3. Passando-se por senhora : sobre.identidade e projeto
3.4 Como uma irmã mais velha
99 Nesse sentido, Peixoto destaca que nos últimos anos, pelo fato de os padrões sociais estarem se tornando
menos censuráveis, é permitido às pessoas idosas viverem sua sexualidade de forma mais livre. No entanto, não podemos deixar de considerar que a liberdade é mais encontrada entre os idosos que participam de grupos de convivências, ou seja, que participam da ideologia da velhice positiva. A liberdade da sexualidade pode estar diretamente associada ao exercício de novas atividades, à construção de novos laços sociais,o que definitivamente não atinge todos os nossos velhos. Isso me faz pensar nos meus vizinhos - Seu Sid, Dona Doca e Seu Milton, personagens de um vídeo documentário intitulado No tempo da Carne Seca, produzido
Um dos objetivos propostos no meu projeto de pesquisa foi o de perceber como se davam às relações entre as travestis de mais idade e as mais jovens. Alguns trabalhos já haviam apontado a existência, mais especificamente entre as que fazem trottoir, de uma relação por vezes tensa e conflituosa, destacando, inclusive, a utilização de termos pejorativos como “bicha velha” pelas mais jovens quando se referiam às travestis velhas. Nesse sentido, a pesquisa de Silva pode nos oferecer um bom exemplo. Em um determinado momento de seu livro, este autor destaca que as mais jovens, várias vezes, se dirigiam às de mais idade em tom de deboche e chacota. Com isso em mente, pensei que seria interessante verificar qual a natureza dessas relações, acreditando ser possível também identificar o papel dessa travesti de mais idade dentro do seu grupo. Seria pertinente atribuir-lhes os mesmos papéis dos nossos velhos e velhas? Seria possível vê-las como avós, por exemplo? Compreendê-las como “mentoras”, “orientadoras” ou “conselheiras”? Logicamente que esse texto não tem intenção de prover de respostas conclusivas as minhas inquietações, apenas compartilhar com o leitor alguns indícios, alguns caminhos que, acredito, podem ser explorados em outras pesquisas no futuro.
Algumas das conclusões a que cheguei são baseadas nos relatos das minhas informantes, em conversas com as jovens travestis que participavam das reuniões da ONG e, logicamente, são frutos das minhas observações como pesquisadora. Não optei por fazer entrevistas da mesma espécie das que eu fiz com as minhas informantes por considerar, pelo menos naquele momento, não ser uma boa estratégia, pois acreditava que poderiam criar alguns constrangimentos entre elas e também poderiam repercutir nas minhas relações com as travestis mais velhas.
Das minhas informantes, Raquel e Laura são as que mantêm relações mais próximas com as travestis mais jovens. Pude perceber um pouco do caráter dessas relações em alguns momentos durante o trabalho de campo. Desse modo, faço uma breve referência a dois episódios como forma de ilustração.
Quando encontrei com Raquel pela segunda vez, ela estava, como já foi mencionado anteriormente, com um grupo de três pessoas, em frente ao Hotel Copacabana Palace, e entre as pessoas desse grupo estava uma travesti muito bonita, de cor morena,
por mim em parceria com André Marcon (NAVI/2003) - que vivem sua velhice no âmbito do lar e cerceados pelos poucos laços de sua juventude.
com cabelos cacheados na altura do ombro, muito alta, de apenas 18 anos de idade. Seus trajes eram, digamos, sumaríssimos – usava um sutiã azul meia-taça e um micro-short com motivos de onça. Enquanto caminhávamos pelas ruas de Copacabana, ela chamava a atenção de todos. Perdi a conta do número de vezes que ouvi as pessoas, enquanto se “acutuvelavam”, se perguntando se era mulher ou travesti. Recordo-me, inclusive, de uma moça que foi até ela e pediu que tirasse uma fotografia com o seu marido. Antes da saída do bloco, Raquel pediu (percebendo o sucesso que Nicole estava fazendo) que eu fotografasse Nicole. Raquel dirigia as poses, dizendo para a jovem virar o rosto para um lado, mexer nos cabelos, fazer cara sensual... afinal, as fotos seriam mostradas em Florianópolis.
