1.2 História Local como história de uma cidade: outro problema
1.2.1 Como a cidade se constitui objeto da História Local?
Vimos no início deste capítulo que a História Local refere-se a um espaço (“transformado” em lugar), delimitado culturalmente, onde se desenrolam ações humanas no tempo. Ao falarmos de História Local em nosso estudo de caso, portanto, estaremos falando da história de uma cidade. E a cidade que escolhemos para o nosso estudo de caso chama-se Mangaratiba.
A narrativa histórica sobre uma cidade pode ultrapassar os componentes de reforço de identidade e pertencimento, geralmente associados a ela. A cultura historiográfica ocidental, em grande parte influenciada pelo conhecimento dos autores gregos da antiguidade, possui raízes profundas na escrita sobre a história das cidades.
Pierre Vernant relaciona esta escrita à própria origem e essência da história como narrativa, destacando que a escrita sobre história remonta às “tradições lendárias orais, próprias de uma cidade ou de um santuário; tal é a tarefa dos cronistas que, à medida dos atidógrafos no caso de Atenas, pretendem fixar por escrito a história de uma aglomeração urbana e de um povo”.37
Eram chamados de atidógrafos os historiadores que narraram a história de Atenas e da Ática. O termo é derivado da adição das palavras Atthides e gráphein (em grego antigo ἱστορία Ἀτθις ou Ἀτθις), e pode ser traduzido por “escrita sobre a
37 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia Antiga. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.
29 Ática”. São os representantes mais conhecidos do desenvolvimento da narrativa sobre tradição local, formulando suas histórias em forma de crônicas de uma cidade, de uma região ou um povo específico. Estas histórias são caracterizadas pelo fato de não se limitarem às passagens míticas, incorporando a essas narrativas uma série de acontecimentos políticos (dinásticos) e militares, utilizando anedotas e marcos episódicos que destacam os grandes personagens, acrescentando ainda comentários diversos sobre topografia, ritos religiosos e hábitos peculiares.
Encontramos ainda hoje um tipo bastante similar de narrativa histórica no Brasil, ou seja, pessoas que escrevem sobre as suas cidades, destacando seus principais feitos, descrições da sua natureza, episódios místicos, enfim, toda uma tradição que enaltece a cidade natal, transformando-a numa espécie de personagem divinizada, elaborada para ser admirada por seus moradores e visitantes. Mangaratiba pode ser enquadrada nesta categoria, como veremos mais à frente.
Sobre esta afirmação, Vilma de Lurdes Barbosa indica que a análise da produção teórica, bem como do material didático sobre história local, existente nos municípios ou sobre eles, “demonstrou a situação de escassez e inadequação dos mesmos”. Para esta pesquisadora, portanto, o ensino de história local se apresenta na forma de “matéria dirigida exclusivamente à memória e, às vezes, à imaginação, não levando em consideração qualquer outra propriedade intelectiva do aluno e do próprio professor”. Constata a autora que a História Local, assim produzida e ensinada, apresenta-se de maneira fragmentada, decorativa, repetitiva, memorativa, “enaltecedora de personalidades e vultos históricos, na qual os fatos são apresentados como axiomas, dogmaticamente”.38
Com raras exceções, o ensino da História Local é prejudicado pela baixa qualidade do material disponível. Cabe salientar que no município de Mangaratiba, os materiais referentes à História Local (que funcionam como componente do conteúdo curricular e fonte de pesquisa para as aulas) foram produzidos por leigos que, à maneira dos atidógrafos, reproduzem datas festivas e religiosas, ações de
38 BARBOSA, Vilma de Lurdes. Ensino de História Local: redescobrindo sentidos. Saeculum. Revista
de História. João Pessoa, jul./dez. 2006. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Professora Adjunta do Departamento de Metodologia da Educação da Universidade Federal da Paraíba.
30 personalidades ilustres e episódios aleatórios costurados pela imaginação, sem nenhum compromisso com a racionalização e fundamentação documental.
Segundo a pesquisadora Flavia Caimi, como regra geral, os autores de História Local “são membros de sociedades e institutos literários, advogados, figuras proeminentes da política local”. Portanto, leigos, ainda que bem-intencionados, são os responsáveis na maior parte das cidades brasileiras pela elaboração de “levantamentos históricos, corografias e estudos monográficos amadores.” A autora destaca ainda nesta passagem, as figuras do “historiador diletante e do pesquisador entusiasta”, que escreviam “sem qualquer tratamento acadêmico”. 39
Entretanto, nem só de amadores, memorialistas e autores “não-acadêmicos” vive a escrita sobre História Local. Analisando a escrita acadêmica mais recente sobre as cidades, podemos dizer que, cada vez mais, os historiadores se interessam pelos estudos sobre a formação dos aglomerados urbanos e das regiões que os circundam. Enquanto construções humanas, todas essas definições territoriais merecem ser analisadas em suas dimensões históricas, ou seja, é preciso investigar suas características culturais, políticas, geográficas, econômicas e sociais no decorrer do tempo.
O estudo das cidades permite ao historiador, e às pessoas que entram em contato com o resultado de suas pesquisas, perpassar diversos períodos e acontecimentos históricos, colocando a cidade em relação direta com o indivíduo, de um lado, e com o país e o mundo, de outro. Portanto, temos a cidade, epistemologicamente falando, como um elo fundamental entre a individualidade e a coletividade.40
39 CAIMI, Flavia Eloisa. “Meu lugar na história: de onde eu vejo o mundo?” In: Explorando o Ensino
de História. OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de. (Org.). Brasília: Ministério da Educação, Secretaria
de Educação Básica, 2010. p. 62. Ainda segundo a autora, a etimologia da palavra “corografia”
remete aos estudos locais, uma vez que core (khōros, em grego) diz respeito à região.
40 Evidentemente não nos propomos a encetar aqui um debate sobre as vicissitudes daquilo que
venha a pertencer ao campo do “particular” ou do “geral”, mas consideramos oportuno, a título de reflexão, uma vez que dirigimo-nos preferencialmente a professores, mencionar Aristóteles que procurou marcar as diferenças entre a escrita poética e a histórica justamente por essa dicotomia: “(...) não compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade. O historiador e o poeta não se distinguem um do outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso (pois, se a obra de Heródoto houvesse sido composta em verso, nem por isso deixaria de ser obra de história,
31 Cabe aqui apontar as conclusões da professora Maria Brescianni, relativamente aos estudos historiográficos sobre o tema urbano. Diz a autora que este tema tem sido “entre os estudiosos das cidades brasileiras objeto de pesquisa de geógrafos, arquitetos, sociólogos (...) e mais recentemente, de antropólogos e historiadores”41
Após estas considerações, podemos afirmar que as cidades constituem-se em objetos de estudos palpáveis. Além de permitir que recuperemos algo de sua dimensão histórica do espaço e das experiências de vida que ali se desenrolaram, a cidade possibilita que alunos e professores se vejam como agentes participantes deste tipo de processo educativo, refletindo sobre as transformações e continuidades ocorridas, por meio de suas próprias impressões e relatos compartilhados de experiências.