5. COTIDIANO NA PENITENCIÁRIA: A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA
5.1 A PENITENCIÁRIA EM JUIZ DE FORA
5.1.1 Como funciona a penitenciária
A penitenciária em questão é composta por 4 (quatro) pavilhões, sendo apenas um deles feminino. Em cada um destes pavilhões cabem um determinado número de pessoas e, no caso do feminino, a quantidade máxima de internas é de 138 (cento e trinta e oito). Porém, o número de sentenciadas se mantém em torno de cem, não havendo, portanto, superlotação, diferente de outros locais em Juiz de Fora, no CERESP33, por exemplo, o número de presos por cela é muito superior ao indicado. Todas as mulheres privadas de liberdade em Juiz de Fora estão alojadas neste pavilhão,
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Centro de Remanejamento Prisional: Unidade prisional na qual os presos aguardam julgamento, sendo conduzidos, após julgados e condenados para uma penitenciária.
não existindo, portanto separação entre as presas provisórias e sentenciadas, muito menos separação de acordo com o crime cometido, como já foi apresentado.
Em cada cela existem três beliches, com duas camas cada, um banheiro com um vaso sanitário, uma “bica” onde elas tomam banho frio e uma torneira. Televisão e rádio são considerados regalia e podem existir, ou não, na cela, de acordo com o comportamento das sentenciadas e, quando possuem, são trazidas por seus parentes em um dia determinado pela administração da penitenciária. Também é muito comum nos depararmos com celas com diversos problemas de encanamento, como, por exemplo, sanitários entupidos e falta de água, além de ausência de luz. Considerando que existe apenas um funcionário na unidade responsável pela manutenção dos prédios, que é auxiliado por um presidiário, é recorrente que os problemas citados arrastem-se por semanas até ser resolvido.
A visitação se dá aos fins de semana, sendo um dia para a galeria superior e outro para a galeria inferior do pavilhão. O banho de sol é de segunda a sexta e tem a duração de duas horas. Para irem até o pátio, onde acontece o banho de sol, elas, após se sujeitarem ao procedimento de revista já explicado, passam pela galeria do pavilhão sob os latidos de um cachorro, que fora treinado para atacar pessoas com roupas vermelhas, cor que as sentenciadas usam e por uma agente penitenciário armado com uma espingarda calibre 12. Embora as revistas nas sentenciadas sejam realizadas por agentes penitenciárias femininas, o “apoio” na segurança é realizado por agentes do sexo masculino, sendo um responsável pelo treinamento do cachorro e outro pela arma, ambos permanecem na entrada no pátio, não se aproximando das celas.
Cabe colocar que os modelos prisionais pensados no início do século XIX e muito bem descritos e analisados por Foucault34, embora apresente o mesmo eixo ordenador das prisões atuais no Brasil e especificamente em Minas Gerais, apresentam também grandes diferenças.
O modelo penitenciário mineiro, assim como o apresentado por Focault, também se baseia no isolamento e no trabalho. Porém, o isolamento se dá apenas em relação ao mundo exterior à penitenciária, pois todas as celas são conjuntas, quando não há superlotação, ou seja, na melhor das hipóteses, seis mulheres ocupam o mesmo espaço. As celas são organizadas da forma descrita acima, com pouco espaço para ser dividido
34 Foucault apresenta o modelo prisional europeu vigente no início do século XIX baseado em dois eixos:
1) Isolamento frente à sociedade, mas também entre os próprios punidos, uma vez que eles ficavam em celas individuais; 2) Trabalho compulsório em um momento inicial para que depois o próprio prisioneiro, adaptado a ele, passasse a reivindicá-lo (FOUCAULT, 1987).
entre as seis detentas. As refeições são entregues na própria cela e as presas podem sair para o banho de sol. Este é um momento destinado para que elas relacionem entre si. Além do banho de sol, elas saem para os atendimentos do corpo técnico e jurídico da Penitenciária, para a sala de aula e para o trabalho. O trabalho é facultativo e normalmente a demanda é muito superior a sua oferta, pois a grande maioria das presas gostaria de realizar alguma atividade que, segundo elas mesmas “ocupe a cabeça”.
