Organograma 1 – Estrutura organizacional da Secretaria Municipal de Educação
5 DA HETERONOMIA À AUTONOMIA: A EDUCAÇÃO MORAL QUE
6.1 COMO A MORAL É EXPLICITADA PELAS CRIANÇAS?
Na lógica de pensamento de uma ciência moral, agimos moralmente quando movidos pela razão científica, que, assim como a moralidade, se guia por praticamente os mesmos princípios (geral, impessoal e independente de interesses particulares). Ao mesmo tempo em que agimos moralmente, atuamos com plena autonomia, pois é a ciência, dizia Durkheim, que nos deixa cada vez mais independentes das coisas. Neste sentido, ―para determinar como deve ser nossa conduta em relação com o mundo, bastaria raciocinar atentamente, tomar consciência de nós mesmos: esse é o primeiro degrau da autonomia‖ (2008, p. 120). Não se trata, portanto, de uma resignação passiva, mas de um tipo de adesão esclarecida; não é sofrer constrangimento, é querer livremente essa ordem, como se pode observar na cena em que se segue:
São 8h40 e o G5A se dirige ao refeitório em fila para tomar café da manhã. Hoje é o quarto dia letivo da creche. Chegando lá, sentam-se ao redor de uma única mesa. O café do dia consiste em pãezinhos integrais com geleia e achocolatado. As crianças são servidas pelas professoras que passam o doce no pão e vão oferecendo a elas. Wesley, já acostumado às regras do refeitório em experiência de anos anteriores, termina de tomar seu achocolatado e dá-se por satisfeito. Ele sabe que deve cumprir uma ordem relativa aos utensílios sujos e mostra como consente livremente a essa regra perguntando à sua professora onde deve deixá-la: onde eu coloco a caneca? A professora responde apontando para as bacias plásticas. Então, percebendo que a regra permanece a mesma, ele vai até as bacias e dispensa sua caneca. Às 8h52 o grupo começa a se organizar em fila para retornar à sala. O
refeitório tem cheiro de cebola frita (Relato de Campo, em 17 fev. 2011. Café da manhã do G5A).
A autonomia da vontade consiste, portanto, em reconhecer deliberadamente a existência da heteronomia. Significa reconhecer que é pela adesão esclarecida às regras externas que nos tornamos cada vez mais autônomos. Quando passamos a ser movidos pela razão, passamos a agir moralmente. Agimos com plena autonomia porque seguimos nossa própria natureza individual. Trata-se da plenitude do ser, razão soberana da moral, diz-nos Durkheim. Em outros registros das falas das crianças do G5A também se nota a adesão consentida às regras do refeitório:
São 16h20 e chega ao refeitório outro pequeno grupo do G5A. Isis é uma das que acabou de chegar. Depois de se servir ela roda pelo espaço do refeitório e resolve se sentar ao lado de Carol. Esta, ao ver no prato da amiga um pedaço grande de frango, a orienta assertivamente: não é prá pegar grande! (Relato de Campo, em 25 fev. 2011. Janta do G5A).
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São 14h20 e o G5A está no refeitório tomando o lanche da tarde, que consiste em banana picada com farinha láctea. Wesley, ao ver que a amiga Alice está se levantando da mesa a adverte: péra Alice, ainda não é prá ir prá sala! E ela lhe responde: não tô indo! Então a professora chega e diz para Alice e Matheus, que estavam em pé: é prá acabar e esperar sentadinhos na mesa! A professora continua: Dani, Carol, é prá acabar que a profi tá esperando! (Relato de Campo, em 28 fev. 2011. Lanche da tarde G5A).
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São 16h20 e uma professora da comissão do refeitório chega à classe do G5A para buscar o primeiro grupo de crianças que irá jantar. Às 16h22 algumas crianças já estão se servindo e outras aguardam na fila do buffet. O jantar consiste em arroz, frango, farofa e salada de cenouras e tomates crus. Wesley, Eloisa e Julia sentam-se juntos. Eloisa fala alguma coisa para mim, mas Wesley interfere dizendo: Eloisa, come primeiro, depois fala (Relato de Campo, em 1º mar. 2011. Janta G5A).
