O
detetive Maguire sentou-se do outro lado da mesa na sala de interrogatório da delegacia da rua Pearse. Os olhos dele estavam muito vermelhos, com bolsas enrugadas embaixo, como se ele tivesse tido uma noite louca de diversão. Mais uma vez, eu sabia que isso não era verdade. De mau humor, ele concordara em me ver, alertando-me de que, por ora, ele apenas ouviria minha história antes de decidir se me recomendaria para os seus colegas. Entendi que isso significava que ele estava agindo como um filtro; se minha reclamação não valesse a pena, ele não queria desperdiçar o tempo da polícia. Senti minha testa coçar com suor.A sala era sufocante, sem janelas nem ventilação. Se eu fosse um suspeito, logo admitiria qualquer coisa para sair dali. Por sorte, eu insistira que a porta ficasse aberta para eu poder ficar de olho em Adam.
— Você costuma pegar vítimas de suicídio? — o detetive Maguire perguntara quando cheguei com Adam.
— Eu o estou ajudando com uma questão de emprego, na verdade.
Não era uma mentira completa.
Verifiquei a porta mais uma vez para garantir que Adam ainda estava ali. Ele parecia entediado e cansado, mas pelo menos estava presente.
— Você sempre leva o trabalho para casa? — o detetive perguntou.
— Você em algum momento vai para casa? — disparei.
Percebi tarde demais que ele estava a ponto de se abrir pela primeira vez.
Minha resposta o fez se retrair para sua concha; o campo de força foi levantado de novo e ele se remexeu desconfortável na cadeira, claramente se repreendendo por causa de sua fraqueza ou por deixar a máscara escorregar.
Minha reação fez com que me sentisse culpada; percebi que eu preferia lidar com o Maguire durão. Não queria relaxar e começar a compartilhar segredos dos negócios com aquele homem.
— Então, conte de novo, você acha que um homem usando uma jaqueta de
couro preta e malha de gola alta, possivelmente um europeu do leste, quebrou seu para-brisa com um taco de hurley porque é possível que você tenha testemunhado uma venda de drogas entre ele e um carro preto com vidros escurecidos, do qual você não consegue lembrar mais nenhum detalhe, em uma estrada do interior, para a qual você não consegue dar o caminho ou a localização porque estava jogando um jogo de se perder. Entendi direito?
O tom dele era entediado.
— Para-brisa da minha amiga Julie, não meu, mas sim, o resto está certo.
Eu havia levado três dias para fazer a ocorrência sobre o para-brisa, em parte porque estava ajudando Amelia com os preparativos do funeral da mãe, em parte por causa da minha programação com Adam, mas na maior parte porque estava evitando ter que passar um único segundo na companhia do detetive Maguire, embora no final eu soubesse que era ele quem podia me ajudar.
— Por que possivelmente europeu do leste?
— Ele tinha aquele visual — falei em voz baixa, desejando nem ter mencionado aquela parte. — Ele era enorme, tinha queixo forte, ombros largos.
Por outro lado, tinha um taco de hurley, o que o fez parecer mais irlandês...
Minha voz morreu, meu rosto foi ficando vermelho ao ver a expressão de divertimento no rosto dele.
— Então, se ele tivesse dado um mortal perfeito, seria russo e, se tivesse um taco de beisebol, isso faria dele americano? E se ele tivesse ido atrás de você com hashis? Japonês ou chinês... O que você acha?
Ele sorriu, gostando da piada.
Eu o ignorei.
— Mais alguém pode confirmar sua história?
— Sim. O Adam pode.
— O suicida.
— A vítima da tentativa de suicídio, sim.
— Alguma outra testemunha que não tenha acabado de tentar se matar cinco minutos atrás?
— Ele tentou o suicídio há cinco dias e, sim, minha sobrinha viu tudo.
— Preciso das informações dela.
Pensei a respeito.
— Claro. Você tem uma caneta?
Ele pegou a esferográfica de má vontade, abriu seu bloco de notas, que estava em branco apesar de eu ter passado os dez minutos anteriores contando-lhe o que acontecera.
— Manda.
— O nome dela é Alicia Rose Talbot e você vai encontrá-la na escolinha Cheeky Monkey Montessori, avenida Vernon, em Clontarf — falei devagar.