Desta forma, as duas premissas básicas dos modelos penitenciários que buscam a correção do indivíduo acontecem, porém de forma inversa: O isolamento apenas com relação ao mundo exterior, fortalecendo assim, os laços entre aqueles que estão detidos, por conviverem juntos, dormirem juntos, comerem juntos, acabam por formar um grupo social daqueles que cometeram crimes de diferentes espécies e periculosidade, justamente o que era temido no século XIX. (FOUCAULT, 1987). Separam aqueles que representam perigo à sociedade e os colocam em único local, para que se relacionem apenas entre si, salvo as visitas uma vez por semana.
O trabalho também acontece, mas não como medida compulsória a princípio para que depois os próprios detentos anseiem por ele, mas ao contrário, muitos detentos anseiam por ele logo no início e apenas os mais bem-comportados, mais confiáveis, conseguem trabalhar, tornando-se uma espécie de prêmio: os incorrigíveis permanecem como inúteis em suas celas e aqueles que são considerados enquanto passíveis de ressocialização saem para o trabalho, que na maior parte dos casos, não é trocado por salário, mas apenas pela remissão contada a partir do seguinte cálculo, três dias trabalhados remetem a um dia a menos de punição.
Porém, durante o período em que estivemos presentes cotidianamente na penitenciária, foi possível observar que a remissão da pena, na maior parte dos casos, não acontece de forma correta e, quando a punição é pequena, às vezes sequer acontece. Ocorre que até que a contagem do tempo de trabalho seja realizada e avaliada pelo juiz, muitas vezes a presa já recebeu seu alvará de soltura, ou está para recebê-lo, desfrutando muito pouco do benefício. As sentenciadas que, de fato, conseguem usufruir deste direito são, normalmente, aquelas que cumprem uma pena mais extensa. Mas, mesmo sabendo que a remissão por trabalho e estudo não ocorre no tempo previsto em muitos casos, ainda assim, a maioria delas anseiam por trabalhar.
Os dias mais esperados na penitenciária são o sábado e domingo, pois são os dias de visita social. Em um fim de semana o piso inferior do pavilhão recebe visitas ao
sábado, enquanto o piso superior é visitado aos domingos. Na semana seguinte a situação se inverte e assim sucessivamente. Estas visitas são realizadas no pátio do pavilhão. As presas que recebem visitas são retiradas de suas celas e encaminhadas para o pátio, onde, posteriormente, estarão presentes também seus visitantes. Aquelas que não receberam visitas permanecem em suas celas. Nestes dias, os sorrisos e as lágrimas tomam conta da penitenciária. É comum, nas despedidas, presenciarmos muitos choros de crianças ao despedirem de suas mães presidiárias. Em um destes dias de visita, que coincidia com o dia das mães, uma menina de aproximadamente 6 (seis) anos correu em direção à pesquisadora, pulou em seu colo e, chorando, pediu para que sua mãe fosse embora com ela, como presente do dia das mães. Além de cenas emotivas no pátio, as lágrimas são comuns também nas celas, dentre aquelas que não receberam visitas. Algumas chegam até mesmo a sentirem-se mal ou apresentarem crises psicológicas, devido ao sentimento de abandono ou à preocupação, nos casos de aguardarem um visitante que não compareceu.
Outra modalidade de visitação é a visita íntima, conhecida pelas presidiárias enquanto suíte. Para terem direito à suíte com seus companheiros, é preciso que seja encaminhada à assistente social da penitenciária a certidão de casamento ou a certidão de nascimento de um filho em comum do casal. Caso o casal não possua filhos ou não tenha realizado o matrimônio, o que ocorre na maior parte das situações, é preciso que alguém de fora da unidade, normalmente o companheiro, ou, no caso de ambos encontrarem-se presos, um familiar ou amigo, envie uma declaração informando que o casal vivia em união estável, com assinatura de duas testemunhas. Tal declaração serve somente enquanto um protocolo a ser seguido, uma vez que tal união jamais é investigada e muitos casais formam-se no interior do próprio presídio, através de conhecidos em comum e trocas de cartas. Também é necessária a realização de exames de sangue do casal e, no caso da existência de alguma doença sexualmente transmissível em um dos parceiros, o outro assina um termo de responsabilidade, informando que está ciente de tal fato.