Na cena seguinte, pudemos notar como a prescrição é consentida pelas crianças que utilizam expressões como ficar forte e deixar forte para fazer com que seus colegas de classe percebam a importância de comer feijão. A cena se inicia com a chegada de Carol que, com a colher, mistura todos os alimentos do seu prato. Ao final da cena, todas as crianças que participavam da conversa serviram-se novamente, incluindo o feijão. Servir-se de feijão, bem como saboreá-lo, tornou-se um desafio que todos estavam dispostos a enfrentar para se enquadrar na prescrição:
São 11h27 e o G5A está no refeitório almoçando. Algumas crianças se serviram de feijão, outras não. Julia se explica aos colegas de classe que
compartilham a mesa com ela: eu e a Alice, a gente não gosta de feijão! Mas em casa eu como. Os que comem feijão começam a dizer às meninas que feijão deixa forte. Carol e Pietro também afirmam que estão comendo feijão. Então após ouvir dos colegas que o feijão faz ficar forte Julia lhes diz: depois eu vou pegar! Wesley também diz que vai comer mais feijão. Ele se levanta, vai até o buffet e serve uma concha de feijão em seu prato. [...]. Alice está comendo seu primeiro prato e está sentada ao lado de Wesley que voltou com seu segundo prato mostrando o feijão que pegou. Ele pergunta à Alice: vai pegar mais Alice? E ela prontamente lhe responde: vou! Referindo-se a um provável terceiro prato, Wesley diz à colega: eu também vou.
Julia, que disse não gostar de feijão, mas comer em casa, também se dirige ao buffet pela segunda vez, servindo-se de feijão. Ao voltar para a mesa ela mostra ao grupo. Alice, que também tinha servido seu primeiro prato sem feijão, se levanta e serve-se pela segunda vez, incluindo o feijão e mostrando ao restante do grupo da mesa (Relato de Campo, em 23 fev. 2011. Almoço G5A).
Não houve participação de adultos, apenas da professora que interveio, impondo limite quando Wesley foi se servir de mais uma concha de feijão. Parece haver entre as crianças maior disponibilidade de mudar seus desejos e opiniões em vista de serem aceitas nos grupos. Para Sarmento (2010), no espaço institucional da escola constroi-se um saber oculto ao olhar institucional. Neste sentido, quando as crianças estão reunidas, sem a vigilância adulta, elabora-se um ―currículo oculto‖, que determina os aprendizados ―que não são nem explicitamente formulados, nem desejados‖, como apontam Plaisance e Vergnaud (2003, p. 127). Trata-se de um currículo que faz parte da experiência da criança, de seu ―ofício‖ e que não está explícito em documentos, nem na intencionalidade dos professores.
Ao final da cena, as duas meninas que não se haviam servido do alimento foram até o
buffet e o incluíram em seus pratos, fazendo questão de mostrar aos colegas. Houve também
aqueles que fizeram questão de reforçar o alimento, servindo-se dele mais de uma vez. Há, na cena seguinte, certa relação com a cena do feijão, pois parece ressaltar a importância de ser aceito no grupo:
São 11h13 e o G5A almoça no refeitório. Wesley, ao notar que Bel, sua colega de classe, não havia se servido de feijão lhe diz: a Bel vai ficar bem fraquinha. A menina se explica: às vezes eu não pego. E Wesley anuncia: eu vou pegar um monte de feijão. Minutos depois as crianças se dirigem ao buffet para servirem-se novamente. Às 11h18 Wesley retorna do buffet e conta ao grupo: eu peguei arroz, peguei ovo... Isis questiona o amigo desafiando-o: porque tu não pegou maionese? Bel, que também se serviu novamente, agora mostra aos colegas seu prato com feijão. Alice também se serve mais uma vez e decide pegar feijão para mostrar aos colegas. Eles aprovam dando sorrisos uns aos outros (Relato de Campo, em 21 mar. 2011. Almoço G5A).
Assim como Wesley agiu de acordo com as regras prescritas com as meninas que não se serviram de feijão,na situação posterior são os colegas que agem sobre ele.
São 11h26 chega e outro grupo do G5A chega para almoçar. Hoje, no prato de Wesley há apenas arroz. Ele não quis se servir nem de feijão, nem de ovo cozido e picado, o cardápio do dia. Arthur, Alice e Pietro, ao notarem o prato do amigo começaram a mostrar os seus ao mesmo tempo em que diziam que comiam feijão. Wesley apenas os observa sem retrucar. Após alguns instantes conversando sobre ficar forte, Wesley é convencido a comer feijão, vai até o buffet e se serve. Alice, ao ver que o amigo foi se servir de feijão exclama: minha nossa! Eu vou dar um abraço no Wesley. Arthur, que também comia feijão, ao ver a atitude do amigo, lhe diz: os Power Rangers também são fortes. E Wesley lhe responde: o Dr. Clubert manda nos Power Rangers. E o vermelho é mais forte que o escuro. Wesley, ao avistar um pedaço bem pequeno de cebola (tempero do feijão) no prato de Alice, pergunta-lhe: ô Alice tu come cebola? Alice responde afirmativamente, observando o pequeno pedaço de cebola que Wesley estava lhe alertando: eu como! A pequena então mostra sua coragem: olha Wesley, eu como essa cebola, quer ver? Wesley observa Alice que leva a cebola até sua boca dizendo: mas olha, a cebola não caiu da minha boca, pode ver! Depois de consagrar-se com a cebola, Alice inicia uma conversa: sabia que a minha mãe fez batatinha com feijão, arroz e cebola? E fez bolo? Wesley pergunta: quando ela fez? E ela lhe responde: amanhã! (Relato de Campo, em 14 mar. 2011. Almoço G5A).
