1. Campanhas eleitorais: em direção ao Brasil online
1.5 Como as campanhas mudam com a internet no Brasil
Embora a internet tenha sido inventada no ano de 1969 e difundida pelo mundo a partir da década de 1990, a sua propagação no Brasil se inicia somente nos anos 2000, mesmo ano do lançamento das redes sociais. Antes dessa data, os pontos de acesso à internet no Brasil se restringiam basicamente a órgãos estatais e empresas. Ter acesso à internet no domicílio era um privilégio de poucos brasileiros.
Estudos indicam que a primeira campanha eleitoral no Brasil a incorporar a internet entre os seus veículos de comunicação de modo relevante foi a de José Serra (PSDB) nas eleições de 2002. O intitulado “Pelotão 45” era uma convocação de militantes e simpatizantes a participar de enquetes em sites e portais e rebater as críticas ao candidato publicadas em blogs e sites jornalísticos (ALDÉ, 2004 e AGGIO, 2010). Antes disso, a internet era usada mais como uma extensão da propaganda política realizada em outros meios, caracterizando-se como uma espécie de painel expositor. Não havia uma estratégia pensada exclusivamente para a internet. Os candidatos apenas expunham suas propostas em websites e as divulgavam via e-mail. Parte desse “atraso” é justificável também pelo fato que a legislação eleitoral, até o ano de 2009 não permitia a utilização de das redes sociais ou a publicação de áudio e vídeo em sites como o Youtube e o Myspace.
Como a internet era ainda um meio restrito a uma pequena parcela da população32, o seu uso político se restringia a classe política, aos profissionais da comunicação e aos pesquisadores de maneira geral, que nela encontravam um vasto banco de informações sobre os candidatos, que alimentavam os mass media. Dessa
32 Segundo os dados retrospectivos do Banco Mundial, de 1994 a 2002 o número de usuários de internet variou de 60 050 para 16 403 934. Gostaríamos de nos basear na mesma fonte de dados utilizada em outros trechos desse estudo, porém, o IBOPE NIELSEN, instituto de pesquisa do qual se extraiu os dados mais recentes de acesso à internet, não possui essas informações mais antigas. Entretanto, em uma comparação com os dados mais recentes, acredita-se que estes números apresentados pelo Banco Mundial estão superestimados. De qualquer maneira, mesmo superestimados, é possível avaliar que com um aumento considerável do acesso ao longo desses anos, com base nos dados do IBGE sobre a população brasileira, em 2002 os usuários de internet no Brasil representavam menos de 10% da população.
maneira, a discussão política de fato ainda se pautava pelos outros meios de comunicação e a internet tinha pouca expressão no processo eleitoral. Este cenário só se altera a partir das eleições de 2006, quando a internet começa a ganhar relevância e destaque como meio de comunicação política.
No ano de 2006, o eleitorado brasileiro consistia em 125,9 milhões de pessoas33. Desses, 25% tinham acesso a internet34. Se faz importante ressaltar que tanto as pesquisas de Barros Filho et al (2007) quanto as de Silveira (2007) sobre o uso da internet nas campanhas desse pleito, apontam que o universo de usuários de internet no Brasil nesse momento é composto majoritariamente pelos integrantes das classes A e B, e começa a penetrar na classe média baixa, denominada segmento C. Segundo Silveira,
“A pesquisa do Comitê Gestor da internet revelou que 78% dos que utilizam a internet afirmam utilizar a rede para se comunicar. O que isso significa? Um conjunto de atividades, tais como: enviar e receber e-mails (83%), trocar mensagens instantâneas (49%) e acessar sites de relacionamento (47%), como o Orkut, participar de chats (35%). Exatamente aí está a importância da rede na política: ela serviu para a organização das forças, das lideranças de opinião, para a articulação de pessoas politicamente ativas nos segmentos médios”. (SILVEIRA, 2007; p. 176)
Com relação à audiência dos blogs que tratavam de política, observou-se uma transferência da elite política offline para o mundo online pois no quesito audiência se destacaram aqueles pertencentes a jornalistas vinculados a grandes veículos de comunicação. Essa é uma das diferenças fundamentais na hora de se comparar as campanhas eleitorais online entre Brasil e Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os blogs com maior audiência são de autoria de pessoas independentes dos mass media. Outros fatores que serão abordados adiante mas que podem ser a resposta do porque o fenômeno Obama não se repete ainda no Brasil estão relacionados a diferença gritante da porcentagem da população com acesso a internet35, a existência de uma cultura do financiamento de campanha por pessoa física nos EUA que não há no Brasil e o fato de nos EUA o voto ser facultativo, ou seja, só vota quem se interessa de fato por política, o
33 Fonte: TSE.
34 Fonte: IBOPE Nielsen
35 Segundo informações do Banco Mundial, em 2008 mais de 225 mi de estadunidenses tinham acesso à internet, o que representa mais de 2/3 de sua população.
