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COMISSÃO GESTORA: DILEMAS NA INTERSETORIALIDADE E NA

5 O PROGRAMA “BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA E A INCLUSÃO

6.1 COMISSÃO GESTORA: DILEMAS NA INTERSETORIALIDADE E NA

No âmbito desta pesquisa, acompanhamos as reuniões e estudamos o grupo gestor do município de Vitória, capital do estado do Espírito Santo - BRA. Esse município, cumprindo os preceitos legais, em especial a Portaria Normativa Interministerial MEC/MDS/SEDH/MS n.º 18, de 24 de abril de 2007, e a Portaria Interministerial MEC/MDS/SEDH/MS n.º 1, de 12 de março de 2008, em face do compromisso político-social com a implementação de políticas públicas em prol das pessoas com deficiência, aderiu ao Programa BPC na Escola.

De acordo com arquivos da SEMAS, identificamos no documento “BPC na Escola: promovendo a emancipação – Relatório das atividades desenvolvidas no município de Vitória - ES no período de 2008 a 2010” que o município de Vitória aderiu ao Programa BPC na Escola em 2008 e instituiu nesse mesmo ano a primeira Comissão Gestora para esse Programa. Conforme os dispositivos legais, os municípios deveriam aderir ao Programa por meio do preenchimento de um formulário eletrônico no portal do MDS.

De acordo com o documento, “[...] a adesão de Vitória ao BPC na Escola se deu no segundo semestre de 2008, juntamente com mais 38 municípios do Espírito Santo. Mesmo antes da adesão, em 2007, Vitória enviou representante para fazer formação em Brasília [...]” (VITÓRIA, 2010, s/p).No mesmo relatório consta:

[...] após a adesão foi criado o Grupo Gestor com representantes das Secretarias Municipais de Assistência (SEMAS), cuja representante exerce tanto a coordenação do grupo quanto da equipe técnica; Cidadania e Direitos Humanos (SEMCID); de Educação (SEME) e de Saúde (SEMUS). Atualmente o Grupo é composto por Mariana Barbosa Rios (SEMAS); Durvalina Maria Sesari Oliosa (SEMCID); José Francisco Souza (SEME) e Maria das Dores Carneiro Faria (SEMUS) (VITORIA, 2010, s/p).

Importa esclarecer que a composição intersetorial proposta pelo MDS para a Comissão Gestora do Programa BPC na Escola objetiva integrar as políticas da SEMAS, da SEME, da SEMUS e da SEMCID no âmbito de cada esfera governamental – municipal e estadual. Contudo, o município de Vitória optou por incluir, posteriormente, em 2012, representantes do Conselho Municipal dos Direitos

da Pessoa com Deficiência (COMPED), do Conselho de Assistência Social (COMASV) e do Conselho Municipal de Educação (COMEV).

Nesse sentido, no âmbito de legislação específica, o município de Vitória instituiu a Comissão Gestora local do Programa BPC na Escola, por meio do Decreto n.º 15.336, em abril de 2012, nos seguintes termos:

Art 2º. A Comissão Gestora Municipal do Programa BPC na Escola é composta de 08 (oito) membros efetivos, sem ônus para a Municipalidade, na seguinte forma:

I – 02 (dois) representantes da Secretaria de Assistência Social; II – 01 (um) representante da Secretaria de Saúde;

III – 01 (um) representante da Secretaria de Educação;

IV – 01 (um) representante da Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos; V – 01 (um) representante do Conselho Municipal da Assistência Social; VI – 01 (um) representante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência;

VII – 01 (um) representante do Conselho Municipal de Educação.

Parágrafo Único. Os representantes dos Conselhos Municipais mencionados nos incisos V, VI e VII devem ser preferencialmente da Sociedade Civil (VITÓRIA, 2012, p. 2).

Na mesma direção, o Decreto n.º 15.336/2012, que instituiu a Comissão Gestora Municipal,18 também determinou o caráter consultivo e propositivo dessa Comissão. Nesse aspecto, é pertinente destacar que ambas as funções imprimem a essa Comissão certa força e autonomia no cumprimento das atribuições à qual o Programa BPC na Escola se destina.

Embora a Comissão Gestora Municipal do Programa BPC na Escola, que atua na cidade de Vitória, não tenha caráter deliberativo, entendemos que o caráter propositivo expressa uma importância significativa, tendo em vista que as informações coletadas com a aplicação dos questionários aos beneficiários desse Programa devem servir para fomentar a elaboração e implementação de políticas públicas de atendimento às pessoas com deficiência.

Assim, as barreiras de acesso e de permanência identificadas por meio do questionário19 constituem uma demanda que deve ser encaminhada de forma

18

A designação Comissão Gestora Municipal é equivalente a Grupo Gestor Municipal / Local. Este último termo é utilizado para designar a equipe de gestão do Programa BPC na Escola no âmbito municipal e previsto nos documentos do MDS. Contudo, utilizamos o termo Comissão Gestora nesta pesquisa, pois é o que tem sido encontrado nos documentos legais do município de Vitória.

