6 DISCUSSÃO
6.2 Como ocorre a interação social nos playgrounds
As características da criança, os papéis e as atividades diárias que ela desenvolve na escola devem ser consideradas para a compreensão do desenvolvimento infantil. A participação ativa em interação progressivamente mais complexa, recíproca com pessoas, objetos e símbolos no ambiente imediato foi observado através dos registros de padrões de interação social e das atividades estabelecidas nas escolas.
O playground representa um espaço dentro da instituição escolar onde as relações possuem uma base bastante regular, devido a constancia na estruturação do espaço, aos equipamentos fixos e demais característica físicas. Os padrões de interação social (solitária, paralela e associativa) ocorrem nessas escolas em períodos estendidos de tempo, todos os dias, em pelo menos um turno do dia. Os padrões duradouros das relações criança-criança através dos seus objetos convidativos, que atraem ou não a atenção da criança para sua exploração, manipulação, elaboração e imaginação que desenvolvem vários tipos de brincadeiras (faz-de-conta, construtiva, jogos de regras, etc) funcionam como um motor para o desenvolvimento destas crianças.
Nos equipamentos mais ocupados em ambos os contextos ocorreu o predomínio da Interação Associativa em forma de Díade. Apesar dos balanços (Duplo e de Pneus) serem para uso individual, as crianças raramente o utilizavam sem parceria. Mesmo individualmente, seguindo as normas de segurança para o uso do brinquedo, a criança mostrava certa interação com o colega ao lado, que estava no outro balanço, ou ainda, a interação se dava quando empurrava ou era empurrado por alguém. No balanço de pneus a interação associativa foi mais evidente na Creche. Apesar das normas técnicas recomendarem o uso individual do balanço, o balanço de pneus constantemente era utilizado por duas
crianças sentadas juntas. Da mesma forma, equipamentos que exigem uma interação grupal para possibilitarem a brincadeira registraram um maior número de interações associativas em ambos os contextos, como é o caso da Gangorra (principalmente Díades), do Carrossel (tríades ou políades) e do Cavalinho Duplo (em forma de díades), assim como nos equipamentos de desafio (Trilha de pneus e Túnel). Podemos inferir, portanto, que para além do objeto físico (atividade proposta por ele), parece haver uma disposição da criança em construir a experiência lúdica num ambiente social (caracterizada pelo envolvimento de parceiros na brincadeira) (A. M. A. Carvalho & Carvalho, 1990; Thomson, 2005).
Sager et al. (2003) verificaram que o pátio grande possibilita uma maior variedade de interações sociais em seu estudo. Entretanto nesta pesquisa, apesar do espaço pequeno (Creche) obrigar uma aproximação física maior entre as crianças, o tamanho parece não influenciar nos padrões de parceria que ali ocorrem, pois também obteve-se, em ambos os contextos, uma considerável freqüência da Não Interação paralela. Um exemplo ocorreu no equipamento de Casinha de bonecas no Contexto 1, que apesar de aparentemente estimular a Interação associativa, quando desprovida de utensílios domésticos por exemplo, parece não promover a brincadeira de família, dessa forma ela obteve também um elevado número de Interações paralelas na Creche. Ou seja, apesar de estarem no mesmo espaço (dentro da casinha) as crianças não se comunicavam verbalmente entre si, estavam próximas no espaço (menos de um metro de distância), mas não havia indícios de que estavam brincando juntas ou do mesmo tema. Segundo Gump (1978) e Fedrizzi (2002), a alta densidade populacional do espaço parece não ser significativamente determinante no comportamento de interação das crianças. Outros fatores, como as características físicas dos equipamentos e as características da pessoa (idade e gênero) podem estar melhor relacionados. Lordelo e Carvalho (2006) identificaram, por exemplo, que grupos maiores de criança, como é o caso da Creche, tendem a formar associações menores. Ou seja, a prevalência da Díade na Creche pode estar relacionada com o grande número de crianças.
Apesar de ter ocorrido Tríades e Políades na Creche, a freqüência foi baixa, e a total ausência dos jogos de regras neste estudo também parece aferir que a disposição dos equipamentos, ou melhor ainda, a quantidade tanto de equipamentos quanto de crianças e a falta de participação do adulto, parecem explicar melhor a dificuldade em se organizar grupos maiores para as brincadeiras conjuntas. Lordelo e Carvalho (2006) identificaram também que a interferência do professor
nas atividades foram determinantes para a formação de agrupamentos maiores e para a diminuição da atividade de faz-de-conta entre as crianças.
Com relação aos tipos de brincadeiras e atividades, em ambos os contextos pesquisados, verificamos o predomínio da brincadeira de faz- de-conta e construtiva. Concluímos, como já anteriormente mencionado, que a atividade proposta pelo equipamento (como escorregar, balançar, pendurar-se) revestiu-se dos jogos simbólicos e da interação social principalmente nos equipamentos mais contemporâneos como na Casinha de bonecas, na Caixa de Areia e nos Bombeiros (Contexto 1), na Casa do Tarzan, no Cavalinho Duplo e na Caixa de Areia (Contexto 2). Os espaços de ambos os contextos propiciaram através da oferta de areia, água, vegetação, bem como, utensílios como pás e potes, e outros materiais versáteis (pano, papelão, etc), atividades diversificadas, principalmente de faz-de-conta. O que corrobora com os dados que mostram que quanto mais flexíveis forem os espaços maior diversidade no seu uso eles promoveram (Gilmartín, 2002; Pol & Morales, 1991; Thomson, 2005).
Entretanto foi perceptível que as atividades no playground na maioria das vezes são sempre as mesmas e feitas pelas mesmas crianças, o que nos faz questionar sobre o planejamento para a existência de novas vivências, constantemente projetadas para a sala de aula, também para o tempo de uso do playground. Nos parece que é freqüente a falta de planejamento de atividades interessantes, a inexistência de rearranjo dos espaços lúdicos abertos e a oferta de lazer e diversão a todas as crianças.
Por fim, a presença de brincadeiras que envolvem movimentos físicos amplos, mais predominante no Contexto 2 e quase ausente no Contexto 1, indica que as dimensões restritas (menos de 7 m2/cr) ou generosas (mais de 20 m2/cr) dos espaços os caracteriza como possibilitadores ou não, das brincadeiras fisicamente ativas, como as de jogos de regras com bola (ausentes no Contexto 1 mas presentes no Contexto 2). Portanto, o tamanho do espaço e seus elementos naturais não bastam para determinar se um espaço será bom ou não para os seus usuários, pois conforme Gilmartín (2002), bom é aquele em que as crianças inventam mais atividades e selecionam maior número de lugares para levar a cabo seus objetivos. Mas o tamanho do espaço e seu desenho podem dar previsibilidade para algumas brincadeiras e não para outras, cabe aos professores avaliarem se essa previsibilidade está condizente com os seus objetivos pedagógicos e as necessidades das crianças.