O bloco saiu da Av Atlântica, onde se localiza o Copacabana Palace, e dirigiu-se até a Rua Constante Ramos – percorrendo uma distância de cinco quadras. Raquel, Magda, Nicole, um amigo gay de Raquel e eu íamos caminhando para nos encontrarmos com os foliões do bloco. Nicole ia um pouco a nossa frente, chamando a atenção de todos e sendo constantemente filmada e fotografada por homens, mulheres, (acredito que eram em sua maioria turistas) e casais curiosos, sendo sempre estimulada por Raquel e pela outra travesti que seguia à nossa frente, afinal, estava sendo a ‘sensação do bloco”. Tanto Raquel quanto a outra travesti divertiam-se muito com as reações das pessoas com relação à Nicole e ao seu comportamento. Sua desibinição, (no meio do bloco Nicole despiu a parte de cima do biquíni) seus gestos (acenava para as pessoas, jogava beijos, sorria o tempo todo), sua performance lembravam essas moças que concorrem aos muitos concursos de miss que acontecem em muitos estados brasileiros e no exterior (logicamente, era uma miss que primava pela ousadia). Ao mesmo tempo, as companheiras conversavam entre si ressaltando sua beleza, sua inocência e imaturidade devidas à pouca idade, o fato de não “ter cabeça” e o quanto isso poderia prejudicá-la no futuro, ou melhor, o quanto isso poderia representar um “não-futuro”, que significaria pegar AIDS e morrer cedo. Nós ficamos juntas até quase o término do desfile do bloco, pois num determinado, Nicole sumiu no meio da multidão. Durante praticamente todo o tempo em que esteve conosco, Nicole dedicava demonstrações de carinho a Raquel, abraçando-a e, em alguns momentos, referindo-se a ela como avó. Esse episódio serviu para alimentar algumas conversas na reunião do chá, na semana seguinte ao término do carnaval. O tema dessas conversas
ressaltou o quanto às travestis mais jovens de hoje, diferentemente da sua época, perdem-se com vícios e não procuram fazer outra coisa que não seja se prostituir.
Raquel conversa constantemente com as “meninas” e procura ter um bom relacionamento com elas, no entanto, o convívio é, a meu ver, extremamente circunscrito, acontece em ocasiões bem especificas, durante o chá, nas reuniões da ONG (a maioria das participantes são travestis bem jovens) durante o carnaval ou quando esbarram nas ruas da cidade (por duas ocasiões encontramos, por acaso, algumas jovens travestis que estavam indo trabalhar). Raquel faz questão de acentuar que não tem problemas com as mais jovens, não sofre preconceitos por parte delas, procura aconselhar e ajudar sempre que pode e por isso elas a admiram e a respeitam, mas não as quer na sua casa e não tem nenhuma amiga100 que não seja de sua geração. Portanto, nota-se que o relacionamento entre elas restringe-se ao mundo da rua101 e que há uma ruptura no que diz respeito à identificação. Apesar de fazerem parte de um mesmo universo, de pertencerem a um grupo, são estabelecidas fronteiras bem nítidas que nos informam sobre estilos e ritmos de vida bem diferenciados. Durante o tempo em que fiquei no camarim da Laura esperando pelo começo do show pude constatar o que ela já havia me dito em nossas conversas, ou seja, o fato de seu camarim ficar “cheio de travestis” e de travestis, bem jovens em sua maioria. Elas vinham em grupo ou sozinhas e às vezes com seus namorados. Em geral não eram pessoas de suas relações de amizade, apenas conhecidas de boate, da rua, de shows ou ‘amigas das amigas”. Mas todas entravam e saiam sem nenhum tipo de cerimônia. Enquanto Laura fazia seu lanche acomodada em uma das cadeiras do camarim, entravam travestis para conversar com ela, pedindo conselhos, orientações a respeito de shows (normalmente solicitando que as indicasse para algum dono de casa de espetáculo) ou simplesmente para dar um alô, um abraço e agradecer alguma coisa que ela tivesse feito. E todas eram recebidas com muita alegria e simpatia. Foi possível perceber claramente o carinho, o respeito e admiração que as meninas, de modo geral, nutrem por ela. Por outro lado, podemos dizer, que ser amiga da Laura e freqüentar seu camarim confere um certo “status”. Obviamente, não se pode deixar de considerar que o fato da Laura ser uma artista reconhecida pode fazer com que as
100 É interessante destacar que, em geral, elas fazem distinção entre as meninas que são consideradas colegas,
com quem as relações se limitam à esfera publica, e as amigas que podem freqüentar a casa.
