2 O CONCEITO DE ‘MUNDO’ NA ONTOLOGIA FUNDAMENTAL
2.3 O SER-AÍ COMO SER-NO-MUNDO
2.3.1 O ser-em e o ser-aí como ser-no-mundo
Não é nenhum segredo – principalmente se se acompanhou a análise até então realizada – que o conceito de mundo assume um papel completamente novo a partir do desenvolvimento da analítica existencial: assume, exatamente, uma “posição” existencial dentro da analítica. Com ‘existência’, ‘existencial’ e ‘existencialidade’ não se quer dizer a mera presentidade do ente, tal qual já se deixou claro em 1.1; antes, pretende-se com tais termos uma reinvenção conceitual, na qual ‘existência’ passa a valer como a relação que o ser-aí mantém
74 Original: “Dasein, in so far as it is, has always submitted itself already to a ‘world’ which it encounters, and
this submission belongs essentially to its Being”.
75 Original: “as we have already seen, the roles and goals available to Dasein are not first experienced as yours
or mine, rather, as public possibilities provided by the culture”.
76 Original: “Dasein existiert, es ist in der Weise des In-der-Welt-Seins. [...] als faktisches existiert, d. h. in einer
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para com o seu ser. Daí Heidegger (2006, p. 53) afirmar sem muitos rodeios que o ser-aí é o ente que existe; ente que tem para si, por sua vez, o caráter de ser-sempre-meu (Jemeinigkeit), cuja propriedade (Eigentlichkeit) ou impropriedade (Uneigentlichkeit) se dão como possibilidades constituintes. Acontece que esse ente chamado ser-aí não aparece simplesmente isolado de todo o seu onde-significativo – ele é, na verdade, o seu próprio onde-significativo, enquanto uma espécie de estrutura, ou, mais propriamente, uma constituição de ser (Seinsverfassung)77 a que Heidegger dá o nome de ser-no-mundo – como já foi notado anteriormente, ao se falar da compreensão de mundo própria do ser-aí. Assim, ao apresentar a primeira seção de SZ, Heidegger (2006, p. 41) esclarece que o ser-no-mundo: “esse ‘a priori’ da interpretação do ser-aí não é uma determinação complementar, senão uma estrutura originária e permanentemente total”78. É uma estrutura originária e permanentemente total: ou seja, não há que se falar em partes constitutivas, senão em um todo fenomenal. É a priori, i.e., ele já é sempre.79 O que se pretende apresentar a seguir nada mais é, destarte, do que o “quem” (Wer) que é no modo constitutivo de ser em (in) um mundo (Welt), para o qual o seu horizonte de possibilidade se abre de antemão no fenômeno estrutural-constitutivo “ser-no-mundo”.
Ora, ainda no § 9º de SZ, Heidegger (2006, p. 43) havia dito que “esse ente não tem e nunca pode ter o modo de ser dos entes apenas presentes-à-mão dentro do mundo”80. Aqui há uma distinção ontológica quanto ao modo de ser de um determinado ente. Isso não implica dizer, entretanto, que o ser humano não possa ser “apresentado” ao modo dos entes meramente presentes-à-mão dentro do mundo, senão que ao ser-aí essa possibilidade é, existencialmente, fechada, conquanto ser-aí não é o mesmo que a apresentação quantitativa da coisa, do ob-jeto, do indivíduo exemplificativo da espécie humana. O factum de que o ser-aí é o ente que em seu ser é a sua possibilidade (existência) indica o modo pelo qual esse ente se dá. Acontece que esse termo, ‘ser-aí’, é utilizado justamente para evitar interpretações de cunho substancialistas, i.e., para que não fosse possível confundir o que se quer dizer com o uso da palavra ‘existência’,
77 Para deixar bem claro, quando Heidegger (2006) afirma isso, ele o faz de uma forma bastante peculiar. Em
primeiro lugar ele lança mão da figura (quase kantiana) do a priori; além do mais, para remeter-se ao que ele nomeia “ser-no-mundo”, Heidegger (2006, p. 53) faz menção aos dois modos de ser (propriamente e impropriamente), os quais já foram abordados como tendo uma “condição de possibilidade” (Bedingung der
Möglichkeit) – o que, por seu turno, remete mais uma vez a Kant. Não é para menos que comentadores como
Crowell e Malpas (2007) o vinculam a tradição de filosofia (ou mais especificamente, fenomenologia) transcendental, notando certa similitude entre os propósitos transcendentais kantianos, husserlianos e heideggerianos.
78 Original: “Dises ‘Apriori’ der Daseinsauslegung ist keine zusammengestückte Bestimmtheit, sondern eine
ursprünglich und ständig ganze Struktur”.
