CAPÍTULO 3: O CAMINHO METODOLÓGICO
3.4 COMO APRESENTAMOS OS RESULTADOS E ELABORAMOS O RELATO
Para apresentação dos resultados utilizamos descrições detalhadas e simétricas dos eventos, conjuntamente com transcrições das falas dos atores humanos, que estão destacadas no texto na forma de trechos de fala. Para representação das mediações entre os actantes em cada um dos eventos relacionados à sequência didática, e para evidenciarmos a emergência ou mobilização de competências/conhecimentos/saberes/aprendizagens e também a emergência dos tipos de professor, elaboramos um diagrama, o qual foi fundamentado nos pressupostos teóricos da CdC, e inspirado em uma ferramenta analítica denominada de “figuração cognitiva” (FIGURA 17) desenvolvida por Coutinho et al. (2014c).
FIGURA 17 – A unidade de análise “figuração cognitiva”. (Elaborado por Coutinho et al. 2014c)
De acordo com os autores esta unidade de analise é fortemente alicerçada no quadro teórico-metodológico da ANT, na cognição distribuída e na psicologia ecológica, e tem como finalidade superar as concepções mentalistas e cognitivistas que dominam as pesquisas em Educação, permitindo aos pesquisadores evidenciar as relações entre os humanos e não humanos nos “processos de ensino e aprendizagem”. Além disso, a figuração cognitiva possibilita trazer conhecimentos acerca da contribuição das “coisas” nos “processos de ensino”, rompendo desta forma, os limites entre o mental e o material, o interno e o externo. Por meio da figuração cognitiva é possível descrever os actantes envolvidos, os movimentos de translação que ocorrem, e compreender o que emerge da (s) rede (s) (COUTINHO
et al. 2014c).
Coutinho et al. (2014c) enumeram três vantagens na utilização da figuração cognitiva, a saber: 01) Não importam as diferenças entre os planos ontológicos e entre os campos disciplinares específicos, o objetivo é descrever as relações entre os actantes; 02) A aprendizagem é tida como um fenômeno que emerge em uma rede sociomaterial e, assim, como algo coletivo e distribuído; 03) A sala de aula não é um espaço físico limitado por quatro paredes, que é composta por alunos/alunas e professor, pois os actantes mobilizados transladam outros espaços físicos e territórios conceituais.
Em nosso diagrama55 a elipse alaranjada representa o recorte da rede
retratada pela grafo56 à esquerda; o conjunto de pontos coloridos57 (nós) representa
os diferentes actantes58, incluindo o professor da educação básica, os quais estão
conectados por uma linha, que expressa as conexões forjadas por suas ações; e por fim, as setas que se deslocam para fora da elipse representam a emergência de um determinado tipo de docente (FIGURA 18).
FIGURA 18 – Diagrama utilizado para a análise dos dados deste trabalho (Elaborado pelos autores).
No que concerne à utilização da diagramação para o estudo de práticas educacionais e de subjetividades, De Freitas (2012) argumenta que essa está em conformidade com a proposta metodológica de estudar as interações entre diferentes entidades por meio de novas ontologias. A diagramação é alusiva, alegórica, elástica e criativa, e permite elucidar como as coisas funcionam ao invés de revelar o que as coisas significam, possibilitando uma ampla codificação das interações que ocorrem em sala de aula. São mais que meras representações, imagens, ilustrações, metáforas, mas dispositivos, mecanismos, ferramentas
55 O nosso diagrama é utilizado somente como recurso de visualização das performances/emergência e das relações entre os actantes, sem a intenção de designar a força de associação entre estes. 56 Um grafo consiste em um conjunto de vértices e arestas.
57 As cores determinadas para cada actante foram escolhidas de forma não intencional. 58 Os actantes estão dispostos de forma aleatória na rede.
materiais de amostragem direta que cortam o espaço e aludem a novas dimensões e novas estruturas.
De Freitas faz críticas ao uso de determinados tipos de reproduções gráficas em estudos educacionais alegando que estas podem ser inadequadas, funcionando como representações altamente restritas de causalidade linear, que desconhecem os atores e as ações envolvidas, reduzindo a complexidade das situações e não conseguindo captar o emaranhado de interações envolvidas. Para a pesquisa educacional orientada por uma abordagem não euclidiana, fluida e que concebe uma interação como uma mistura genuína de coisas, a autora sugere o uso de diagramas de nó, o que é concernente e adequado para estudos que analisam redes.
No que diz respeito a apresentação dos dados, escolhemos apresentá-los expondo os tipos de professores que evidenciamos emergir, tanto na etapa de planejamento (Momento 01) quanto na etapa de aplicação da SD (Momento 02), e em seguida tecemos um relato, apresentando trechos de fala dos atores humanos, e o analisamos.
Especificamente para os dados relativos às duas reuniões de planejamento da SD, elaboramos um texto que inclui todos os acontecimentos que ocorreram em ambos os encontros. Acreditamos que essa forma de exibição nos permite demonstrar de forma mais completa a negociação de interesses que se sucedeu entre os actantes professor da educação básica e grupo colaborativo na produção da sequência didática “Estudos de Impacto Ambiental”. Já para a elaboração do relato e a apresentação dos dados referentes às aulas, optamos por exibi-los na forma de episódios de ensino, o qual é definido por Carvalho (2007, p. 33) como "momentos extraídos de uma aula, em que fica evidente uma situação que queremos investigar".
Cabe aqui destacar que os episódios de ensino selecionados não foram escolhidos de forma aleatória, mas representam os momentos em que os pesquisadores conseguiram identificar os actantes e suas ações. É importante pontuar também, que os trechos de fala selecionados foram utilizados com o intuito de auxiliar o leitor na compreensão do relato elaborado por nós.
Julgamos que dessa maneira o relato fica mais organizado, nos possibilitando evidenciar de forma mais clara a performance docente e o que foi mobilizado ou
emergiu em termos de competências/conhecimentos/saberes/aprendizados profissionais.