101 A categoria rua indica basicamente o mundo com seus imprevistos, acidentes e paixões, ao passo que a
pessoas queiram se aproximar dela, já que manter boas relações com ela pode representar para as que fazem show, uma espécie de abrir portas. O mundo do show business, pelo que pude perceber, é muito fechado e hierarquizado, e para aquelas que não têm seu nome firmado na rede das casas de espetáculos é muito importante poder contar com o poder de barganha das travestis que trabalham há mais tempo nesse ramo. Aqui, nota-se um aspecto importante e que serve para refletir sobre as nuances desse universo tão rico e complexo: é unânime, entre as travestis com quem conversei e que pude observar, o respeito e a admiração por Laura, mas isto ocorre menos pelas suas perfomances artísticas102 do que por aquilo que ela representa, pelo seu papel frente ao grupo, embora critiquem suas idas ao cinema, por exemplo. Ela é respeitada por sua trajetória, por sua luta e por ser reconhecida socialmente. Seu papel de orientadora, de quem transmite experiência está, a meu ver, irremediavelmente vinculado ao sucesso do seu projeto (Silva, 1993; Velho,1999). Por outro lado, Laura, assim como Raquel, apesar de manter relações mais próximas e até certo ponto fraternais com as travestis mais jovens, não tem nenhum vínculo mais estreito com alguma delas. Seus verdadeiros amigos, quando não são aqueles que já se foram, são os de sua geração. Estar entre as jovens em determinados momentos corresponde ao modo como elas passam sua velhice, mesclando tempos de solidão e tempos de lazer. O lazer está na rua, em momentos de interação com seu meio e com a parcela mais jovem dele, e os tempos de lazer são os mais propícios para construírem suas imagens de velhas/jovens.
Gilda, por sua vez, também tem uma visão positiva da relação com as mais jovens. Segundo ela, é mais fácil encontrar respeito nas relações de caráter intergeracionais que ocorrem no universo travesti do que em outros segmentos da sociedade brasileira. Ela pensa que as meninas a vêem como um “ídolo”, como um modelo a ser seguido. Nota-se também no que diz respeito a Gilda que, apesar da ausência de laços de amizade mais íntimos entre elas e as mais jovens, estabelece-se uma relação de cordialidade quando se encontram em reuniões, festas, shows ou pelos arredores da Lapa. Com Gilda surge também o papel de orientadora, de conselheira.
102 Por vezes, tive a oportunidade de ouvir comentários entre elas sobre o show de Laura, classificado como
ultrapassado e não condizente com sua “idade”. Em seus shows, é comum Laura apresentar-se com os enormes seios de fora e as vezes mostrar as nádegas para o público. Apesar do seu excesso de peso, Laura não se sente intimidada em expor seu corpo, na verdade, penso que ela faz uma paródia do seu próprio corpo nos shows e, conseqüentemente, “afronta” os padrões estéticos do grupo.
No entanto, em relação a Helô e a Zeze, por exemplo, o papel de orientadora não é reconhecido e muito menos reivindicado. Elas vêem as travestis jovens, em sua maioria, como pessoas até certo ponto vazias, ou seja, pessoas que têm uma preocupação excessiva com a aparência, que são usuárias compulsivas de drogas e álcool e que, quando são prostitutas (que ainda é a grande maioria), não se interessam em procurar outro campo de trabalho. Elas ressaltam também uma modificação no que diz respeito à natureza das relações entre elas, ou seja, no passado, as relações eram mais amigáveis e sinceras, o que também foi salientado por Raquel em uma de nossas conversas.
Para finalizar, retomo a questão do preconceito entre elas, tão ressaltada em outros estudos sobre travestis (Silva, 1993; Oliveira, 1997). Num primeiro momento, as opiniões são consensuais: elas nunca enfrentaram problemas com discriminação por parte das travestis mais jovens. Até mesmo Helô, que tem um discurso mais ácido, não dá destaque ao tema. Por outro lado, muitas delas admitem terem presenciado fatos ultrajantes ou “ouvido falar” de alguém que sofreu algum tipo de chacota. Portanto, o preconceito existe, mas ele recai sobre determinado travesti. Penso que sim, as minhas informantes são, sem receio de pecar pelo exagero, um pequeno grupo privilegiado em contraste com um expressivo contingente de travestis que vivem em condições muito precárias. São travestis que possuem um certo status devido a uma combinação de fatores: o fato de terem terminado os estudos, freqüentado uma universidade (como no caso da Laura, por exemplo), de serem pessoas famosas, de transitarem em diferentes segmentos sociais e de possuírem bens materiais. Assim, a minha hipótese é a de que se elas não se confrontaram com as piadas e as chacotas, isso se deve em grande parte ao status que elas possuem com relação ao meio. Freqüentemente pude constatar o uso do termo “velha” como forma de implicância ou mesmo com intenção de ofender, porque chamar a outra de “velha”, por vezes, torna-se uma ofensa.