19 Conforme informado no capítulo anterior, trata-se de um questionário aplicado em visitas

domiciliares, que aborda questões relativas às barreiras de acesso e permanência das pessoas com deficiência, beneficiárias do BPC, na escola, e que visa identificar as características gerais e o perfil dos beneficiários do Programa. Esse perfil resulta do cruzamento de informações relativas

propositiva ao gestor central do Poder Executivo, ou seja, ao prefeito. Afinal, muitas ações necessárias para superá-las extrapolam as atribuições da Comissão Gestora do Programa BPC na Escola, como, por exemplo, a garantia de mobilidade urbana bem como de transporte adaptado. Essas ações envolvem secretarias municipais e estadual que não compõem a Comissão Gestora, portanto devem ser dinamizadas como estratégias do município.

Posteriormente à constituição da Comissão Gestora, por meio de legislação específica, o município de Vitória nomeou mediante o Decreto n.º 15.365, de maio de 2012, os representantes legais das secretarias e segmentos sociais que passariam a atuar nessa Comissão.

Julgamos pertinente destacar que o Decreto n.º 15.365/2012 não estabelecia o período para atuação dos gestores nomeados. Assim, houve substituições de representantes da SEMAS, da SEMCID e do COMEV em junho e em agosto de 2012.

Na mesma direção, a composição da Comissão Gestora do Programa BPC na Escola passou por quatro alterações / atualizações de representação desde a sua primeira composição até o ano desta pesquisa, em 2015. O Decreto n.º 15.397, de junho de 2012, o Decreto n.º 15.469, de agosto de 2012, o Decreto n.º 15.734, de julho de 2013, e o Decreto n.º 15.745, de junho de 2013 expressam esse processo. Observamos assim que, em relação às alterações ocorridas no Decreto n.º 15.365/2012, da primeira composição da Comissão Gestora, para o Decreto n.º 15.734/2013, houve atualização da maioria dos representantes, portanto mantiveram-se apenas os membros representantes da SEME, da SEMAS e do COMASV. Os demais Decretos abordavam substituições pontuais de representantes de alguma secretaria ou conselho.

No ano de 2015 e durante esta pesquisa, a Comissão passou por um novo movimento de atualização de seus membros. O processo de constituição da Comissão encontra-se em aberto, sujeito a alterações de nomes de representantes por questões administrativas de localização de trabalho.

a idade, etnia ou raça, gênero e deficiência, escolarização, tecnologia assistiva, saúde, assistência social e direitos humanos.

Por outro lado, vale considerar que o Programa BPC na Escola, em decorrência de um amplo ordenamento jurídico e normativo disparado pelos legisladores e demais gestores públicos, traz uma perspectiva para a indução de políticas públicas intersetoriais, visando à garantia de serviços e de apoio especializados voltados, entre outros objetivos, para a eliminação de barreiras que possam impedir o processo de escolarização de estudantes com deficiência no ensino comum.

É importante considerar que a perspectiva da intersetorialidade tem sido impulsionada no Brasil desde a Constituição Federal de 1988. Ela tem sido defendida frequentemente por diversos analistas de políticas públicas, haja vista a tarefa impreterível de promover uma dada capacidade de gestão que minimize as características históricas de fragmentação das políticas sociais (MONERRAT; SOUZA, 2009). Contudo, estudiosos apontam para o fato de que ainda existem muitos desafios a serem superados (RODRIGUES, 2011; MONERRAT; SOUZA, 2009).

De acordo com Monerrat e Souza (2009, p. 202), um dos grandes desafios postos para a intersetorialidade é “[...] romper com a tradição da ciência moderna, que opera com uma lógica parcializada de organização e produção do saber, tendo como consequência uma intensa especialização disciplinar e práticas sociais fragmentadas”.

As mesmas autoras destacam que o planejamento intersetorial não deve ser entendido como normas e prescrições, ao contrário, “[...] considera a negociação de interesses a chave para a construção de sinergias entre diferentes atores e áreas de política” (MONERRAT; SOUZA, 2009, p. 203-204).

Nesse aspecto, observamos em nossa análise documental que, ainda que haja dispositivos legais que sustentam o caráter intersetorial da Comissão Gestora, com suas funções e atribuições, além dos desafios de negociação para a participação dos segmentos envolvidos, a administração municipal precisa comprometer-se com uma agenda de trabalho que garanta planejamento, execução e avaliação das políticas sociais implementadas. E a Comissão Gestora pode constituir-se numa instância privilegiada nesse processo.

Dessa forma, a rotatividade dos representantes dos setores que compõem a Comissão Gestora do Programa BPC na Escola gera impasses, ocasiona rupturas, descontinuidades e, em muitas situações, um acúmulo de funções / atribuições para algumas secretarias e/ou conselhos envolvidos.

