A LOUCURA EM MANCHETE
2.5. Como mortos e interditos
As representações da loucura encontradas no Diário da Bahia para além da figura do suicida, do assassino, como problema de ordem pública, como representação no imaginário da figura do castigo, os loucos também ocupavam os espaços necrológicos e judiciais. A morte dos loucos era, senão manchete, pelo menos importante o suficiente para ocuparem algumas pequenas notas nos jornais no início do século XX. Grande parte das notícias concentrava-se nas mortes ocorridas dentro do Asilo São João de Deus. Especialmente, no que se refere às mortes que assolaram o asilo, em 1903, causadas por beribéri, “faleceu anteontem, no asilo São João de Deus, o alienado Laurindo Teixeira de Miranda, com 32 anos de idade.”56
O mesmo destino foi reservado para Antonia da Conceição, “que contava 20 anos de idade e foi sepultada no cemitério do Campo Santo.”57 Da mesma forma foi o caso do interno de “30 anos de idade, Damasio de Tal, que foi sepultado no cemitério do Campo Santo.”58
O beribéri parece ter encontrado na massa de famintos, desnutridos e mal cuidados alienados suas vítimas mais frágeis e fáceis. Causada por uma deficiência de vitamina B1 no organismo o beribéri é uma doença provocada exclusivamente por uma dieta pobre em nutrientes. Expostos às privações mais básicas da sobrevivência humana os alienados que entravam no asilo em busca de uma cura para os seus males psíquicos viam seu estado de saúde agravar consideravelmente.
O próprio Diário da Bahia59 em matéria publicada no dia 18 de setembro de 1904 faz uma extensa matéria sobre uma reunião feita entre o Governador à época, José Marcelino de Souza, e as principais referências médicas do Estado, dentre eles Nina Rodrigues, Tillemont Fontes, Pacífico Pereira, Anísio Circundes sendo que estes três últimos foram diretores do
56 BPEBA, Diário da Bahia 4 de setembro de 1902, p.1. 57 BPEBA, Diário da Bahia 4 de junho de 1903, p.1. 58 BPEBA, Diário da Bahia 12 de agosto de 1903, p.3. 59
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Asilo São João de Deus, a respeito do estado precário em que se encontrava o asilo no que se refere tanto às suas instalações, como nos descuidos praticado nos indivíduos que ali viviam e que resultaram na epidemia de beribéri.
Segundo a nota Nina Rodrigues durante a reunião começou a leitura de uma matéria sua publicada no Jornal de Notícias que resumia as providências as quais pensava que deveriam ser feitas para que fossem sanados os problemas do beribéri. Para Nina Rodrigues a superlotação do asilo não poderia ser colocada como única responsável pelo problema. Dentre os fatores elencados por ele estão a inexistência de uma higiene eficiente tanto nas instalações como nos doentes, escassez de água, uma alimentação inadaptada, tratamentos médicos insuficientes. Segundo Nina Rodrigues:
O meio que naturalmente se oferece para o tratamento dos doentes é a pronta remoção temporária dos alienados para outro edifício. A modificação essencial da alimentação para o tipo de alimentação racional dos beribéricos, o estabelecimento de um tratamento terapêutico energético.60
Para além dessas medidas que demandariam mais tempo para serem aplicadas Nina Rodrigues sugere a aplicação de métodos como a “lavagem de sangue” que, segundo experiência no Hospício Nacional de Alienados no Rio de Janeiro e no Juqery em São Paulo, deu excelentes resultados. Trazendo este método para ser implantado nos pacientes acometidos pelo beribéri em Salvador sua experiência não alcançou o mesmo êxito com o paciente vindo a falecer. Outro método tentado, segundo suas próprias palavras “um arremedo”, foi o do dr. Aguyar que consistia em empregar sangrias locais. Segundo sua análise os resultados foram superiores ao que ele esperava na “remoção de graves acidentes asfixicos”. Conclui que:
Não pretendo que, com estas medidas, se possam salvar todos os alienados, já atacados de beribéri. Em alguns a infecção já vai tão adiantada, que, mesmo removidos, provavelmente sucumbirão.61
