Capítulo 3: A desterritorialização do corpo ou o Corpo sem Órgãos
3.6. Como o desejo é concebido por Deleuze e Guattar
Para Deleuze e Guattari o desejo é produção e o CsO é uma conexão de desejos, conjunção de fluxos, agenciamentos: “Você terá construído sua pequena máquina
privada, pronta, segundo as circunstâncias para ramificar-se em outras máquinas coletivas.” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol. 4, p. 27)
O desejo não necessita de um prazer para preenchê-lo. O desejo não deve ser visto como gênese, mas como processo. O desejo deve ser enxergado como produtor do real: “Se o desejo produz, ele produz real. Se o desejo é produtor, ele só pode sê-lo na realidade, e de realidade.” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 43)
Enquanto as concepções psicanalíticas e religiosas enxergavam o desejo como falta: “Em suma, quando se reduz a produção desejante a uma produção de fantasma, contentamo-nos em tirar todas as consequências do princípio idealista que define o desejo como uma falta...” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 43); Deleuze e Guattari enxergam o desejo como produção, como processo, processo que excede as categorias ideais ou processo de produção em que não há falta: “Nada falta ao desejo, não lhe falta o seu objeto. É o sujeito sobretudo, que falta ao desejo, ou é ao desejo que falta sujeito fixo; só há sujeito fixo pela repressão” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 43)
Dessa forma, é necessário desfazer-se do Eu para se entender o desejo, já que ele não se encontra em uma origem, não é alguma coisa ou alguém, é acontecimento, também não é subjetividade, antes é hecceidade, ou seja, individuação sem sujeito: “Não é o desejo que exprime uma falta molar no sujeito; é a organização molar que destitui o desejo do seu ser objetivo.” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 44)
O narrador conhece o desejo verdadeiro, produtor, o desejo provocado pelos encontros:
Quando me aproximo da carne de Rosario, brota de mim uma tensão que, mais que chamamento do desejo, é irreprimível premência de um cio primordial: tensão do arco armado, entesado, que, logo depois de disparar a flecha, volta ao descanso da forma recobrada. Sua mulher está perto. Chamo- a e atende. Não estou aqui para pensar. Não devo pensar. Antes de tudo sentir e ver. E quando de ver se passa a olhar, acendem-se raras luzes e tudo adquire uma voz. (CARPENTIER, 2009, p. 227)
Mais do que outros seres, os artistas estão mais próximos do desejo deleuze- guattariano, do desejo que não é falta, não é origem, mas hecceidade, eles sabem que o desejo potencializa a vida: “Os revolucionários, os artistas e os videntes se contentam em ser objetivos, tão somente objetivos: sabem que o desejo abraça a vida com uma potência produtora e a reproduz de uma maneira tanto mais intensa quanto menos necessidade ele tem.” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 44)
O artista também entende que o desejo é conexão de máquinas, o artista integra em sua arte objetos partidos, estragados, colocando-os no regime das máquinas desejantes, o desarranjo faz parte de seu funcionamento, mina as máquinas técnicas com máquinas desejantes: “Mais ainda: a própria obra de arte é uma máquina desejante. O artista acumula o seu tesouro para uma explosão próxima, razão pela qual ele acha que as destruições, na verdade, não advém com suficiente rapidez.” (DELEUZE e GUATTARI, O anti-Édipo, 2011, p. 50)
Enquanto no desejo psicanalítico tudo é resumido em um plano de transcendência, e por esse motivo o inconsciente continua aprisionado à molaridade, à interpretação, à representação e à subjetividade, já o desejo na concepção de Deleuze e Guattari é dado no plano de consistência ou de imanência, no qual é percebido à medida que é construído, desse modo, a experimentação substitui a interpretação, o inconsciente devém molecular e não mais figurativo ou simbólico, é dado nas micropercepções, o desejo investe o campo perceptível para descobrir o imperceptível como objeto percebido do desejo:
(...) a experimentação substitui a interpretação; o inconsciente devindo molecular, não figurativo e não simbólico, é dado enquanto tal às micropercepções; o desejo investe diretamente o campo perceptível onde o imperceptível aparece como objeto percebido do próprio desejo, ‘o não- figurativo do desejo’ (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol. 4, pp. 82-83)
Portanto, podemos afirmar que dentro da concepção de desejo dos filósofos o inconsciente não pode mais ser visto como um plano de organização transcendente, mas como um processo do plano de consistência imanente, sendo permanentemente construído. O Inconsciente não deve ser reencontrado e sim feito: “Não há mais uma máquina dual consciência-inconsciente, porque o inconsciente está, ou melhor, é produzido aí onde a consciência é levada pelo plano” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol. 4, p. 83)
O CsO é desejo e ele opera linhas de fuga, desestratificações, bordas de desterritorializações que percorrem os estratos para desfazê-los, desorganizam os órgãos, os funcionamentos dos organismos, transformam o inconsciente em um meio de experimentação, destroem as identidades fixadas, são abertos espaços para a criação de novas maneiras de viver, novas conexões são arranjadas, agenciamentos de espécies diferentes. O desejo é processo produtivo e não é guiado por finalidades:
O desejo vai até aí: às vezes desejar seu próprio aniquilamento, às vezes desejar aquilo que tem o poder de aniquilar. Desejo de dinheiro, desejo de exército, de polícia e de Estado, desejo-fascista, inclusive o fascismo é
desejo. Há desejo toda vez que há constituição de um CsO numa relação ou em outra. (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol. 4, pp. 82-83)
O desejo é amoral, por isso devemos saber se seremos capazes de separar o CsO de seus duplos, corpos vazios, corpos cancerosos, totalitários e fascistas. A prova do desejo é não denunciar os falsos desejos, mas diferenciar aqueles que se tornarão estratos ou desestratificação violenta e o que é capaz de construir um plano de consistência: “O plano de consistência não é simplesmente o que é construído por todos os CsO. Há os que ele rejeita, é ele que faz a escolha, com a máquina abstrata que o traça.” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, p. 32)
Para que não triunfe os duplos corpos esvaziados sobre o verdadeiro CsO, tudo deve passar pela máquina abstrata capaz de cobri-los e traçá-los, de agenciamentos que se ramifiquem no desejo, que assumam os desejos e suas conexões contínuas: “Senão os CsO do plano permanecerão separados em seu gênero, marginalizados, reduzidos aos meios disponíveis, enquanto triunfarão sobre ‘o outro plano’ os duplos cancerosos ou esvaziados.” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, p. 33)
Precisamos estar atentos, pois criar um corpo sem órgãos, como vimos, implica muitos riscos, um deles é o agenciamento desejoso, já que ele pode proliferar estratos ou desestratificar de forma rude. O CsO é um conjunto de práticas, e essas práticas envolvem o desejo, ou seja, um campo de experimentação em meio a agenciamentos de desejo, por vezes, o desejo pode nos lançar para conectividades suspeitas, imprudentes.