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COMO A GUARDA COMPARTILHADA PREVINE A EXISTÊNCIA DA

A alienação parental (SAP), como já foi dito brevemente neste trabalho, tem como principal objetivo, a destituição dos laços de afetividade da criança com o genitor “não guardião” da criança. Geralmente ocorre com mães que não tiveram uma boa aceitação da dissolução conjugal e passaram a desencadear um processo de destruição e vingança contra o outro genitor, utilizando o próprio filho como arma para atingir o oponente.83Isso, sem sombra de

dúvidas, causa um grande impacto negativo na vida de todos os envolvidos na relação e, principalmente, na criança que está em processo de desenvolvimento intelectual.

O artigo 2º da Lei 12.318 de 26 de agosto de 2010 que trata sobre a Alienação Parental dispõe que:84

81 SIMON, op. cit., p. 75-77. 82 Ibidem.

83 SIMON, op. cit., p. 52.

84 BRASIL. Lei nº 12.318, de 26 de agosto de 2010. Disponível em:

Art. 2º. Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou o adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie o genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.

A alienação parental consiste na campanha, inconsciente ou consciente, feita pelo genitor, geralmente detentor da custódia física, para desqualificar o outro genitor frente à criança ou adolescente, mediante manipulação psicológica e a implantação de falsas memórias que transforma a consciência do filho, intentando o afastamento da criança com o outro genitor, ensejando o surgimento de uma síndrome denominada Síndrome da Alienação Parental – SAP, na qual a criança passa a negar qualquer contato com o outro genitor.85

Maria Berenice Dias destaca essa síndrome da seguinte forma:86

Grande parte das separações produz efeitos traumáticos que vêm acompanhados dos sentimentos de abandono, rejeição e traição. Quando não há uma elaboração adequada do luto conjugal, tem início um processo de destruição, de desmoralização, de descrédito do excônjuge. Os filhos são levados a rejeitar o genitor, a odiá-lo. Tornam-se instrumentos da agressividade direcionada ao parceiro. A forma encontrada para compensar o abandono, a perda do sonho do amor eterno, acaba recaindo sobre os filhos, impedindo que os pais com eles convivam. O desejo de vingança tem levado ao crescimento assustador da denúncia de práticas incestuosas. Aflitiva a situação do profissional que é informado sobre tal fato, pois, se de um lado há o dever de tomar imediatamente uma atitude, de outro existe o receio de a denúncia ser falsa. Nos processos envolvendo abuso sexual, a alegação de que se trata de síndrome da alienação parental tornou-se argumento de defesa e vem sendo invocada como excludente de criminalidade. O alienador, em sua maioria a mulher, monitora o tempo e o sentimento da criança, desencadeando verdadeira campanha para desmoralizar o outro. O filho é levado a afastar-se de quem o ama, o que gera contradição de sentimentos e destruição do vínculo afetivo. Acaba também aceitando como verdadeiro tudo que lhe é informado. Identifica-se com o genitor patológico e torna-se órfã do genitor alienado. O alienador, ao destruir a relação do filho com o outro, assume o controle total. Tornam-se os dois unos, inseparáveis. O pai passa a ser considerado um invasor, um intruso a ser afastado a qualquer preço. Este conjunto de manobras confere prazer ao alienador em sua trajetória de promover a destruição do antigo cônjuge. Neste jogo de manipulações, a narrativa de um episódio durante o período de visitas que possa configurar indícios de tentativa de aproximação incestuosa é o que basta. O filho é convencido da existência do acontecimento e levado a repetir o que lhe é afirmado como tendo realmente ocorrido. A criança nem sempre consegue discernir que está sendo manipulada e acredita naquilo que lhe foi dito de forma insistente e repetida. Com o tempo, nem a mãe consegue distinguir a diferença entre a verdade e a mentira. A sua verdade passa a ser verdade para o filho, que vive com falsas personagens de uma falsa existência. Implantam-se, assim, falsas memórias.