Segundo Durkheim, podemos observar que o sentimento de constrangimento que se dá na imposição da razão sobre nossas faculdades sentimentais não desperta automaticamente o de obrigação. É a escola da moral laica que fará com que o constrangimento cotidiano se torne um dever. Porém, o dever, para o autor, deveria ser apreendido mediante um esclarecimento racional. A educação é o meio de fazer com que a criança seja esclarecida quanto à autoridade desses deveres. Na cena seguinte, observamos a dificuldade da autoridade moral em fazer valer o caráter ―sagrado‖ do dever em um dos meninos do G5A, constrangido toda vez que é forçado a se limitar à regra:
São quase 17h00. O G5A acabou de jantar e o grupo todo está de volta à classe. Quando retornam da janta as crianças pegam suas escovas e escovam seus dentes. Depois, voltam a brincar enquanto alguns pais começam a chegar para buscar seus filhos. Os meninos estão brincando de carrinho, montando pista. Uma dupla de garotos joga bola para o alto, quase atingindo o ventilador de teto da sala. A professora e a auxiliar estão sentadas conversando e definindo com quem ficarão as crianças após as 17h00. Elas falam de um menino que grita, chora e faz birra sempre que é frustrado. A professora lembra-se de uma frase de uma colega sua que dizia: esse aí precisa aprender a lidar com a frustração. A professora também faz comentário sobre o vocabulário baixo do menino. Hoje foi um dia em que ela o avaliou como estando mais sossegado em relação aos anteriores. Hoje é o sexto dia letivo na creche. Segundo a professora, hoje, prá uma segunda-
feira foi muito bom! Ela pensa em fazer atividades com as crianças para que aprendam mais a obedecer e a conviver em grupo, pois até então estava quase impossível pensar em fazer alguma coisa (Relato de Campo, em 21 fev. 2011. Momento em classe após a janta do G5A).
Conforme Durkheim, é do constrangimento que sentimos ao nos submeter a uma norma que é exterior à nossa vontade81 que nasce o sentimento de obrigação e, como vimos, este ―é um elemento constitutivo de qualquer preceito moral‖ (2008, p. 118). Nesta cena, portanto, pudemos observar como o sentimento de constrangimento está fortemente relacionado à moral e à imposição da razão sobre nossos interesses pessoais, pois o constrangimento nos marca, mostrando que há algo exterior à nossa vontade e ao qual devemos nos submeter. Porém, se essa regra exterior, maior do que nossa vontade, não se justificar racionalmente, a imposição visará a uma moral empobrecida, a uma mera sujeição de um indivíduo sobre o outro, afirmava Durkheim.
Mas a cena nos revela outros elementos morais, além do sentimento de obrigação. Ela mostra a disciplina, representada sob a forma de obediência, e como o princípio da adesão à coletividade aparece na fala da professora, no sentido de aprender a conviver em grupo, estando ligado à disciplina.
Vejamos na cena que se segue como a vontade, antes impulsiva, vai se tornando cada vez mais autônoma, à medida que vão se incorporando as regras:
São 16h15 e o primeiro grupo do G5A já está no refeitório para jantar. Uma professora da comissão do refeitório foi buscá-los na sala. Lembrando-me do que de Carol dissera ainda em classe, de que estava morrendo de fome, pergunto a ela ao ver que se servia de apenas um tipo de alimento: você pegou só polenta? Pensei que estavas morrendo de fome. Então, saboreando sua polenta, ela me responde: é que tava com vontade! Se tiver isso eu vou pegar só isso, frisa Carol referindo-se a uma possível repetição. Isis, no entanto, lamenta-se: eu queria que tivesse couve-flor! (Relato de Campo, em 25 fev. 2011. Janta G5A).
Como pudemos perceber, o desperdício constitui uma das maiores infrações no refeitório. Quando essa regra está incorporada, a vontade torna-se autônoma. Carol pode pegar só os alimentos que deseja comer, desde que coma tudo, disciplinadamente e nada desperdice.
Neste sentido, a autonomia da vontade relaciona-se a uma obediência esclarecida, uma obediência que nos liberta, dizia Durkheim, porque há uma razão para ela. No entanto, a
81 Segundo o dicionário eletrônico Houaiss, frustração significa estado de um indivíduo quando impedido por
obediência consentida, assim como a disciplina e a penalidade, pode constituir um objetivo com dois polos.