Uma vez resolvido a questão da documentação, a família da presidiária precisa enviar uma injeção anticoncepcional que lhe é mensalmente aplicada pelo enfermeiro da unidade e, após três meses de uso, a visita íntima é, finalmente, liberada. Dessa forma, não é facultativo à mulher presidiária engravidar ou não, sendo-lhe imposta a aplicação da injeção anticoncepcional. Assim, ela não pode decidir sobre seu próprio corpo e não
tem a possibilidade de engravidar, ou de fazer uso de outro método contraceptivo, caso assim deseje. Por outro lado, os homens reclusos que recebem visitas íntimas de suas companheiras não presidiárias possuem a possibilidade de serem pais durante suas prisões, uma vez que não lhes é imposto nenhum tipo de método contraceptivo e, obviamente, nem a sua companheira.
Em relação às mulheres que iniciam sua pena privativa de liberdade já grávida, não lhes é garantido nenhum tratamento diferenciado. O único atendimento que possuem é uma escolta mensal, que às vezes não ocorre, à consulta de pré-natal. Porém, em alguma situação de emergência que possam vivenciar, fica sujeitas à disponibilidade de se conseguir ou não uma escolta médica. Assim, devido à falta de estrutura, alimentação adequada, presença médica, é comum a ocorrência de abortos indesejados entre as presidiárias grávidas. Em relação aquelas que conseguem completar 8 (oito) meses de gestação, são encaminhadas à uma penitenciária localizada em Belo Horizonte, que possui maternidade e estrutura para permanência da criança junto à mãe por aproximadamente 6 (seis) meses. Muitas presidiárias sentem receio de realizar a transferência obrigatória, pois são separadas de seus familiares, que, na maior parte das vezes, não possuem condições de visitá-las em outra cidade, além da impossibilidade do pai conhecer o bebê, caso aquele também esteja preso. Dito isto, a falta de estrutura na penitenciária de Juiz de Fora para as presas que se tornam mães, acarreta em uma série de inseguranças e problemas por elas vivenciados.
Os encontros íntimos entre os casais ocorrem em espaços reservados para tal fim. Estes quartos existem em três dos quatro pavilhões e, na maior parte das vezes, a visita íntima ocorre no próprio pavilhão feminino, podendo acontecer, no máximo, duas vezes ao mês, durante o dia ou à noite. Maior parte destas suítes acontece entre casais heterossexuais. A primeira visita íntima homossexual da unidade ocorreu no ano de 2013 e trata-se de duas mulheres, uma presidiária e outra não. Antes disso, outras presidiárias lésbicas haviam tentado, sem sucesso, ter acesso a este direito.
Observamos na penitenciária estudada um número relevante de mulheres homossexuais. Algumas já reivindicavam esta orientação sexual e afetiva antes do aprisionamento, porém, outras, iniciaram suas experiências homossexuais no interior da prisão. As segundas afirmam que isto acontece uma vez que o ambiente do cárcere é muito hostil, o que faz com que elas aproximem-se umas das outras em busca de companheirismo e acabem sucumbindo aos envolvimentos amorosos. Quando casais de
mulheres presidiárias se formam em uma cela, existe represália por parte do corpo de funcionários e direção da penitenciária, que as separam e orientam às demais funcionárias que elas não retornem a viver na mesma cela. Além disto, é comum situações em que agentes penitenciárias e diretores envolvam-se nos relacionamentos, chamando atenção das sentenciadas sob um ponto de vista conservador em relação às suas posturas.
Outro elemento que chama atenção no dia a dia da penitenciária é a quantidade de mulheres que saem da cela para irem à sala de aula, que fica localizada dentro do próprio pavilhão. Trataremos disso no item que se segue.