85 SILVA, Naira Muller. Síndrome da alienação parental. 2014. Disponível em:

<http://nairamuller.jusbrasil.com.br/artigos/138424239/sindrome-da-alienacao-parental>. Acesso em: 10 dez. 2015.

86 DIAS, Maria Berenice. Alienação parental e suas consequências. Disponível em:

<http://www.mariaberenice.com.br/uploads/aliena%E7%E3o_parental_e_suas_consequencias.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2015.

Trata-se de uma prática perversa que deve ser combatida o mais rápido possível, à fim de atenuar o quanto antes os prejuízos causados pela mesma. Mas, para que isso aconteça, é necessário saber identificá-la e combatê-la no poder judiciário.

Jorge Trindade entende que:87

[...] é importante dar-se conta de que a Síndrome de Alienação Parental é uma condição psicológica que demanda tratamento especial e intervenção imediata [...] e exige uma abordagem terapêutica específica para cada uma das pessoas envolvidas, havendo a necessidade de atendimento da criança, do alienador e do alienado.

O artigo 2º da Lei 12.318/2010, em seu parágrafo único, estabelece, por meio de um rol exemplificativo, exemplos que ajudam a identificar formas de alienação parental. Veja:88

I – realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade;

II – dificultar exercício da autoridade parental;

III – dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;

IV – dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; V – omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;

VI – apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente;

VII – mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.

Vários doutrinadores entendem que o instituto da guarda compartilhada ajuda a combater tal crime, uma vez que, possibilita uma criação e educação mais participativa de ambos os pais, favorecendo um melhor convívio de todos os envolvidos ajuda a diminuir bastante os casos de alienação parental.

Com Maestria, aponta Denise Maria Perissini da Silva:89

É imprescindível que a guarda compartilhada venha a ser devidamente regulamentada e seja aplicada adequadamente aos casos concretos, para desfazer os graves prejuízos psicológicos que as crianças filhas de pais separados atualmente atravessam: “ser órfãos de pais vivos”, isto é, terem os vínculos com os pais não guardiões irremediavelmente destruídos pela SAP, à partir da sensação de abandono e desapego ao genitor ausente, e apresenta sintomas psicossomáticos e/ou psicológicos decorrentes dessa perda de vínculos com o genitor ausente e não com o contexto da separação em si.

87 TRINDADE, Jorge. Sindrome de Alienção Parental (SAP). In: DIAS, Maria Berenice (Coord.). Incesto e

Alienação Parenta. 3. ed, rev., atual e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013. p. 21.

88 BRASIL, 2010, op. cit.

89 SILVA, Maria Denise. Guarda Compartilha e Síndrome de Alienação Parental. São Paulo: Ed. Drmazen, 2009. p. 54.

A guarda compartilhada vem ganhando a preferência dos magistrados, com sua aplicação se evita a síndrome da alienação parental, que ocorre quando um dos pais incita o menor a criar certo tipo de repulsa em relação ao outro genitor. No caso do compartilhamento da guarda, ambos genitores se fazem mais presentes na vida dos filhos, dificultando a prática desta síndrome, pois os pais podem encontrar os menores com uma maior frequência, não apenas em visitas combinadas.90

Os Tribunais Regionais como o TJSP vem se posicionando com preferência em relação a guarda compartilhada, alegando que essa pode fazer com que a alienação parental não se instale, haja vista existirem a divisão dos direitos e deveres em relação à criança.91

Neste julgado será observado que apesar da litigiosidade da lide, o julgador deu procedência à guarda compartilhada e afastou a alienação parental alegada por uma das partes. Veja:92