Nesta pesquisa, percebemos que a rotatividade dos representantes dos setores que compõem a Comissão Gestora do BPC na Escola traz implicações diretas nos avanços dos trabalhos dessa Comissão, principalmente quando considerada a morosidade na efetivação das ações a serem desenvolvidas, gerando atrasos nos prosseguimentos e encaminhamentos necessários. Nesse caso, na análise das memórias das reuniões da Comissão, que será abordada mais adiante, constatamos que a Comissão Gestora não conseguiu avançar em determinados pontos de pauta, devido às frequentes ausências de alguns membros ou à troca dos representantes indicados de alguns segmentos envolvidos.

Evidenciam-se, nesse cenário, questões atravessadoras das políticas neoliberais, como a redução do número de servidores sob um discurso de baixa produtividade nas instituições públicas. Contudo, as demandas de programas e projetos se mantêm, inclusive como resultado dos imperativos legais e, no jogo de forças, num contexto macro das políticas públicas dos governos atuais, no caso do Brasil, em prol das questões sociais.

Nesse contexto e na interlocução com um dos representantes, percebemos que tem ocorrido uma redução do número de servidores em uma determinada secretaria e consequentemente um acúmulo de atribuições para os servidores mantidos na função, um dos quais informou:

[...] do início do ano até agora (mês de setembro/2015) houve a demissão

de aproximadamente sessenta servidores contratados e, desses, pelo menos uns trinta são de nível superior e atuavam no acompanhamento de programas e projetos diversos (Entrevistado n.º 6).

No diálogo com esse entrevistado, ficou evidenciado também que uma grande maioria de servidores da secretaria em que ele atua é contratada por meio de convênios do serviço público municipal com empresas privadas. Esse fato evidencia uma dinâmica de ampliação de participação do setor privado na oferta dos serviços públicos estatais. Assim é que, para nós, não seria possível falar da fragilidade dos serviços públicos estatais sem referência à esfera privada, que vem atuando de

forma cada vez mais evidente na gestão das políticas e dos serviços ofertados pelo Estado, pelos menos no caso brasileiro.

De fato, o Programa Nacional de Desestatização (PND), iniciado da década de 1990, surgiu como resultado de um processo de internacionalização mundial do capital, impelido pelos países capitalistas centrais, que expandiram modelos de gestão para os países considerados em desenvolvimento, como o Brasil, pautados em princípios, como o controle por produtividade, que foram sendo incorporados pelos governos.

Assim, considerando os aspectos observados sobre a rotatividade de gestores que compõem a Comissão Gestora do Programa BPC na Escola no município de Vitória, evidenciamos que são servidores efetivos os indicados para compor essa Comissão. Nesse aspecto, indagamos: Será que, em consequência do excesso de atribuições e das “cobranças” por produtividade pelos “superiores” diante da redução do número de servidores, devido às demissões dos contratados por convênios, os efetivos acabam por solicitar o afastamento das comissões para as quais foram indicados? A perspectiva sociológica figuracional pode nos auxiliar nesse debate. De acordo com Elias (1993), os acontecimentos sociais podem tomar diferentes direções a partir dos jogos de forças estabelecidos na dinâmica das interdependências vividas nas diferentes e diversas configurações sociais.

De fato, o surgimento do Estado Moderno associado a outros desdobramentos sociais, como a crescente urbanização, a expansão do uso da moeda, a industrialização, o reconhecimento dos direitos sociais e uma percepção cada vez mais abrangente e totalizante do saber e de todas as suas formas de organização, impulsionaram um estreitamento das relações sociais e a ampliação das cadeias de interdependências. Gradativamente, a margem de poder, ou o distanciamento social entre indivíduos e grupos, fora diminuindo. Uma maior aproximação entre governantes e governados, patrões e empregados, adultos e crianças, por exemplo, pôde ser vivida de forma cada vez mais intensa.

Os dados sistematizados neste estudo nos permitem observar que a gestão intersetorial do Programa BPC na Escola no âmbito local do município de Vitória está marcada por tensões e impasses alimentados pelas políticas neoliberais em

curso. Contudo, os pressupostos elisianos assumidos neste estudo, subsidiam nossa compreensão de que essas políticas não se concretizaram forma homogênea e absoluta nas diferentes realidades nacionais. Considerando a temática estudada nesta investigação, é importante ter em vista que as políticas neoliberais se realizam num momento histórico em que um sem número de indivíduos e grupos, reunidos em torno de lutas sociais diversas, vem compartilhando saberes que colocam em xeque o trabalho educativo-formativo desenvolvido pelas instituições sociais, ao mesmo tempo em que motivam a participação desses indivíduos e grupos nos espaços de debates, de elaboração e de avaliação das políticas sociais implementadas. No próximo item nos dedicamos um pouco mais nessa reflexão.