CAPÍTULO VI — CÓDIGO DE ÉTICA DO SERVIDOR CIVIL E SUA
7.2.1 COMISSÕES PARLAMENTARES DE INQUÉRITO (CPIs)
A CF/88, no seu art.58, § 3º, autoriza a criação de Comissões Parlamentares de Inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, e serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço dos seus membros, que deverá ser aprovado pela maioria, para a apuração de fato determinado e por
prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.
O art.58, §3º da CF/88 afirmou que as CPIs “Terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais (...)”. Entretanto, tal dispositivo comete uma impropriedade, vez que o Brasil adotou o modelo do processo penal acusatório, pelo qual inexiste a figura do “juiz- investigador”, tarefa essa deixada a cargo das polícias e do Ministério Público.
Assim, diante da imprecisão legislativa do art.58, §3º, há a necessidade de definição de dois pontos básicos na atuação das CPIs: 1) a amplitude de seu campo de atuação; e 2) os limites de seu poder investigatório.
Em relação ao primeiro aspecto, inicialmente deve ser salientado que o poder do Congresso de realizar investigações não é ilimitado, devendo concentrar-se em fatos específicos, definidos e relacionados ao Poder Público.
Assim, podem ser objeto de investigação todos os assuntos que estejam na competência legislativa ou fiscalizatória do Congresso Nacional, não tendo as CPIs autoridade para exposição dos negócios privados dos indivíduos, quando inexistir nexo causal com a gestão da coisa pública.
Observe-se, ainda, que a necessidade de criação das comissões com objeto específico, não impede a apuração de fatos conexos ao principal, nem de fatos que, inicialmente desconhecidos, surgirem durante a investigação, bastando que haja o aditamento do objeto inicial da CPI.
Por fim, ressalte-se que as CPIs devem absoluto respeito ao princípio federativo, e, conseqüentemente, à autonomia dos Estados, DF e Municípios, cujas gestões da coisa pública devem ser fiscalizadas pelos respectivos legislativos (em CPIs estaduais ou municipais).
Em relação aos limites de seu poder investigatório, uma vez que não existe no Direito brasileiro a figura do juiz-investigador, deve ser utilizado como paradigma para os poderes das CPIs, aqueles que os magistrados possuem durante a instrução processual penal, ou seja, os poderes instrutórios do juiz durante a fase de instrução de um processo penal.
Assim, os poderes investigatórios das Comissões Parlamentares de Inquérito compreendem:
a) quebra de sigilo bancário, fiscal e de dados;
b) oitiva de testemunhas, inclusive com a possibilidade de condução coercitiva: portanto, ninguém pode escusar-se de comparecer à CPI para depor;
c) ouvir investigados ou indiciados, resguardado o direito ao silêncio, pois o investigado não poderá ser obrigado a depor contra si mesmo.
d) realizar perícias e exames necessários, bem como requisição de documentos e busca de todos os meios de prova em direito admitidos;
e) determinar buscas e apreensões.
Por outro lado, as CPIs jamais terão os mesmos poderes cautelares que possuem as autoridades judiciais durante a instrução criminal, por carecerem de competência jurisdicional.
Cabe ressaltar, por fim, que os eventuais abusos ou ilegalidades praticadas pelas CPIs deverão ser controlados pelo Poder Judiciário. E, de nada adianta a tarefa investigatória se não houver o compromisso com a ética no investigar e proceder.
7.2.2 IMPORTÂNCIA DO TRIBUNAL DE CONTAS NA FISCALIZAÇÃO E MORALIDADE DA ADMINISTRAÇÃO
O Tribunal de Contas da União é órgão auxiliar e de orientação do Poder Legislativo, embora a ele não subordinado, praticando atos de natureza administrativa, concernentes, basicamente, à fiscalização. Nove Ministros exercerão suas atribuições em todo o território nacional, e terão as mesmas garantias, prerrogativas, impedimentos, vencimentos e vantagens dos Ministros do STJ, sendo que 1/3 (um terço, três ministros) serão escolhidos pelo Presidente da República, com aprovação por maioria simples do Senado federal; enquanto ao Congresso Nacional caberá a escolha dos outros 2/3 (dois terços, seis ministros), na forma que dispuser seu regimento interno. A CF/88 estabeleceu no art. 71 as funções do TCU, que deverá auxiliar o Congresso Nacional a exercer o controle externo e a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União.
Art. 70. A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle externo, e pelo sistema de controle interno de cada Poder.
O art.75 da CF/88 refere-se aos Tribunais de Contas dos Estados, DF e Municípios. O art.31 estabelece o controle externo da Câmara Municipal para fiscalização do Município, com o auxílio dos Tribunais de Contas dos Estados ou dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios, onde houver.
De qualquer forma, o modelo federal deve ser seguido pelos TCEs, TC do DF e TCMs (nos que existirem), inclusive em relação à composição e modo de investidura dos respectivos conselheiros, respeitando-se a proporcionalidade de escolha entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo, nos mesmos moldes da CF/88.
No direito brasileiro, a competência para julgamento das contas do chefe do Poder Executivo, seja federal, distrital estadual ou municipal, é exclusiva do Poder Legislativo respectivo (CN, Assembléia Legislativa ou Câmara Municipal). A função do Tribunal de Contas é meramente opinativa, atuando como órgão auxiliar do Legislativo.
Assim, apesar de caber ao Tribunal de Contas a apreciação das contas prestadas anualmente pelo Chefe do Poder Executivo, caberá ao Poder Legislativo o julgamento das mesmas (art.49, IX da CF/88).
Por fim, ressalte-se que, pelo art.31 da CF/88, o parecer prévio, emitido pelo órgão competente, sobre as contas que o Prefeito deve anualmente prestar, só deixará de prevalecer por decisão de 2/3 da Câmara Municipal. Neste diapasão é que os tribunais de contas não podem ser um faz de conta, devem atuar com precisa lição ao arcabouço legal e agindo com ética , informando sempre, desvios de verbas de qualquer ordem.
7.2.3 A IMPORTÂNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM DEFESA DA