79 Não é intuito deste trabalho apresentar em pormenores o sentido do a priori heideggeriano. Sendo assim, basta
o que foi dito na nota de n. 77.
36 ficando claro, outrossim, que para outros termos como ‘ser humano’, ‘humano’, ‘homem’, “animal racional”, dentre tantos outros é possíveis, a interpretação substancial é, inclusive, viável. Tal interpretação, entretanto, aponta para a “falta” do ser-aí – é um modo deficiente: vê- se, em qualquer uma dessas interpretações, um mero quantum, uma quantidade dada de coisas. Assim, onticamente, o ser humano pode ser visto como um objeto dentro de um mundo formado por partes integrantes de uma totalidade – a velha discussão do Parmênides de Platão (2005). E do mesmo modo que se faz para o que habitualmente se chama de gênero ou espécie humana, tende-se a expandir esse modo continente, partitário, ao ser-aí; ao menos é isso o que Heidegger (2006, p. 53-54) escreve já no § 12 de SZ: “O que quer dizer ser-em? Ao ser-em, nós acrescentamos, antes de tudo, a expressão ‘no mundo’ e somos inclinados a compreender esse ser-em como ‘ser dentro de...’”.81
Mas a novidade apresentada por Heidegger em SZ é justamente que para o ser-aí, esse tipo de interpretação não vale; existe algo como um abismo ontológico entre o ser-aí e os demais entes, não por se tratarem de diferentes substantiae, senão por que ao ser-aí é permitido diferentes modos de acesso, sendo possível, inclusive, que a ele seja dada a possibilidade de se ver como uma mera substantia dentre tantas outras “dentro de” um espaço quantificável em termos de grandezas. Mas tirando o uso estatístico e as atuais formas de consumo e de pesquisa empírica por método quantitativo, ou, ainda, para determinados fins práticos como a contabilização de votos válidos ou a indicação de presença em atas de compromissos etc., esse uso matematizado não impera (não é originário) no ser-aí. Mesmo quando ele anda na rua ou vai ao mercado fazer compras, o ser-aí assume uma postura prática para consigo – algo que uma pedra ou, em certa medida, um animal que não ser-aí não podem fazer. Esse espaço quantitativo é um modo de ser do ser-aí, cuja espacialidade meramente dada é advinda, entretanto, do ser-em e, por conseguinte, do ser-no-mundo. Para ser mais pontual, não é que, por não estar nessa relação de pertencimento espacialmente continente, o ser-aí não se encontre em uma relação espacial, porém, por ser no modo de ser-no-mundo, o ser-aí tem sua própria espacialidade, seu próprio ser-no-espaço (Im-Raum-sein), que é, por sua vez, fundamentado no fenômeno ser-no-mundo (HEIDEGGER, 2006, p. 56).
Convém lembrar, ainda, que a tradição filosófica, ao valorar o mundo como o espaço físico, a extensão real, por execelência, deixou como legado a ideia de que o problema do mundo é resolvido pela res cogitans (a coisa pensante). Isso vai ainda mais além quando, no Idealismo, a noção de mundo passa a ser determinada como um produto da efetividade do
81 Original: “Was besagt In-Sein? Den Ausdruck ergänzen wir zunächst zu In-Sein ‘in der Welt’ und sind geneigt,
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pensamento, fazendo com que o sujeito do conhecimento seja o fundamento da representação e, porque não, da substancialidade do mundo externo. Isso é uma coisa que foi progressivamente desenvolvida a partir do cogito cartesiano, do cogitare. Para Heidegger (2006, p. 45-46): “Descartes [...] investigou o cogitare do ego – em certos limites. Por outro lado, ele deixa o sum completamente indiscutido, embora ele seja posto de modo tão originário quanto o cogito. A analítica coloca a questão ontológica pelo ser do sum”.82 É por questionar o ser do sum, e não se limitar ao cogitare, que Heidegger irá propor um novo passo de investigação, cuja estrutura totalizante fundamental seja o modo pelo qual o ser-aí (que pensa, questiona, age etc.) se dê, se relacione e vá ao encontro de outros entes: o ser-no-mundo. Stein (2014, p. 25) coloca isso de um modo bastante direto ao dizer que “Heidegger procura pensar o ‘sum’ do ‘cogito’ e, ao criticar a separação da ‘mens’ e da ‘res’, a ‘res corporea’, ele afirmará que o ‘mundo’ é o correlato do ‘sum’; por isso, ser-no-mundo”. Ser é ser em um mundo, sendo que o mundo não é mais a estrutura para si essente, substancialmente diferente e ontologicamente unitária e independente, mundo é um caráter do ser-aí que, enquanto ser-em é-em-um-mundo. Mas qual o modo pelo qual o ser-aí se abre, antes de tudo e na maioria das vezes?