— Ela trabalha lá?
— Não, ela frequenta. Tem três anos de idade.
— Você está brincando comigo?
O detetive jogou a caneta.
Adam espiou para dentro da sala, protetor.
— Não, mas acredito que você está comigo. Não acho que esteja levando isto a sério — declarei.
— Olhe, parto do princípio de que a resposta mais óbvia deve ser a verdade.
Sua história sobre um traficante russo com um taco de hurley em uma estrada de interior tem tantos talvez que duvido que tenha sustentação.
— Mas aconteceu.
— Talvez tenha acontecido.
— Aconteceu.
Ele ficou em silêncio.
— Então, qual é a resposta mais óbvia? — perguntei.
— Ouvi dizer que você deixou seu marido.
Engoli em seco, surpresa por ele ter ido naquela direção.
— Na noite do tiro — ele me induziu.
— O que o momento em que fui embora tem a ver com alguma coisa?
O detetive esfregou o queixo com cavanhaque, bem vermelho de barbeador de mais e hidratante de menos. Depois, ficou sentado por um momento, analisando-me, e comecei a sentir como se estivesse sendo interrogada.
— Teve alguma coisa a ver com o tiro?
— Não... sim... talvez — balbuciei ao perceber que não queria que ele soubesse. — Por que você quer saber isso?
— Porque sim.
Ele se mexeu na cadeira e começou a rabiscar no bloquinho.
— Estou neste trabalho há muito tempo, então ouça alguém que tem experiência nessas coisas: você não deve deixar o que acontece no trabalho afetar a sua vida pessoal.
Fiquei surpresa. Estava prestes a dar uma resposta malcriada, mas, em vez disso, mordi a língua.
Devia ter sido difícil para ele falar o que me disse.
— Não foi por causa do que aconteceu com o Simon. Mas obrigada. Pelo conselho.
O detetive Maguire me examinou por um tempo em silêncio e, depois, abandonou o assunto.
— Acha que o seu ex-marido tem alguma coisa a ver com o carro ter sido danificado?
— De jeito nenhum.
— Como sabe?
— Porque ele não é esse tipo de pessoa. Ele não é emotivo assim. Ele nem torce para um time de futebol porque não consegue acreditar em nada tanto assim. No aniversário dele, certo ano, os amigos deram uma parte de uma cerca para ele se sentar... Ele é tão sem opinião assim. É sério, se você o conhecesse, nós não estaríamos tendo esta conversa. Vamos seguir em frente.
— Como ele tem enfrentado o fato de você ter ido embora?
— Maguire, isso não tem nada a ver com você — gritei, levantando-me.
— Pode ter alguma coisa a ver com o seu para-brisa — ele disse, com calma,
permanecendo sentado. — Um marido recém-abandonado pela esposa, humilhado, de coração partido e bravo, eu imagino. Ele pode ter sido o seu docinho quando vocês estavam casados, mas nunca se sabe o quanto as pessoas podem mudar. É como apertar um interruptor. Houve algum comportamento ameaçador nas semanas anteriores?
Minha falta de resposta foi suficiente para ele.
— Mas o carro nem é meu — protestei. — Ele sabe disso. Quebrá-lo iria afetar outra pessoa, não eu.
— É da sua amiga Julie, você me disse. Mas você o está dirigindo. E ele não está pensando muito racionalmente agora. Como ele se sente em relação à sua amiga Julie? Teve algo a dizer sobre ela nos últimos tempos?
Suspirei, lembrando-me da mensagem de voz de alguns dias antes, e olhei para Adam, que estava claramente ouvindo neste momento. Ele fez um aceno com a cabeça para eu contar a Maguire.
— Merda.
Esfreguei o rosto, cansada.
— Então, não vou fazer uma denúncia. Vou pagar pelo dano eu mesma.
Levantei-me e andei pela sala.
— Ainda assim, eu gostaria de fazer uma visita a ele.
— Não!
Parei de andar.
— É sério, ele vai virar uma fera se souber que contei a você.
— Parece que ele já virou uma fera. Quero garantir que não faça isso de novo.
— Por favor, não entre em contato com ele.
Maguire suspirou, depois se levantou.