que tende a tornar o eleitorado mais politizado e menos suscetível aos apelos espetaculares das campanhas.
De modo sucinto, o que os pesquisadores averiguaram nos estudos citados acima foi que “a participação nesse tipo de atividades ainda é restrita principalmente às parcelas mais engajadas do eleitorado e tende a reproduzir as preferências e os comportamentos existentes no mundo offline”. (BARROS FILHO et al., 2007; p. 98)
Especificamente com relação as eleições majoritárias, os candidatos Geraldo Alckmin (PSDB) e Lula (PT), que foram ao segundo turno, e seus eleitores, se utilizaram de websites, de blogs e das redes sociais (especialmente do Orkut, rede social de maior popularidade no país naquele momento) para a realização tanto de campanha positiva quanto de campanha negativa. A esse propósito, constatou-se também que a maior parte dos internautas era contrária a candidatura de Lula, fato esse que está relacionado à variável acesso por classe, e se expressava em um maior número de comunidades no Orkut favoráveis a candidatura de Alckmin e também em um maior número de comunidades contra Lula.
Na análise dos comentários nas comunidades do Orkut em específico, observou- se uma predominância daqueles que faziam referência a agenda de campanha dos candidatos e de comentários que visavam desmentir informações veiculadas na grande imprensa. Observou-se também uma repercussão das informações das mídias tradicionais impulsionando as atividades online, ora para a divulgação das pesquisas de intenção de voto e fatos contemporâneos a campanha, ora para o questionamento e combate das informações que essa prestava.
No segundo turno, a internet foi apropriada como instrumento de mobilização por parte dos chamados eleitores orgânicos, ou seja, aqueles que votam em um partido há várias eleições e não votam de jeito nenhum no seu opositor:
“o sentimento de não serem representados pelo modo de agendamento da mídia tradicional (com seus desdobramentos) provocou, principalmente nos eleitores do PT, um maior uso da internet, com o aumento exponencial do número de postagens em blogs de notícias e de opinião, assim como o aumento da circulação de contranotícias...” (BARROS FILHO et al., 2007; p. 93)
Embora o ciberespaço seja uma esfera pública em construção na qual a massa ainda não se encontra em totalidade e na qual poucos sabem de fato lidar com seus
protocolos, a internet fora nesse pleito um espaço de construção de discursos, contradiscursos, debate e mobilização pelos dois principais partidos na disputa eleitoral, gerando uma série de listas e comunidades de discussão política. Ao mesmo tempo, o anonimato e os avatares pelos quais se veiculam informações propiciam um ambiente favorável a agressividade e a sabotagem, gerando uma tendência às campanhas negativas. Em síntese, observa-se o desenvolvimento de uma cultura política de participação mais ativa e mais favorável aos valores democráticos de modo geral pela apropriação da tecnologia, fato que dificilmente se daria no ambiente offline.
“É possível afirmar, sem exagero, que nunca cidadãos comuns escreveram tanto sobre política como no ano de 2006. A internet deu sentido à escrita política. Escreveu-se para criticar ou para defender um candidato, mas também para interpretar os fatos que estavam acontecendo. A rede foi muito utilizada tanto para convocar reações e disseminar mensagens contra a chamada “grande mídia” (pelos simpatizantes de Lula) como para reforçar os ataques dos grupos de mídia aos escândalos que envolviam o PT (pelos simpatizantes de Alckmin). Também deu nova força a uma modalidade até então marginal do texto político, o desabafo.”. (SILVEIRA, 2007; p. 181)
Ao ampliar as formas de visibilidade midiática, a internet adquire crescente relevância na discussão política contemporânea, e um dos desdobramentos desse fenômeno é a soma de novos elementos as campanhas eleitorais. Na realidade, a comunicação multidirecional propiciada pela internet faz com que as campanhas fujam ao controle das suas equipes de planejamento, o que força os candidatos e suas assessorias a repensarem o modo da promoção de suas respectivas imagens. Por essa emergente necessidade, criou-se uma nova vertente no marketing político, o e- marketing.
