AVALIAÇÃO?
O Estudo de caso apresentado nesta seção registra situa-ções comuns às escolas, quando da recepção dos resultados das avaliações em larga escala, e os caminhos trilhados pela comunidade escolar para a apropriação desses resultados.
A FORMAÇÃO DE LEITORES PROFICIENTES
Na maioria das vezes, as notícias veiculadas sobre o contexto das escolas relatam os problemas e as difi culda-des enfrentadas pelos professores e como tais difi culdaculda-des os imobilizam e os deixam desanimados. É bem menos comum termos conhecimento sobre as experiências bem sucedidas, as inúmeras estratégias encontradas pelos fi ssionais que atuam nas escolas para a resolução dos pro-blemas enfrentados e, principalmente, no desenvolvimento de ideias que revolucionam e melhoram a educação no país. A história da professora Rita é um desses exemplos que, apesar de não serem muito divulgados, são mais co-muns do que imaginamos.
A professora Rita, formada em Língua Portuguesa, havia trabalhado em diversas escolas de sua cidade desde que iniciou sua vida docente, em 2005. Sempre interessada em garantir que seus alunos tivessem um ensino de qualida-de, ela realizou diversos cursos de formação continuada, procurando estudar sobre temas variados, desde aspectos importantes da interdisciplinaridade, até tópicos relaciona-dos à gestão escolar. Os resultarelaciona-dos da avaliação em larga escala eram um tema que interessava Rita, porém ela não encontrava apoio para trabalhar com esses resultados nas escolas em que até então ministrara aulas.
Em 2011, quando assumiu a vaga de docente na Escola Estadual Professora cristina Solis Rosa, localizada no mu-nicípio de vazante, bairro independência, que atende ao Ensino Fundamental, turno matutino e vespertino, Rita co-meçou a notar um movimento da equipe pedagógica no sentido de compreender os resultados das avaliações em larga escala. Ela percebia que os coordenadores e profes-sores, muitas vezes, até compreendiam os dados que che-gavam à escola a cada ano e o que eles representavam, mas agora estavam procurando enxergar além dessas infor-mações numéricas. Rita percebeu que nesta escola podia aprofundar, junto à equipe pedagógica, seu conhecimento acerca dos instrumentos da avaliação em larga escala.
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A equipe gestora preparou, junto à equipe pedagógica, diversos semi-nários, palestras com convidados es-pecialistas no tema e ofi cinas internas, que fi zeram com que o interesse e o envolvimento de todos pelo assunto aumentassem. Rita e seus colegas puderam aprofundar seus estudos sobre matriz de referência, escala de profi ciência, competências e habili-dades, descritores, itens, padrões de desempenho estudantil, resultados de profi ciência, resultados de acertos por descritor etc. A partir de um maior domínio destes conceitos, Rita e seus colegas conseguiram transformar as informações numéricas, os resultados de profi ciência que a escola recebia em uma análise qualitativa. Nesta aná-lise, os professores da Escola Estadual Professora cristina Solis Rosa identifi
-caram um problema: a difi culdade dos alunos para ler e interpretar textos, di-fi cultando a compreensão prodi-fi ciente desses textos.
Diante do problema identifi cado, alguma estratégia pedagógica pre-cisava ser colocada em prática. A di-reção da escola sugeriu a criação de um plano educacional integrado na escola, no qual todos os professores deveriam trabalhar, promovendo a interdisciplinaridade, uma vez que a difi culdade dos alunos para ler e in-terpretar textos atrapalhava o trabalho em sala de aula de todas as discipli-nas e etapas, mesmo aquelas que não eram avaliadas em larga escala. Rita, em conversa com a direção, sinalizou o interesse que tinha sobre o tema e fez comentários acerca de diversos textos que havia lido sobre o
traba-lho interdisciplinar, sendo convidada, portanto, para assumir a liderança do projeto na escola.
Rita sempre acreditou que as ações dependiam, fundamentalmente, de dois fatores: vontade e articulação. O primeiro deles não era um proble-ma para a professora. Agora era pre-ciso engajar a equipe pedagógica em um projeto que tivesse embasamento e viabilidade de execução.
A reunião de planejamento do projeto político-pedagógico se mos-trou um bom momento para iniciar a articulação dos professores em uma proposta integrada, com a fi nalidade de melhor utilizar os resultados das avaliações em larga escala. Percebeu--se, na reunião, que o corpo docente mostrou interesse no projeto interdis-ciplinar. Nesta reunião, os docentes
chegaram à conclusão de que o pri-meiro passo era incentivar/convencer os alunos acerca da importância da avaliação em larga escala.
O trabalho começou com a mo-tivação dos discentes. Os professo-res de todas as disciplinas, em suas aulas, mostravam a importância da concentração para a leitura e a inter-pretação de textos. Eles procuraram despertar o interesse dos alunos, de todas as etapas, para as práticas de leitura e interpretação de textos. Des-sa forma, o corpo docente percebeu, já com as avaliações internas, maior comprometimento dos alunos com o processo de ensino e de aprendiza-gem. As ideias iniciais para resolução do problema vieram ao encontro da sensibilização, da motivação e do en-volvimento dos alunos em compreenderem os textos, tornandoos signifi -cativos.
com os alunos motivados, sentin-do orgulho da instituição e apresen-tando sentimento de pertença à esco-la, era hora de colocar o projeto em prática. Rita, em conversa com os co-legas, sugeriu a criação de um jornal online para a escola, já que a maioria dos alunos tinha acesso aos meios de comunicação, como tv, rádio, internet. com a criação do jornal, o celular, que era também um problema dentro da escola, poderia se tornar um instru-mento a favor do processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que os
alunos poderiam acessar ao jornal por meio dos próprios aparelhos, fazen-do, inclusive, comentários sobre as notícias. com a criação do jornal, os alunos teriam contato com os diferen-tes gêneros textuais, pois essa publi-cação apresenta várias seções, como carta do leitor, classifi cados, receitas, dicas, notícias etc.