— O que veio primeiro? As ligações telefônicas nervosas? Elas foram tristes no começo? Depois agressivas? Depois ele quebrou seu carro.
— O carro da Julie.
— Não me importa merda nenhuma de quem é o carro. A próxima coisa na lista dele vai ser sentar-se com você para comer biscoitos e tomar leite.
— Mas o cara russo...
— Não é o cara russo. Você tem alguém em casa com você?
Não gostei da pergunta pessoal e não tinha certeza de como responder. Corei, envergonhada de dizer a ele que Adam estava ficando na minha casa. No final, não tive que falar nada; peguei o olhar trocado entre Adam e o detetive Maguire.
— Certo.
Maguire pareceu um pouco satisfeito de que eu estaria segura.
— Pense a respeito e me avise se quiser que eu faça uma visita a ele.
— Desculpe por ter desperdiçado o seu tempo — falei, mortificada, ao sair da sala.
— Já estou acostumado com isso, Rose — ele falou alto em direção ao corredor.
— Merda — falei, terminando a ligação no meu celular. — Era uma pessoa que quer ver o carro.
Quão rápido podemos consertar um para-brisa?
Desenterrei a cabeça e, depois, baguncei os armários da cozinha à procura de uma lista telefônica.
— Rápido. Não se preocupe — Adam disse, sentando-se no balcão, balançando as pernas e me observando. — Conheço um cara que pode fazer isso;
vou ligar para ele.
— Seria fantástico. Obrigada. Quanto vai custar?
Mordisquei as unhas e esperei a resposta dele.
— Não muito. Tenho certeza de que a sua amiga tem seguro, eu não me preocuparia com isso.
— Não tem a menor chance de eu contar para a Julie. Tenho que resolver isso sem ela saber.
Quanto vai custar?
— Christine, relaxe. É um para-brisa, eles quebram o tempo todo. Uma pedra pode pular da estrada e quebrá-lo.
— Meu ex-marido o estilhaçou em um milhão de pedaços — falei. — Não é bem a mesma coisa.
— Demora o mesmo tempo para consertar, no entanto. Você acha que foi ele?
— Não sei. O detetive Maguire parece ter muita certeza, mas eu realmente não consigo ver o Barry fazendo isso.
Adam pensou a respeito por um momento, olhou para fora da janela como se quisesse garantir que eu estava segura. Eu gostava daquele lado protetor dele.
— Eu pago pelo vidro — ele disse, de repente.
— Sem chance, de forma alguma. Essa é uma ideia idiota, Adam — falei, brava. — Não é isso que quero, não estava tentando sugerir isso. Não aceito coisas de mão beijada — avisei com firmeza.
Ele revirou os olhos.
— Não é de mão beijada. Eu devo pelos seus serviços de qualquer forma.
— Adam, não estou cobrando por isso. Não estou fazendo isso por dinheiro.
Estou tentando salvar sua vida. Você viver vai ser pagamento suficiente para mim.
Meus olhos encheram-se de lágrimas e tive que desviar o olhar. Comecei a procurar a lista nos armários onde já tinha olhado, esquecendo que ele dissera que ligaria para um amigo. Eu estava perdendo a cabeça.
— Mas você cancelou todas as suas consultas por duas semanas. Estou custando para você.
— Não penso dessa maneira.
— Eu sei. Porque você é gentil. Agora, deixe que eu seja gentil com você, porque acredito que você está passando por um momento especialmente péssimo e não vi ninguém vir ajudá-la nem uma vez. Não vejo ninguém tentando ajudar a senhorita-conserta-tudo — ele falou, observando-me.
Os comentários dele me pegaram de surpresa e, por um momento, esqueci o dinheiro. Minha família podia ser estranha, mas eu sabia que sempre estaria ao meu lado; Amelia estava distraída, o que era compreensível; Julie estava em Toronto, e os outros... Bem, pensei que eles estavam me respeitando e me dando espaço, mas, naquele instante, forçada a pensar no assunto, percebi que talvez tivessem tomado partido. Empurrei aquela ideia para fora da minha cabeça e
voltei para os problemas de dinheiro. Em algum momento, eu teria que conversar com Barry sobre me devolver o dinheiro que eu colocara na nossa conta conjunta. Nós a tínhamos organizado como a conta de economia para o casamento e a lua de mel e a mantivemos aberta depois, como a conta com a qual pagávamos a hipoteca, sendo que eu pagava em quantias maiores de dinheiro para não gastá-lo. A mensagem que eu recebera de Barry naquela manhã fora de que ele havia pegado meu dinheiro, minha parte dos pagamentos da hipoteca e todo o valor extra que eu tinha depositado. Verifiquei a conta para ver se ele estava dizendo a verdade e o dinheiro tinha desaparecido. Não havia sido uma boa ideia ter um cartão para saques daquela conta. Ele retirara tudo.