APELAÇÕES CÍVEIS. FAMÍLIA. ALTERAÇÃO DO REGIME DE VISITAÇÃO PATERNA. IMPROCEDÊNCIA. ESTABELECIMENTO DA GUARDA COMPARTILHADA. PROCEDÊNCIA. MANUTENÇÃO. RECONHECIMENTO DE ALIENAÇÃO PARENTAL. DESCABIMENTO. REVOGAÇÃO DA GRATUIDADE JUDICIÁRIA DEFERIDA NA SENTENÇA AO GENITOR. CABIMENTO. SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. PROPORCIONALIDADE A SER OBSERVADA EM RELAÇÃO À VERBA HONORÁRIA. COMPENSAÇÃO. VIABILIDADE. 1. Caso em que os estudos técnicos realizados na instrução foram categóricos no sentido da inexistência de situação a contraindicar o convívio paterno-filial, ocorrência que amparou a improcedência do pedido de suspensão das visitas paternas (objeto da ação), revelando, em contrapartida, a dificuldade de comunicação e de cooperação entre os genitores, a litigiosidade decorrente da separação, bem como os negativos reflexos desse conflito no desenvolvimento emocional do filho menor, responsabilidade que deve ser imputada a ambos os genitores, não autorizando o pretendido reconhecimento da alienação parental alegadamente praticada pela genitora (objeto da reconvenção). 2. Considerando que ambos os genitores são aptos ao exercício da guarda, corretamente estabelecido na origem o seu compartilhamento (objeto da reconvenção), arranjo que atende ao disposto no art. 1.584, § 2º, do CC (nova redação dada pela Lei nº. 13.058/14) e que se apresenta mais adequado à superação do litígio e ao atendimento dos superiores interesses do infante. 3. A ausência de consenso entre os pais não pode... servir, por si apenas, para obstar o compartilhamento da guarda, que, diante da alteração legislativa e em atenção aos superiores interesses dos filhos, deve ser tido como regra. Precedente do STJ. 4. Manutenção da sentença no ponto em que fixou como base de moradia a residência da genitora e regulamentou o convívio paterno-filial nos termos propostos pelo genitor, em atenção à necessidade de preservação e fortalecimento dos vínculos afetivos saudáveis. 5. Não tendo o genitor demonstrado sua situação de fazenda e, assim, que faz jus à concessão da assistência judiciária gratuita, deve ser revogado o benefício deferido em seu favor na sentença, conforme requerido no apelo da genitora. 6. Descabido o redimensionamento da sucumbência

90 CUNHA, Tâmara Moraes. Guarda Compartilhada: Meio e eficaz de inibir a prática da Alienação Parental? 2015. Disponível em: <http://www.mariaberenice.com.br/uploads/aliena

%E7%E3o_parental_e_suas_consequencias.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2015. 91 Ibidem.

92 RIO GRANDE DO SUL. AC 70061663670. Disponível em: <http://tj-

recíproca, pois inocorrente o alegado decaimento mínimo do genitor, devendo ser mantida a proporção estabelecida na sentença para o pagamento das custas processuais, que deve ser observada também em relação aos honorários advocatícios, possibilitando-se a compensação (art. 21, parágrafo único, do CPC e da Súmula nº 306 do STJ), conforme postulado no apelo do genitor. 7. Declaração de voto do revisor. APELOS PARCIALMENTE PROVIDOS. (Apelação Cível Nº 70061663670, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ricardo Moreira Lins Pastl, Julgado em 09/04/2015). (TJ-RS - AC: 70061663670 RS, Relator: Ricardo Moreira Lins Pastl, Data de Julgamento: 09/04/2015, Oitava Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 22/04/2015)

A decisão, conforme foi estabelecida, dá a possibilidade para que os pais cheguem em um consenso. Se a guarda fosse reformada, passando para unilateral (conforme pedido da genitora) ou sendo a mãe destituída do poder familiar pela alegação de alienação parental (conforme pedido do genitor), existiria um prejuízo muito maior para a criança, que passaria a ter um convívio com apenas um dos genitores, aumentando as chances de se estabelecer com mais facilidade a alienação parental.

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