CAPÍTULO III – ANÁLISE DOS DADOS
3.2 Análise dos relatórios como aporte para as entrevistas
3.2.6 Como a discriminação é percebida pelas professoras e escolas
Talvez esse seja um dos temas mais polêmicos do debate sobre relações étnico- raciais e educação, pois perpassa justamente pela crença da existência ou não do racismo e, mais que isso, se ele atinge a escola. Outra dúvida pertinente refere-se à discriminação racial entre crianças pequenas, na educação infantil. Afinal, existe preconceito nessa idade? As crianças se diferenciam positiva ou negativamente pela cor? Se sim, isso vem da família? Da escola?
Com o estudo dos relatórios foi possível observar posições distintas frente à existência ou não do racismo. Nenhum relatório que apresentou as atividades de toda a escola, independente se era projeto, atividades esparsas ou rotina, posicionou-se contrário à discriminação racial. Essa posição, no entanto, aparecia em relatórios de algumas salas de aula. Vejamos alguns relatos: “nesse ano não houve em nossas classes
nenhuma situação que tenha ocorrido a discriminação”, ou, “não tive problemas com a turma em relação à etnia e raça, porque sempre enfatizo o respeito, o amor e principalmente a amizade entre as pessoas”, e ainda, “em minha sala não houve nenhuma situação onde ocorre-se a discriminação racial”.
Interessante perceber duas faces de uma mesma moeda. Em nenhuma das salas de aula que não identificou nenhum tipo de manifestação preconceituosa foi realizado um projeto específico para trabalhar com as relações étnico-raciais, diferentemente de classes e escolas que identificou. Por outro lado, é também importante constatar que nenhuma delas deixou de falar sobre a diversidade, a reconhecendo. Ou seja, parece que a não percepção do racismo pode não impedir o trato pedagógico com as relações étnico-raciais. No entanto, essa posição pode ser fruto de um entendimento de que o racismo não se manifesta entre as crianças pequenas. É o que relata uma professora, ao dizer: “a criança nessa fase escolar e nessa idade para mim está mais que comprovado
que não possuem preconceito algum”. Todavia, há que se perguntar: até que ponto
acreditar na não existência do racismo e da discriminação na escola, mesmo aceitando a existência da diversidade, faz com que professores(as) incorporem como um projeto pedagógico intrínseco ao currículo, as relações étnico-raciais? Isso é possível?
96 Outras questões se fazem: será que não existe a discriminação na escola? Porque algumas professoras não detectam situações discriminatórias e outras as identificam? Será o próprio entendimento do que é racismo? Será que professoras não vêem ou não querem ver? Será que encaram essas situações como naturais da socialização da criança? Até que ponto é uma brincadeira ou uma inferiorização?
A sensibilidade e o olhar mais atento de professoras puderam perceber essas diferenças e, entendendo-as como negatividade à outra criança, fizeram com que se posicionassem a respeito, como comenta a professora em seu relato: “na verdade entrei
mais a fundo nesse assunto pelo motivo de haver em minha classe uma criança negra, com isso não o chamavam pelo nome, mas sim pretinho; isso começou a me incomodar e resolvi dar mais atenção sobre esse assunto”.
É possível observar pelo relato que houve um processo passado pela professora, em que foi quando ela percebeu a discriminação entre as crianças que passou a trabalhar educativamente as relações étnico-raciais. Ou seja, passa pela sensibilidade de olhar para as relações entre as crianças com cuidado, para aí sim enxergar as intenções na interação. O perceber é assim fundamental, e outros relatos denotam esse processo:
“percebi que os afro-descendentes e os asiáticos sentiam maiores dificuldades em se relacionar com os demais, brincando sempre sozinhos”, ou “no decorrer do ano
percebeu-se certa discriminação dos alunos que não queriam fazer parte da mesma
mesa para brincarem juntos, enfim, não aceitavam os colegas por serem diferentes”.
Outra questão relevante é o papel que os pais desempenham nessa relação. Interessante observar que, por um lado, uma sala de aula que se posicionou contrária à existência da discriminação na escola, culpabilizou a família como geradora das idéias racistas, comentando: “Se existir algum preconceito este é vindo dos pais, ou por seus
familiares, ou seja, com a convivência que a criança se encontra fora da escola”. Por
outro lado, um dos relatos em que a professora passa a perceber o racismo, a família é encarada justamente a partir da perspectiva contrária, encontrando-se preocupada com os(as) filhos(as), como relata a professora: “As mães vinham me perguntar o que estava
acontecendo que os filhos reclamavam que os demais não queriam brincar com eles. Senti que precisava fazer alguma coisa para amenizar a situação”.
Todas as escolas ou salas de aula que passaram a perceber a existência do racismo entre as crianças se ativeram em desenvolver um projeto, com durações variadas, com intuito de educar as relações étnico-raciais. Nesse sentido, parece estar claro que o reconhecimento do racismo na escola, principalmente já desde pequenos, é
97 chave no processo de incorporar as relações étnico-raciais como constituintes das práticas educativas e do corpo curricular. É como relata uma professora: “a criança,
principalmente a em idade pré-escolar, está formando a sua identidade (conceitos, pré- conceitos, valores éticos, estéticos, etc) e, por isso, é de suma importância que ela compreenda e aceite a heterogeneidade, visto que é assim que nossa sociedade se apresenta”. Dessa forma, buscar a reeducação das relações étnico-raciais e incorporá-
las como um projeto individual e coletivo na escola perpassa pelo reconhecimento do racismo e o entendimento de sua manifestação dentro da escola.
3.3. Análise das entrevistas: dimensões do educar-se e do educar na e para as