— Então, de qualquer forma, isso pode fazer com que você se sinta melhor, preciso da sua ajuda com outro assunto — Adam disse, mudando o tom da conversa. — Preciso da sua ajuda para comprar um presente para a Maria.
— É claro — respondi, sentindo-me desconfortável e confusa quanto à maneira como minha tristeza aumentou ainda mais só ao pensar nela. — Que tal batom rosa?
Ele apertou os olhos, tentando descobrir se aquilo fora dito com a malícia que parecera ter.
— Não... — ele disse devagar. — Não era isso que eu tinha em mente. Veja bem, é aniversário dela...
— O quê?
Acordei daqueles pensamentos.
— Quando é o aniversário dela?
— Hoje. Por que você está tão brava?
— E você só está me dizendo isso agora? Adam, é uma ótima oportunidade de conquistá-la de volta. Poderíamos ter passado dias planejando isso.
— Estava tentando pensar em um presente sozinho, mas nada parece bom o bastante. Há os presentes usuais, joias, diamantes, viagens, mas já fizemos tudo isso. Não parece bem o suficiente desta vez. Além disso, não achei que você fosse me deixar vê-la de qualquer forma.
Ele estava certo, mas eu ainda estava irritada por ele não ter me dito antes.
— O que você deu para ela no ano passado?
— Nós fomos a Paris.
Ele olhou para mim e meu ressentimento por Maria cresceu em disparada.
— Mas eu não estava no clima. Não estava me sentindo tão bem.
— Por quê? O que aconteceu?
— Nada, na verdade. Foi mais ou menos na época em que a minha irmã se mudou. Eu estava com muitas coisas na cabeça. Maria achou que era porque eu estava planejando pedi-la em casamento.
Obviamente, não aconteceu assim e... Bem, a viagem foi mais ou menos um desastre.
A irmã dele fora embora. Ele via a partida das pessoas como abandono, eu teria que ter cuidado quando nos despedíssemos. A perspectiva me deixou triste.
— Você está bem? — Adam perguntou.
— Sim, estou pensando.
Entrei no quarto e peguei o livro como inspiração. O capítulo seguinte inteiro falava dos benefícios de aprender a cozinhar. Joguei o livro longe, não muito feliz com a solução dele para o nosso dilema. Na verdade, eu não estava nada impressionada com as soluções dele até então.
Cozinhar como terapia? Cozinhar como maneira de reconquistar Maria? A menos que Adam cozinhasse o jantar para ela... mas como isso poderia funcionar?
— Adam, você ainda tem a chave do seu apartamento? — interroguei.
— Sim, por quê?
Ele apareceu na porta do quarto. Sempre parava bem ali, nunca cruzava a entrada do meu espaço privado. Eu gostava disso nele, sempre respeitando limites invisíveis, respeitando meu espaço.
Eu estava pensando que ele talvez pudesse levar o jantar de aniversário de Maria escondido para o apartamento deles, mas, caso Sean estivesse lá, seria um desastre e faria Adam dar passos para trás depois de dias de trabalho duro da nossa parte.
— Eu adoraria saber onde ela vai estar no aniversário dela. Tem algum jeito de você descobrir isso? Falar com os amigos dela? A família? Sem que pareça
importante, é claro.
— Os nossos aniversários são na mesma semana e, assim, geralmente comemoramos juntos — ele falou, incomodado.
Respirou fundo para acalmar a raiva.
— As amigas dela vão levá-la para Ely Brasserie em Grand Canal Dock.
— Como você sabe disso?
Ele pareceu constrangido.
— Apenas sei.
— Adam — alertei —, fui bem específica ao dizer para você não falar com ela.
