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A forma como estudei durante a faculdade proporcionou-me bastante conhecimento jurídico, bem como excelente performance para a prova objetiva, tanto que no primeiro concurso privativo de bacharel em Direito passei em primeiro lugar (o concurso não tinha prova subjetiva). A mesma performance tive no segundo concurso de prova objetiva. Porém, quando fui enfrentar concursos de prova subjetiva e oral fui reprovado. Depois de algumas reprovações, conscientizei-me de que não estava preparado para esse tipo de prova, então cuidei de me preparar. O ideal seria que tivesse me preparado ainda no tempo de faculdade. No entanto, como isso não ocorreu, pois não tive a ideia e nem orientação nesse sentido, tratei de recuperar o tempo perdido.
A estratégia de estudar pelos Códigos, infalível para prova objetiva, reclama complemento para a subjetiva, pois a resposta deve ser redigida. Como o jeito melhor para aprender a fazer é fazendo, a melhor técnica para se preparar para a prova subjetiva é estudar redigindo.
Escolhe-se boa doutrina (acompanhando a legislação), estuda-se o assunto e depois redige-se, resumindo o que estudou. Essa técnica pa rece trabalhosa, mas é muito eficiente. E que, ao redigir, além de fixar melhor a matéria estudada, exercita-se a redação e isso é essencial para a prova subjetiva. Além dessas vantagens, os registros da escrita servem como fonte de consulta. Explico: enquanto no estudo para prova objetiva basta ler o assunto e depois mentalizar; no estudo para prova subjetiva usa-se a mesma técnica, só que além de mentalizar, escreve-se, fazendo resumo do que aprendeu.
Esse resumo é fonte importantíssima de consulta rápida. Isto por que nos concursos que têm prova subjetiva, normalmente são muitas as matérias para estudar; assim, suponhamos que hoje foi estudado um assunto de Direito Penal, amanhã estuda-se Direito Civil, depois Tribu tário, Comercial, Trabalho, Administrativo, Constitucional, Econômico, Financeiro etc.
Passados alguns dias, quando a pessoa voltar para recapitular aquele assunto estudado antes, parece que não sabe mais nada. Então terá de ler novamente as várias páginas do livro estudado para poder relembrar o que estudou.
Se o assunto estudado foi escrito sob resumo, não precisará gastar tempo relendo as várias páginas do livro, pois em poucos minutos isso é feito lendo apenas o resumo. E mais: o resumo faz a pessoa lembrar-se de tudo o que estudou, uma vez que como foi realizado por ela (resumo não pode ser feito por terceiros) vai recordar de tudo o que leu em cada palavra registrada. E o mesmo que acontece quando uma pessoa tenta recordar de algo e alguém dá uma dica, às vezes, apenas uma palavra é suficiente para relembrar toda a cena do acontecimento. Com efeito, além do treinamento da escrita, essencial para a prova subjetiva, o resumo também é poderosa técnica de memorização (não é decoreba).
Há pessoas que, em vez de resumir, usam marca-texto para destacar as partes mais importantes. Isso ajuda, é mais rápido, dá menos trabalho, mas nem de longe se compara à técnica do resumo.
A escrita resumida, além de treinar a redação e fixar melhor o es tudo, é mais prática para o manuseio. Por exemplo, os meus resumos ficavam registrados em pequenos cadernos. Um livro de mais de 700 páginas resumia em 50 folhas de um cademinho e para onde ia os le vava e, assim que sobrava algum tempo, aproveitava recapitulando. Já pensou se fosse andar com o monte de livros a tiracolo?
Um detalhe interessante é que o resumo só serve para quem o fez. E que os registros serão de acordo com o que a pessoa achou de inte ressante, além do que a letra fica rabiscada (escreve-se rápido), de forma que somente quem escreveu é que vai entender.
Para se ter uma ideia do valor dessa técnica, faço o registro de um colega que hoje é Procurador da República e me autorizou citá-lo para exemplificar que qualquer pessoa pode vencer pelos estudos, inde pendentemente de classe social, raça ou cor. Esse colega é de família
muito pobre, trabalhou como borracheiro e cobrador de ônibus na periferia de Brasília e, além da origem extremamente humilde, é negro.
