembro trouxe
4.2.1. A Comissão Consultiva de Programas
A criação de um Conselho de Programas tinha sido proposta no despacho aprovado em Conselho de Ministros em Setembro, o qual pretendia salvaguardar a independência da programação da RTP, mantendo-a isenta de propagandas partidárias. Para assegurar a prossecução destes objectivos “e com funções consultivas da Administração da RTP, esta RTP submeterá a aprovação do governo a designação, após consulta aos partidos que venham a ter existência legal, de um Conselho de Programas, constituído por 15 membros, de reconhecida competência nos seguintes ramos da vida nacional: educação, letras, ciências sociais, psicologia, teatro e cinema, artes plásticas, música, religião, ciências físicas e da natureza, actividades económicas, desporto e imprensa”.73
E em Novembro de 1974, já sob a presidência de Ramalho Eanes, começava a reunir-se a Comissão Consultiva de Programas. Esta Comissão, que acabou por ser composta por elementos das várias facções políticas, congregava elementos do MFA (Ramalho Eanes estava, na grande maioria das vezes, presente nas reuniões), e elementos dos partidos da coligação: PCP, PS e Partido Popular Democrático, sendo que o representante do PPD quase nunca comparecia. Nas reuniões da Comissão Consultiva, discorria-se acerca do “valor estético e das implicações sócio políticas” de certos programas e da programação em geral, determinando se havia objecções à sua transmissão, tendo em
72 O saneamento na Radiotelevisão Portuguesa: Maio-74/Março-76 – Arquivo Histórico da RTP 73 Ordem de Serviço Nº 52/74 – Arquivo Histórico da RTP
conta a situação do país e o Programa do MFA. Por vezes, chamavam-se às reuniões os responsáveis por algum programa que suscitasse discussão e as questões eram então resolvidas na hora. 74
Um exemplo das considerações tomadas pela Comissão foi que esta entendeu que, relativamente aos programas musicais, conforme consta em acta, “se procurasse aligeirar os programas musicais com fados de características construtivas, operetas e comédias próprias para despertar sentimentos aptos à receptividade dos objectivos definidos no Programa do MFA, não esquecendo ser imperioso evitar qualquer forma de elitismo, tão prejudicial e caracterizador das actuações televisivas antes do 25 de Abril”.
Através da leitura das Actas da Comissão Consultiva, compreendemos que combater o elitismo na programação, aligeirando-a, tinha o desígnio de veicular e servir os propósitos do MFA. Neste caso concreto da música, é dito, por exemplo, que “a canção ligeira é um veículo próprio para despertar uma sadia democratização”. E numa outra reunião, ao ser discutida a questão do horário da Televisão, a Comissão conclui que “se deve encontrar a solução adequada à eficiência da Televisão como principal veículo do ideário emanente do Programa do MFA”. Tal como está escrito, a televisão era, efectivamente, um importante instrumento político. É o principal meio que está à disposição do MFA e a programação deve então encontrar um rumo e uma orientação que potencie ao máximo a eficácia da mensagem televisiva.
Desta forma, os conteúdos dos programas estavam sujeitos a uma análise cujo parecer negativo ou positivo dependia directamente da mensagem, ou, por outra, da ideologia que era transmitida no programa em causa. As decisões desta Comissão, que actuava de forma semelhante ao antigo Gabinete de Exame e Classificação de Programas, que censurava e fazia o exame prévio da programação, geravam polémica.
O caso mais flagrante foi Barbarrossa, um programa cuja interpretação do Pacto Germano-Soviético não foi do agrado da facção comunista. “Barbarrosa” era o nome de um episódio da série britânica Memória do Nosso Tempo sobre a Segunda Guerra Mundial, que abordava o Pacto Germano-Soviético. O episódio, perante o parecer negativo da Comissão, não foi exibido a 3 de Dezembro, tal como estava previsto, o que levou Álvaro
74 Desta Comissão faziam parte: Ramalho Eanes, Aurélio Santos (do PC), António Reis (PS), Castro Caldas
(Partido Democrático), Major Manaças e Comandante Daniel Rodrigues (do MFA) – dados retirados das
Guerra a entregar o seu pedido de demissão ao Conselho de Administração da RTP, numa carta que dizia o seguinte:
Demito-me por protesto contra a complacência (também provavelmente táctica) com que se assiste ao nascimento das novas censuras e políciasque diariamente nos lapisazulam e espiam. (…) Não é pelo facto de ser interdita a transmissão de um documentário que ofendia os sentimentos soviéticos do Partido Comunista Português que me vou embora. Vou-me embora porque vi nascer, paredes meias com o oportunismo, a nova censura. Tal como a outra, é um monstro.
Esta carta foi publicada no jornal A Capital. Com Álvaro Guerra solidarizaram-se Joaquim Letria, Carlos Cruz, Mário Cardoso, José Gabriel Viegas e Cesário Borga. A Comissão Consultiva de Programas, reunida a 6 de Dezembro, chamou Álvaro Guerra para resolver esta questão. Após discussão entendeu-se que “a génese do problema estava no facto de que não estava definido o âmbito exacto do estatuto da Comissão”. Para Ramalho Eanes, a Comissão deveria “constituir a garantia da ausência de partidarismos e a certeza absoluta de que a Televisão Portuguesa cumpre o que foi definido no Programa do MFA”. Álvaro Guerra concluiu ainda que “a consciência política da TV – arma terrível e máquina complexa – torna difícil definir onde começa e onde acaba o critério para seleccionar o que se destina ao telespectador”.
Quanto ao que foi dito sobre o programa “Barbarrossa”, motivo de tanto alarido, Aurélio Santos, do PCP, teria afirmado, conforme consta em acta (feita posteriormente):
Considero que este texto [do programa, a que a Comissão queria ter sempre acesso], tal como está, pela falta de referências aos factos fundamentais que marcaram a invasão da União Soviética pela Alemanha nazi e pela forma tendenciosa como apresenta outros factos, falsifica a verdade histórica (…) e toma forma de propaganda anti soviética e anti comunista, constituindo uma agressão ideológica favorável a teses fascistas (…) [sendo] politicamente nocivo o texto. Mas não foi apenas o elemento do PC a
achar que o programa não devia ir para o ar. Todos os outros elementos da Comissão acharam que este programa devia ser refeito ou então não devia ser transmitido de todo. “Barbarrossa” acabou por ser transmitido e os demissionários retiraram os seus pedidos de demissão. Mas a situação tinha sido tornado pública e já circulavam boatos sobre a existência de censura na RTP, e concretamente sobre a crescente influência comunista entre os trabalhadores e algumas chefias.
Esta Comissão deixou de reunir meses mais tarde, em Fevereiro de 1975, com Ramalho Eanes como presidente do Conselho de Administração.
A programação da RTP não estava apenas sujeita ao escrutínio da Comissão Consultiva. O produto final – a emissão – era fruto da interacção de vários factores. Primeiro, era resultado da luta entre as várias facções que propunham diferentes modelos de televisão (e de sociedade – era a luta que se travava por todo o país) e que envolvia as chefias, os delegados do MFA, os representantes dos partidos, os funcionários, os delegados sindicais, os jornalistas, enfim, todos eles com ideias e objectivos em relação ao que devia ser ou não transmitido. Depois, a programação era também produto da própria criatividade dos produtores e realizadores, os quais acreditavam ser possível fazer programas de televisão livre e inovadores, que fizessem da RTP uma televisão de qualidade, ao serviço dos seus telespectadores. E como é era vista esta programação pelos telespectadores? Que percepção havia da manipulação e de toda a luta por trás dos programas de televisão?