— E eu não falei. Acabei ouvindo uma mensagem no correio de voz do Sean.
— Como você acabou fazendo isso?
— Porque o Sean é um idiota que nunca se lembra de mudar a senha do correio de voz. Estou ouvindo as mensagens dele desde segunda-feira.
Fiquei ofegante.
— Não sabia que tinha como fazer isso.
— Então é óbvio que você não mudou a sua senha.
Fiz uma anotação mental para cuidar daquilo imediatamente.
— Não importa, você ouve as minhas mensagens de qualquer maneira.
Pensei na mensagem que ele ouvira e apagara. Eu estava morrendo de curiosidade para saber o que Barry havia dito, mas não podia perguntar mais do que já perguntara a Adam e, de certa forma, eu não queria ouvir a resposta.
Segui em frente.
— Então, o que as mensagens diziam?
— Ele está preocupado porque a Maria está um pouco distante estes dias, desde o domingo, quando descobri a respeito deles, mas ainda mais nos últimos dias. Eles deram um tempo, ou ela pediu um tempo, para pensar.
— Sobre você — sussurrei.
Adam encolheu os ombros, mas havia luz nos olhos dele.
— Isso, Adam!
Levantei as duas mãos.
Nós batemos as mãos e, depois, ele me puxou em um abraço.
— Obrigado — ele falou no meu ouvido, os dois braços envolvendo minha cintura com força.
A respiração dele fez meu corpo todo arrepiar.
— Sem problemas — falei, querendo continuar ali.
Forcei-me a afastar.
— Agora, ao trabalho.
— O que vamos fazer?
— Você pode ter dado Paris para ela no ano passado, mas, este ano, meu caro, você vai fazer um bolo de aniversário para ela.
Kitchen in the Castle era um curso de culinária único que funcionava em uma cozinha em Howth Castle, que datava de 1177. Sempre um lugar famoso para encontros e passeios de amigas, naquela noite de sexta-feira não seria diferente.
A turma era na maior parte composta de casais, de todas as idades, com um que definitivamente estava no primeiro encontro. Havia também um grupo de três meninas de vinte e poucos anos que pareceram ter um ataque de risadinhas assim que Adam entrou.
— Christine! U-hu! — Ouvi uma mulher chamar meu nome.
Ela era gorda e arredondada, com um sorriso grande e bonito e um rosto de menina. Não fazia ideia de quem era aquela mulher.
— Sou eu! Elaine!
Eu a encarei até enfim registrar quem ela era. Na última vez em que a vira, ela estivera vestida de Drácula, lendo um livro para uma plateia de crianças aterrorizadas. Nos últimos dias, desde que a mãe de Amelia havia falecido, ela estivera ajudando na livraria.
— Estou aqui em um encontro — ela sussurrou para que seu acompanhante, ao seu lado, não ouvisse.
Não deu nem um pouco certo.
Estendi a mão para cumprimentá-lo e logo tive certeza de que o homem era gay.
— Eu o conheci na aula “Como se apaixonar”.
— Na aula o quê?
— Você não ouviu falar? Minha nossa, todas as meninas estão indo... Muitos homens também. Que é o motivo de eu ir — ela ainda estava falando em voz baixa. — Foi assim que conheci o Marvin.
Ela deu uma risadinha e apontou orgulhosa para ele, depois riu de novo. Desta vez, ela soltou um ronco, seus olhos se abriram em choque e sua mão voou até seu nariz para evitar que aquilo acontecesse de novo. As meninas de vinte anos riram juntas com o que pareceu uma piada suja ou uma observação sugestiva, ou pelo menos imaginei que tivesse sido pela maneira como estavam observando Adam. Uma delas estava se aproximando dele. Ele sorriu para ela.
— E este é o Adam — falei alto, colocando uma mão no braço dele e puxando-o mais para perto de mim. — Adam, está é a Elaine. Ela estava me contando sobre a aula “Como se apaixonar” que ela frequenta.
— Ah, é fantástica! O curso é ministrado pela Irma Livingstone... Sabe, a mulher que escreve os...
— a voz dela baixou de tom — livros de sexo. É no salão da igreja local...
— a voz dela baixou de tom — livros de sexo. É no salão da igreja local...