“O uso das redes sociais pelo e-marketing político ainda é limitado e experimental, e estão sendo adaptados as realidades locais das campanhas em cada país” (PENTEADO, 2011). Dessa forma, cabe aos profissionais do e-marketing construir a campanha de maneira que integre as mídias tradicionais e as mídias digitais. Para tal, é preciso saber trabalhar com as inúmeras ferramentas e aplicativos do meio virtual pelas quais interagem diversos potenciais eleitores, como: websites, plataforma para vídeos – Youtube e My Space, blogs, debates virtuais, circulação de virais, e-mails (spams), RSS, SMS, Flash-mobs, Crowdsourcing e as mídias sociais (Orkut, Facebook, Twitter, Linkedin, etc).
Além disso, é preciso que esses profissionais compreendam a diferença da lógica de funcionamento e interação entre as diferentes mídias. Por isso, é de suma importância que estes saibam articular os novos elementos que a internet agrega as campanhas, como:
1) O princípio da isonomia. Na internet todos estão em um patamar de
igualdade com relação à produção de conteúdo. Dessa maneira, a comunicação com o eleitor deve ser pensada de maneira dialógica, no sentido de aproximá-lo do candidato mostrando que esse é uma pessoa como outra qualquer, e não mais com aquela aura e distanciamento característicos da liderança política centralizadora. Nesse sentido, muitos candidatos se apropriam da internet para expor sua intimidade e revelar os seus gostos pessoais e suas vivências do cotidiano.
2) A convergência digital. De acordo com a explanação anterior, uma
campanha via internet não será bem-sucedida se for pensada como uma mera extensão das campanhas offline, servindo apenas como mais um painel de exposição dos candidatos, pelo contrário as mídias devem estar integradas para que a comunicação com o eleitor seja a mais clara possível. Desse modo, os candidatos podem se utilizar de suas redes para divulgar suas agendas de campanha assim como o HGPE da televisão pode ser reproduzido via Youtube;
3) O caráter interativo e colaborativo da internet e a ação descentralizada dos militantes. É uma tendência que a campanha via
internet adquira uma dinâmica própria. Conforme diversas pesquisas já indicaram, militantes, simpatizantes e interessados na discussão política de maneira geral se utilizam da internet para compartilhar o seu ponto de vista com seus pares nas redes sociais e, ao mesmo tempo, para debater com aqueles que possuem opiniões divergentes em blogs e sites que possuem espaços para comentários;
4) A organização e mobilização de cidadãos independentes. Além de
mobilizar os eleitores para comícios, visitas a bairros e locais públicos, a internet tem sido apropriada pelos cidadãos na organização de movimentos independentes, sendo muitos deles de protesto, como a Primavera Árabe, o movimento Indignados da Espanha, os
movimentos Occupy que se espalharam pelo mundo, inclusive no Brasil e também outros protestos organizados pela sociedade civil brasileira, como a Marcha pela Liberdade de Expressão, a Marcha da Maconha, o Churrascão da Gente Diferenciada, o Movimento Passe Livre e o Movimento Caras Pintadas Contra a Corrupção II.
5) Alternativa de comunicação aos meios jornalísticos. O ambiente
online tem sido usado como espaço de divulgação e circulação de informação política tanto para acrescentar quanto para contestar as notícias veiculadas pelos mass media, que em diversas situações declinam do princípio da neutralidade. Exemplos desse tipo de caso foram o 13-M na Espanha, quando o governo espanhol atribuiu a culpa dos atentados terroristas ao metrô de Madrid ao ETA enquanto a mídia internacional divulgava que a Al-QAEDA assumira a autoria dos ataques, e as eleições de 2006 no Brasil, quando os militantes do PT usaram a internet para fazer frente aos meios que declaradamente apoiavam a candidatura de Geraldo Alckmin.
Pontuados os novos elementos que a internet agrega as campanhas partiremos para a última sessão desse capítulo na qual se abordará como a mudança nos hábitos e usos dos cidadãos decorrentes do avanço tecnológico implica na mudança dos valores sociais e, consequentemente, nas diretrizes institucionais através de reformas na legislação.