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Como os blogs atuam: os casos do senador Trent Lott e do New York Times

Capítulo III – Política, Multidão e Internet

11. A política dos/nos blogs

11.1 Como os blogs atuam: os casos do senador Trent Lott e do New York Times

Um dos exemplos citados por Hugh Hewitt, é o caso do senador americano Trent Lott que foi derrubado após declarações em favor de outro ex-senador, cuja longa trajetória política havia sido marcada pelo apoio a segregação racial na década de 40.

No centenário do senador James Strom Thurmond em 1992, um dos mais antigos e respeitados políticos norte americanos, o senador Trent Lott do mississipi, foi um dos oradores e fez a seguinte declaração:

“Uma coisa eu preciso dizer sobre meu estado: quando Strom Thurmond concorreu à presidência, nós votamos nele. Nós nos orgulhamos disso. E, se o restante do país tivesse nos seguido, não teríamos tido todos esses problemas ao longo desses anos.” (HEWITT, 2007, p. 37).

Aparentemente, soava apenas como um belo elogio a um homem que tinha dedicado sua vida à política. Mas em 1948 Thurmond tinha concorrido à presidência e seguia um programa chamado “Dixiecrat”, que era pautado na seguinte promessa:

“Nem as leis de Washington nem as baionetas do exército poderão forçar o negro para dentro de nossas casas, nossas escolas, nossas igrejas.” (HEWITT, 2007, pg. 37).

A mídia tradicional não deu muita importância para os acontecimentos, pois consideraram o fato irrelevante diante das festividades. O jornalista O’Keefe da ABC news, se esforçou em investigar o passado do senador Thurmond e conseguiu mencionar o caso duas vezes na manhã seguinte. O World News This Morning transmitiu o comentário e ainda realçou a reação negativa de Wade Anderson, membro da Conferência da Liderança sobre Direitos Civis e a ABCnews.com postou um pequeno texto no seu altamente influente resumo diário de notícias e foi só. Depois, a história pareceu morrer para a mídia tradicional. Mas alguns blogueiros, que foram credenciados para o evento, imediatamente, apuraram os fatos e o até então desconhecido Atrios às 13h21 do dia seguinte, já tinha comentado o acontecimento, com as declarações de Trent Lott, afirmando:

“Como a correção política é o flagelo da sociedade, eu não vou mencionar que os problemas a que Lott se refere são as leis de direitos civis e de voto64”.

Duas horas mais tarde, outro blogueiro e colunista do Washington Monthly postou em seu blog Talking Points Memo65:

“Há uma espécie de consenso hoje em Washington – com a aposentadoria e o centésimo aniversário

64 www.atrios.blogspot.com Acessado em 23/08/07 65 www.talkingpointsmemo.com Acessado em 23/08/07

de Thurmond – sobre esquecer aquelas coisas desagradáveis...Ah, o que poderia ser? Apenas outro exemplo da húbris que hoje reina entre os republicanos do Capitólio66.”

Outro blogueiro que contribuiu para que a bola de neve crescente que estava sendo formada em virtude das declarações de Trent Lott aumentasse cada vez mais, foi foi Glenn Reynolds, perdoando o passado segregacionista de Thurmond mas partindo para cima de Lott disse o seguinte:

“(...) dizer que o país estaria melhor se Thurmond tivesse vencido em 1948 prova que Lott não deveria ser líder da maioria republicana, para começar. E apenas para começar. É um sentimento tão mau e insano quanto desejar que Gus Hall tivesse sido eleito.” (HEWITT, 2007, p. 39).

Atrios mais uma vez atacou, postando uma imagem do modelo oficial da chapa do Partido Democrata para a eleição presidencial de 1948. Material abertamente racista, que afirmava que se os habitantes do Mississipi permitissem que Truman fosse indicado “(...) as terríveis propostas de políticas justas de emprego – contra impostos de votação – antilinchamento e anti-segregação se tornarão a lei da terra e nosso estilo sulista de vida desaparecerá para sempre.” (HEWITT, 2007, p. 39).

A blogosfera, atenta as políticas segregacionistas da época, revelou todo o peso do que Lott tinha dito e levantou um novo tema para ser debatido na esfera pública, tema, que até então, tinha passado despercebido para a mídia tradicional. Outros comentários em diferentes blogs foram feitos e a esta altura parecia que a blogosfera estava bem à frente neste caso.

Durante os dias que se seguiram, a blogosfera continuou com a tempestade de informação, inundando a área e já estava até pedindo a renuncia de Lott, “(...) Se os senadores republicanos permitem que ele permaneça como líder da maioria, merecerão todas as consequências políticas disso. Senador, peço como republicano: faça-nos um favor desapareça do cenário político nacional67.”

