2. O UNIVERSO RURAL DE ALEGRETE E URUGUAIANA E OS CRIMES DE
2.3 COMO SE DAVAM OS FURTOS DE GADO
A partir das informações obtidas por método serial, é possível observar um padrão nos casos de furtos de animais. Semelhante aos dados encontrados por Thompson Flores para a segunda metade do Oitocentos, muito mais numerosos foram os casos envolvendo apenas um réu e o furto de uma rês. Também há a predominância do gado bovino como o mais furtado entre os casos. Dos 75 processos analisados, 64 informam o tipo de gado furtado. Como é possível perceber no gráfico abaixo, o furto de gado bovino foi o de maior incidência, com 40 casos. Atrás dos bovinos, houveram 10 furtos de equinos e 5 de ovinos. Também houve casos em que mais de um tipo de gado foi furtado, consistindo em casos pontuais.
Gráfico 3: Tipos de gado furtado nos municípios de Alegrete e Uruguaiana
Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos-crimes. Alegrete e Uruguaiana, 1888- 1910.
Em 62 processos informou-se o número de reses furtadas. Chama a atenção que a maior parte dos furtos envolveu apenas uma rês bovina. Além destes, também ocorreram furtos de poucas cabeças, consistindo a maioria dos casos em até 5 reses e uma menor parte envolve furtos de mais animais.
Gráfico 4: Quantidade de reses furtadas nos processos-crimes de Alegrete e Uruguaiana
Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos-crimes. Alegrete e Uruguaiana, 1888- 1910.
Em relação à quantidade de réus por caso, em 46 ocasiões, os processos informaram haver apenas um réu envolvido.
Gráfico 5: Número de réus por processo-crime de Alegrete e Uruguaiana
Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos-crimes. Alegrete e Uruguaiana, 1888- 1910.
Buscando compreender qual padrão mais se repete nos furtos, cometidos de maneira solitária ou em dupla, foram cruzados os dados dos gráficos dos réus e das cabeças de gado furtadas, para analisar, se os réus que cometiam os delitos sem ajuda ou em duplas, furtavam muitas ou poucas cabeças de gado. Dos 75 casos encontrados, o gráfico abaixo aponta que em
35 vezes, os furtos aconteceram de maneira individual ou em dupla com uma ou duas cabeças de gado. Em vinte e um casos, um réu cometeu o crime de tomar para si uma rês apenas.
Gráfico 6: Quantidade de reses furtadas pelos réus mais representativos
Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos-crimes. Alegrete e Uruguaiana, 1888- 1910.
Farinatti encontrou em quase todos os inventários de Alegrete, entre as décadas de 1820 e 1860, rebanhos bovino e equino, enquanto apenas em metade dos inventariantes havia rebanhos muares e ovinos. Segundo o autor, os muares eram criados com a finalidade quase exclusivamente comercial e desde tempos coloniais, uma das principais atividades econômicas se deu através dos tropeiros da região sudeste que desciam ao sul e voltavam para suas regiões com tropas de mulas, tendo a Feira de Sorocaba como importante posto comercial (FARINATTI, 2007, p. 142). No período pesquisado por Farinatti, a criação de ovinos se dava para abastecimento interno da carne nas estâncias e o comércio da lã era limitado pelo pequeno excedente. Guerras, secas e epizootias contribuíram para a queda abrupta na criação de ovelha nos anos 1840. A criação, que eram em média de 245 por inventário na década de 1830, voltou a ter uma alta na média dos rebanhos na década de 1860, ao mesmo tempo em que se tem notícia das primeiras exportações de lã (Idem).
No final do século XIX, a criação de ovelhas se dissemina no Rio Grande do Sul. A região da fronteira com o Uruguai foi onde mais se popularizou a criação de rebanhos ovinos, sendo Uruguaiana o município com os maiores rebanhos do país no início do século XX, mesmo que outros municípios da fronteira produzissem mais lã (BELL, 1998, p. 60). O mercado da lã produzida na fronteira tinha como destino, através das ferrovias uruguaias, a
capital Montevidéu. Leipnitz demonstrou que no início do século XX, 72% dos estabelecimentos rurais de Uruguaiana possuíam rebanho ovino.
Estes rebanhos ovinos são alvos de furto na virada do século, e pode-se perceber que os casos de número elevado de reses furtadas envolveram na maioria das vezes o furto de ovinos, mais do que de bovinos. Thompson Flores, também encontrou um número muito superior de furtos de apenas uma rês bovina para a região da Campanha na segunda metade do Oitocentos, relata que os furtos de ovelhas tendiam a ser em maior número devido a facilidade por serem animais de pequeno porte e andarem sempre agrupadas (THOMPSON FLORES, 2014, p. 335). Esse é o caso quando em 18 de abril de 1891, na casa de residência do Tenente Aníbal Antão Prisco, no Caiboaté, 4° distrito de Uruguaiana, estando presente o subdelegado de polícia Zeferino Fernandes, chegaram os praças de polícia Antônio Peres da Silva, Antônio Machado, Francisco Bittencourt e José Nunes da Silva, dizendo que haviam prendido Honorato Montenegro que conduzia 62 ovelhas de criar da propriedade de João Rodrigues Jacques e João Vianna. Os peritos calcularam o dano causado em 200 mil réis.20 Outro caso aconteceu em 1889, quando a vítima Vicente de Oliveira Pinho morador no 1° distrito de Uruguaiana sofreu a perda de 36 ovelhas. O suplicante paupérrimo que é, disse que foi atacado em sua propriedade, sendo furtadas as suas ovelhas, donde tira “os meios necessários a sua parca e honrada subsistência”.21
O fato de não ter sido encontrado pequenos furtos de ovinos, não necessariamente deve ser encarado como inexistente no universo rural da fronteira oeste. É possível que o furto de poucas ovelhas não gerassem a abertura de um processo e fosse de certa forma tolerado pelos proprietários, que só entrariam em ação judicial quando o furto ultrapassasse a casa das dezenas. Essa é uma hipótese gerada pela ausência de denúncias contra pequenos furtos de ovinos e que precisa ser melhor estudada para se confirmar.