O conheci quando ingressei na faculdade, na época ele era policial civil em Brasília e já havia passado por outros cargos públicos de nível médio, todos por meio de concurso. Sua intenção ao ingressar no curso de Direito era ser delegado.
Durante a faculdade estudamos bastante, utilizando a mesma téc nica de estudo que já informei. Embora ele fosse muito bom em prova objetiva, também sentiu dificuldade em prova subjetiva igual a mim e sofreu algumas reprovações. Mas não desistimos, recuperamos o tempo perdido e passamos no concurso para Procurador Federal do INSS (que tinha prova subjetiva).
Algum tempo depois, resolvemos fazer o concurso de Procurador da República. Quando tomamos essa decisão já estávamos tarimbados em concurso, inclusive para a prova subjetiva. No primeiro certame, em 1994, passamos na prova objetiva, mas fomos reprovados na prova subjetiva. No ano seguinte, fizemos novamente o concurso; por descuido, o colega passou duas questões erradas para a folha de resposta e foi reprovado na prova objetiva. Segui em frente e venci todas as fases do concurso, logrando ingressar no MPF em 1996.
Na minha posse como Procurador da República, realizada nas de pendências do Senado Federal, o colega estava triste, pois ele queria muito participar daquela solenidade como empossando. Eu estava alegre por mim, mas triste por ele não ter conseguido. Disse-lhe para não desistir, pois na próxima solenidade de posse eu estaria presente para prestigiá- -lo, porquanto tinha absoluta convicção de que ele passaria no concurso do ano seguinte e, realmente, no próximo ano (1997), ele tomou posse como Procurador da República.
Por ausência de vagas em Brasília, ele foi trabalhar em Uberlândia. Um ano depois conseguiu remoção para Goiânia. Depois de um ano em Goiânia, estava aberta remoção para Brasília, mas não era certo que conseguisse vaga, pois ainda havia gente da turma anterior querendo retomar para a Capital Federal.
O colega ficou preocupado em não conseguir retomar tão cedo para Brasília, onde residia a sua família. Informei-o de que estava aberta a inscrição para o concurso de Juiz Federal da Primeira Região e certa mente teria vaga para Brasília. Ele ponderou, dizendo que já fazia quase
três anos que deixara de estudar para concurso e não teria tempo para se preparar. Disse-lhe que tinha certeza de que passaria, pois conhecia o seu potencial.
Ele se inscreveu no concurso na última hora, recapitulou a matéria utilizando-se da técnica dos resumos e de exercícios. Fez o concurso e logrou êxito em todas as fases. Foi chamado para tomar posse como Juiz Federal, mas recusou, preferindo ficar como Procurador da República, pois conseguira remoção para Brasília.
O nome desse colega é José Cardoso Lopes. Como já disse, ele é de família muito humilde. Teve muita dificuldade para estudar, dividia os livros com os pneus furados, trabalhando em uma borracharia nos fundos de sua casa, na periferia de Brasília. Ele lutou muito, enfrentou e superou inúmeras adversidades e nunca se importou com a cor de sua pele e nem sentiu receio de enfrentar qualquer desafio.
O colega Cardoso Lopes é exemplo de quem estuda com vontade e estratégia vence. Ele enfrentou os difíceis concursos de Procurador da República e de Juiz Federal e passou nos dois, além de outros. Isso é sinal de que basta estudar, a cor da pele não conta, pois se quisessem lhe discriminar poderiam lhe reprovar na prova oral.
Portanto, quem estuda vence, independentemente de religião, sexo, raça, cor, opção sexual ou formato da cabeça. Por exemplo, eu tenho a cabeça chata, muitos pensam que sou nordestino, mas na verdade sou nortista, em tese, até mais discriminado; porém nunca liguei e, por isso, acho que nunca fui discriminado e, se fui, nem percebi. O que eu sei é que consegui os meus objetivos, inclusive, cheguei além do que imaginava inicialmente e tudo foi auferido por meio dos estudos. Nunca precisei do favor de ninguém para subir na vida, exceto da ajuda de Deus, que me deu saúde e determinação para lutar.
Sou testemunha de que os estudos abrem as portas para quem é determinado, não acredita no fracasso, não se entrega ao desânimo e não busca desculpa para desistir e acomodar-se quando os obstáculos tentam impedir o triunfo.