Quando Ron Bonjean, assessor de Trent Lott, publicizou as desculpas do senador, a mídia tradicional se deu conta de que a blogosfera estava realmente causando um estrondo no cenário político americano e a partir disto começou o ataque da mídia reproduzindo o que circulava nos blogs e transformando-os em matéria de capa durante semanas.

Surgiram cada vez mais informações sobre o passado político de Lott, o presidente Bush condenou as declarações do senador, entidades ligadas à luta pelos direitos civis pediram o

66 www.talkingpointsmemo.com Acessado em 23/08/07

afastamento de Lott e mesmo este jurando apoio incondicional a ação afirmativa na “Black Entertainment Television”, foi obrigado a renunciar perante a pressão exercida pela sociedade e alimentada pelos meios de comunicação.

A união da blogosfera com a mídia tradicional neste caso, fez com o que o debate fosse levado a público e chegasse até outros setores da sociedade. Sem o apoio dos grandes veículos de comunicação, talvez a renuncia de Lott não tivesse sido efetivada, mas também, sem a insistência da blogosfera, este debate nunca chegaria à grande mídia.

Após o caso Lott, a blogosfera americana entrou em ação novamente denunciando o renomado jornal New York Times. A denúncia foi feita pelo San Antonio Star Express, dizendo que um jovem jornalista do Times poderia ter plagiado material “(...) teve início uma sequência de acontecimentos que, assim como no caso Lott com relação à política, definiu a blogosfera como um mecanismo de responsabilização da mídia.” (HEWITT, 2007, p. 47). O jornalista em questão era o jovem negro Jayson Blair, que pediu demissão no dia 1º de maio de 2003.

Aparentemente, este não era o tipo de notícia que abalaria as estruturas do “grande jornal” New York Times, pois não seria a primeira nem a última vez que um caso de plágio jornalístico teria sido descoberto. Mas a blogosfera se mostrou mais uma vez incansável e não falava de outra coisa após a publicação das notícias a respeito de Blair. Nas palavras do blogueiro Richard Bennett:

“O establishment jornalístico sempre afirma que as organizações de notícias responsáveis são mais confiáveis que os blogs por causa de todos aqueles editores e checadores, mas um blogueiro que tivesse feito o que Blair fez jamais teria sobrevivido meses sem ser descoberto. Quem acha o contrário? Tenho certeza que não68.”

A história ganhou corpo, principalmente por se tratar do maior jornal do país, o blog Times Watch, que se dedicava mapear os excessos do jornal, foi um dos primeiros a apostar que por trás do caso Blair, havia uma falha editorial sistemática. Howard Kurtz do Washington Post, escreveu que o Times já havia publicado cerca de 50 correções as matérias de Blair, e o Times Watch imediatamente se aproveitou da nova descoberta e fez os cálculos que demonstravam que uma média de uma correção impressa a cada 14 matérias de Blair. Desde ponto de vista a história do simples repórter que havia sido pego plagiando, havia se transformado em uma história de omissão e negligência editorial.

Os primeiros questionamentos foram referentes ao fato de Blair ser escolhido para matérias de certa relevância, simplesmente pelo fato de ser afro-americano; já que o New York Times havia

implantado um programa de estágio para minorias étnicas e que segundo Mickey Kaus69, “(...) tem como conseqüência contratar repórteres de minorias recém-saídos da faculdade (...) Blair parece ter sido contratado pelo Times após estágio, antes mesmo de ter se formado na faculdade.”

A questão racial ganhou obviamente lugar de destaque na trama e os questionamentos agora eram, como um jovem jornalista, cuja carreira, breve e problemática, conseguiu subir tão rápido? Todo o foco da atenção publica voltou-se para Gerald Boyd e Howell Raines, editores chefe do New York Times. Todas os questionamentos atribuíam responsabilidade à Boyd e Raines.

Aparentemente, os dois responsáveis pelo jornal faziam vistas grossas em relação às falhas de Blair, pelo fato dele ser afro-americano e em virtude de estar de acordo com as políticas de ação afirmativa do jornal. Em uma reunião do Times, Raines admitiu abertamente que a promoção de Blair tinha sido efetivada pelo fato dele ser negro.

“A essa altura, a blogosfera tinha aberto três frentes contra Howell Raines: sua supervisão negligente, seu estilo imperial de administração e o tratamento preferencial dado a Blair, que para muitos se devia à sua raça. Raines tinha chegado ao posto em que nada mais podia dar errado.” (HEWITT, 2007, p. 54).

O professor de jornalismo e blogueiro Jay Rosen da New York University, ressaltou que “(...) Durante muito tempo os jornalistas não precisavam dar muitas explicações sobre como trabalhavam. A internet criou a expectativa de que as empresas jornalísticas permitem interação, podem ser questionadas.” (HEWITT, 2007, p. 54).

Após inúmeros ataques, Raines e Boyd desistiram e pediram demissão, no dia 5 de junho de 2003, uma semana depois do início dos acontecimentos.