Durante o restante do semestre, os professores se mobilizaram para fazer aquela ideia sair do papel. As pedagogas trabalhariam na elabora-ção de conteúdo para os murais da escola com os alunos dos anos ini-ciais, produzindo ilustrações e peque-nas frases para divulgar o lançamento do jornal. Rita e os demais
professo-res de Língua Portuguesa incluiriam a elaboração de textos coletivos como atividade para todas as suas turmas dos anos fi nais, distribuindo funções e garantindo que todos pudessem trabalhar na criação do jornal. Os pro-fessores das demais disciplinas abor-dariam textos de temática de interes-se dos alunos, levando-os a debater esses textos de acordo com o con-teúdo da disciplina, para, futuramen-te, nas aulas de Língua Portuguesa, produzir os textos para as diversas seções do jornal. cada turma fi caria responsável por uma seção.
com a criação do projeto, Rita ti-nha a certeza de que o interesse dos alunos pela leitura aumentaria, mas sabia que um trabalho mais focado nos resultados da avaliação em larga escala precisava ser colocado em prá-tica. Junto com o projeto do jornal, Rita trabalhou, em sua sala de aula, com a matriz de referência da avaliação em larga escala e com o banco de itens que estava disponível no site da Se-cretaria de Educação. Ela sabia que era fundamental entender em quais descritores, ou seja, em quais habili-dades os alunos estavam apresentan-do maiores difi culdades, para que, fu-turamente, eles se tornassem leitores e escritores profi cientes.
A professora dividia suas aulas em três momentos:
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1. Leitura, compreensão e interpretação dos textos:
No primeiro momento, Rita trabalhava com os alunos a leitura dos textos. Ela pedia para a turma ler o texto em voz baixa, individualmente, e, em seguida, fazia uma leitura co-letiva do texto. Por fi m, Rita também fazia uma leitura integral do texto, apresentando as entoações necessárias para seu entendimento.
Após a leitura, era preciso compreender, interpretar, analisar o texto. A professora promovia um debate do texto na sala de aula. Era preciso entender o assunto do texto, o propósito comunicativo, onde o texto foi publica-do etc.
Neste primeiro momento, Rita trabalhava com os alunos habilidades como; identifi car o tema ou a tese de um texto, estabelecer relação entre a tese e os argumentos ofere-cidos para sustentá-la, diferenciar as partes principais das secundárias em um texto, identifi car as marcas lingüísticas que evidenciam o locutor e o interlocutor de um texto e identifi car a fi nalidade de textos de diferentes gêneros. 2. Compreensão das questões do texto:
No segundo momento, a professora trabalhava com a compreensão das questões do texto. Ela lia o comando da questão e as alternativas de respostas; tecia comentários minuciosos sobre as questões; trabalhava com o dicioná-rio e a análise do vocabuládicioná-rio, contextualizando algumas questões com verbetes adequados; relacionava as ques-tões aos descritores da matriz de referência, procurando trabalhar com as habilidades e competências fundamentais a serem desenvolvidas pelos alunos de suas turmas.
Neste segundo momento, Rita procurava trabalhar com as turmas habilidades como: localizar informações explícitas e implícitas em um texto, inferir o sentido de uma palavra ou expressão, estabelecer relações entre partes de um texto, identifi cando repetições ou substituições que contribuem
para a continuidade de um texto, identifi car o confl ito ge-rador do enredo e os elementos que constroem a narra-tiva, estabelecer relação causa/consequência entre partes e elementos do texto, estabelecer relações lógico-discur-sivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advér-bios etc., identifi car efeitos de ironia ou humor em textos variados, reconhecer o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação e de outras notações e reconhecer o efeito de sentido decorrente da escolha de uma determinada pa-lavra ou expressão.
3. Produção de textos para o jornal da escola:
No terceiro momento, a partir dos textos motivadores e de acontecimentos nas redondezas da escola, era hora de os alunos produzirem, coletivamente, textos para o jornal.
vieram as avaliações em larga escala, e as expectati-vas pela divulgação dos resultados foram grandes. Logo no primeiro ano, já houve uma evolução notável do desempe-nho dos alunos em Língua Portuguesa, especialmente nos anos fi nais. como o projeto deu certo e, aparentemente, fez diferença no aprendizado dos alunos, o diretor decidiu mantê-lo no calendário da escola nos anos que se segui-ram, e Rita continuou na liderança do projeto.
A passagem do tempo acabou confi rmando a impres-são inicial de que o projeto contribuíra signifi cativamente para solucionar o problema que a equipe pedagógica de-tectara anos antes. com o passar das turmas, os resultados de profi ciência dos alunos em Língua Portuguesa fi caram ainda mais expressivos, e o desempenho em Matemática e nas demais disciplinas avaliadas se apresentava de maneira ascendente, ano a ano.
Hoje, o tempo de aprendizagem e as intervenções pe-dagógicas são extremamente valorizados pela instituição. As avaliações externas assumem um papel relevante para o trabalho escolar: as habilidades e competências básicas, consideradas importantes para o desenvolvimento dos alu-nos, são, minuciosamente, trabalhadas pelos professores da Escola Estadual Professora cristina Solis Rosa. todos os segmentos: gestores, especialistas, professores e alunos estão envolvidos nesse projeto de sucesso.
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