E sucumbiram mesmo. Viraram notas necrológicas nos jornais. O escândalo das mortes por beribéri no asilo veio para expor uma realidade de carestia e abandono. Os surtos da doença no asilo situam-se entre os anos de 1877 até 1904, sendo que os anos entre 18882-84 registram os maiores índices de mortalidade. É importante lembrar que a descoberta do beribéri como sendo uma doença causada pela deficiência alimentar só seria feita em 1897. Nos anos que possuem os maiores registros no Asilo São João de Deus ainda não se sabia efetivamente a
60 BPEBA, Diário da Bahia 18 de setembro de 1904, p.1. 61
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sua causa. Ela era uma das muitas doenças mortais, com causas e tratamentos desconhecidos pela medicina, que só faziam agravar o precário estado de saúde daqueles que entravam no asilo. Administrar a morte fazia parte da rotina. Morria-se por outras causas também. Foi o caso de Maria da Conceição da Glória que faleceu “anteontem, vítima de congestão cerebral”.62
João Batista de Novaes não escapou da morte entre as grades manicomiais, “vítima de enterite-aguda, no Asilo de S. João de Deus, (...) com 25 anos de idade.”63 Esta também foi a causa da morte de Josepha Leonídia dos Santos.64
A diarréia também fazia suas vítimas fatais, como “Maria Candida de Oliveira, com 40 anos, natural deste Estado, vítima de disenteria, residente no Hospício de São João de Deus.”65
Inflamação do intestino causada por ingestão de comidas e bebidas contaminadas a enterite vem juntar-se à beribéri e á diarréia como uma doença de causa alimentar. Mais do que uma questão biológica o alimento estava inserido na perspectiva de poder disciplinador dentro da estrutura asilar.
A regulamentação e a cobrança de uma rotina alimentar dentro do asilo era parte importante para o pensamento alienista, com base no tratamento moral, que através da rígida disciplina imposta sobre os afazeres cotidianos dos internos esperava reestruturar e restabelecer a ordem interna perdida na experiência do enlouquecimento. Como alerta Venétia Rios (2006):
A disciplina alimentar, juntamente com o lazer e o trabalho são importantes no tratamento oferecido nos asilos; e mais que isso, a combinação e o equilíbrio dos alimentos acompanham o pensamento médico na crença de que o rigor nos hábitos, em todos eles (...), reconduziriam o alienado à normalidade esperada (...). (Rios, 2006:166)
Morria-se de várias doenças e de todas as coisas quando se entrava no asilo. As pequenas notas necrológicas que davam conta dos seus últimos momentos para o público eram reservadas para aqueles com nome e sobrenome, muitos com um aviso de sepultamento que poderia indicar que seus laços sociais ainda não haviam sido completamente rompidos. Era uma forma de fazer-se presente na vida ainda que morto. Mas podemos pensar também em quantos indigentes, aqueles a quem as famílias, os amigos, os companheiros de trabalho
62 BPEBA, Diário da Bahia, 2 de outubro de 1902, p.1 63 BPEBA, Diário da Bahia, 23 de dezembro de 1902, p.1 64 BPEBA, Diário da Bahia, 21 de junho de 1903, p.2. 65
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abandonaram para sempre, tiveram os mesmos sofrimentos e se quer foram lembrados em seus últimos momentos.
A quem dar notícias? O jornal e suas pequenas notas eram de certa forma o último vínculo com o mundo. Talvez fosse a única forma de despertarem o mínimo de compaixão por suas infelizes existências, de serem vistos como reais vítimas do descaso e do abandono e não apenas como assassinos, suicidas, desordeiros ou ameaçadores. Talvez a morte fosse a redenção para aqueles a quem a vida foi por demais madrasta. Por isso as pequenas notas, quase sem destaques, quase mudas que refletiam o quanto era difícil para o olhar público enxergá-los para além dos estigmas.
Os loucos também eram interditos e o olhar da imprensa não deixava que esta parte do mundo privado escapasse à apreciação pública.
Interdito
O dr. Leovigildo de Carvalho, juiz da vara de órfãos desta capital, julgou o Sr. Francisco de Mesquita Chaves interdito e incapaz para reger sua pessoa e administrar seus bens e bem assim fazer quaisquer contratos a respeito deles, sendo cominada a pena de nulidade aos que porventura se façam.66
Passaremos nas páginas impressas para as páginas judiciais.
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112 CAPÍTULO III