• Nenhum resultado encontrado

Os acervos chegam às instituições de guarda de forma distintas, carregados de historicidade e de discursos que lhes são impregnados, mediadores de memórias, frutos de ações furtivas ou como materialidades esquecidas que voltam à tona. Na Museologia, a aquisição de um acervo por um museu ou instituição de guarda pode ocorrer através de: coleta (de campo); compra, permuta (troca), doação e legado. Abaixo, recorremos ao glossário do livro Museu: Aquisição/Documentação de Fernanda de Camargo e Almeida Moro, a mesma define as formas de aquisição:

Coleta – recolhimento de objetos ou espécimes com a finalidade de estudo e preservação (CAMARGO-MORO, 1986, p. 237).

Coleta de campo – forma de aquisição oriunda de um ato de coletar vinculado a um trabalho de campo. Pode ser arqueológica, paleontológica, geológica, histórica, etc (CAMARGO-MORO, 1986, p. 237).

Compra – ato de adquirir um objeto ou espécimen mediante pagamento (CAMARGO-MORO, 1986, p. 237).

Permuta – aquisição do acervo através da troca (CAMARGO-MORO, 1986, p. 241).

Doação – acervo adquirido através de dádiva (CAMARGO-MORO, 1986, p.

238).

Legado – acervo adquirido através de dádiva de uma pessoa morta, deixado por testamento (CAMARGO-MORO, 1986, p. 240).

No caso dos acervos arqueológicos, a maior parte dos acervos gerados é fruto da coleta de campo. Ou seja, é um acervo oriundo do processo de pesquisa e de intervenção do profissional de arqueologia. Este acervo arqueológico inclui as peças exumadas, os diários de campo, as fotografias e desenhos, portanto, todas as informações registradas do sítio arqueológico e da cultura material coletada de forma científica.

Atualmente, o Brasil como a maioria dos países ocidentais que possuem legislação de proteção ao patrimônio arqueológico, têm produzido pesquisa no âmbito da Arqueologia Preventiva. Assim, podemos dizer que a geração dos acervos arqueológicos está condicionada a um conjunto de documentos legais e pela atuação de muitos interlocutores – tais como os arqueólogos e alguns membros das comunidades.

A legislação brasileira garante que os acervos arqueológicos sejam estudados e preservados para o usufruto da sociedade brasileira, evitando possíveis danos ao patrimônio arqueológico nacional. Portanto, a coleta não é um ato isolado do profissional da Arqueologia, ela faz parte de uma cadeia operatória de procedimentos e ações pautadas por sujeitos e instituições.

Os passos de uma pesquisa arqueológica incluem algumas etapas geralmente divididas em: pesquisa de campo, laboratório e gabinete – a educação patrimonial tem

caráter transversal e acompanha todo o processo. A documentação da informação e as ações de conservação devem ser consideradas desde o início de um projeto arqueológico. Ao ponto das diretrizes e prioridades da documentação e da conservação do acervo repercutirem nas formas de comunicação museológica e extroversão das informações em ações educativo-culturais.

Na primeira etapa – o campo – o artefato é coletado, trazendo consigo sua história de vida. Como isso acontece? Quando um artefato deixa sua vida útil e entra em desuso, descarte ou abandono, sofre sua primeira fase de deterioração até passar por um momento de adaptação ao meio ao atingir um equilíbrio físico-químico. A peça quando é retirada do seu contexto arqueológico por meio da escavação, acomodada com o meio terrestre ou aquático, sofre novamente com a exposição até chegar ao museu ou ao laboratório de Arqueologia. A curadoria arqueológica irá garantir que a peça atinja novamente uma estabilidade durante sua “nova vida” no museu ou instituição de guarda (Gráfico 1).

Gráfico 1. Relação entre tempo e deterioração da vida de um artefato arqueológico.

Fonte: NATIONAL PARK SERVICE, 2001.

Ao analisar o Gráfico 1, percebemos que a conservação é uma condição para que o artefato possa ser compreendido em sua totalidade. A conservação do acervo consiste em revelar a história do objeto e seus atributos físicos, prevenindo sua desintegração uma vez em contato com a atmosfera e descobrindo sua natureza e composição.

Portanto, “(...) a conservação ocupa uma parcela considerável da pesquisa arqueológica:

sem ela muita informação pode ser perdida ou deixar de ser explorada (GHETTI, 2015, p. 62)”.

Ainda, a conservação pode ser definida como “(...) uma operação que visa prolongar a vida de um objeto, prevenindo pelo maior tempo possível sua deterioração natural ou circunstancial (FRONER, 1995, p. 297)”. A deterioração é algo que sucede mesmo antes da entrada do objeto no museu, o que ocorre é que uma vez exposto à atmosfera, desenterrado ou emergido, o equilíbrio é perturbado e os agentes de deterioração passam a atuar de forma mais incisiva nos suportes. A tabela 1 nos mostra os agentes de deterioração aos quais os artefatos estão sujeitos, antes e após uma escavação arqueológica.

Tabela 1. Agentes de deterioração antes e após uma escavação.

Fonte: GHETTI, 2015, p. 66.

A conservação dependerá da atuação dos agentes de deterioração nos diferentes tipos de solo, das condições ambientais e do fato de que muitos objetos em si são instáveis. Em uma escavação mesmo objetos considerados estáveis podem ser retirados em situações adversas:

Dos sítios de escavação retiram-se objetos de cerâmica quebrados ou com alto teor de sal, pedras salgadas, metais corroídos, ossos e artigos têxteis encharcados de água, bem como objetos de couro e madeira. As cerâmicas porosas e as pedras, ao serem enterradas, podem ter sido permeadas pela água dos lençóis subterrâneos, cujos sais solúveis podem causar deterioração contínua depois que elas são desenterradas. A pedra não enterrada também é afetada pela permeação dos lençóis freáticos e por muitos outros processos atmosféricos, que a fazem perder pelo menos parte de sua superfície esculpida. Os objetos de metais podem já ter começado a sofrer corrosão antes de serem enterrados. Durante o período de sepultamento ocorre uma mineralização completa de alguns objetos. Mesmo quando o metal é totalmente mineralizado, os objetos de ferro, em particular, podem sofrer uma alteração dos produtos de corrosão depois de desenterrados, o que provoca sua laminação. Os materiais encharcados de água apresentam problemas especiais, uma vez que suas dimensões são instáveis e encolhem

quando começam a secar. A conservação de materiais encharcados de água ainda não é um processo rotineiramente bem-sucedido (BRADLEY, 2001, p.

16-17).

A importância da conservação preventiva dos artefatos, desde antes da coleta até a exposição, está justamente em proporcionar aos objetos o ambiente adequado, com o objetivo de minimizar os danos muitas vezes causados pela mudança de ambiente, manuseio e o transporte inadequado. A depender do suporte – se metal, orgânico, cerâmico, vítreo, lítico – serão observadas as melhores condições de curadoria arqueológica. Para isso, o controle dos fatores ambientais é fundamental para a conservação preventiva, tais como: a temperatura e umidade relativa; a qualidade do ar;

a luz; as pragas; a manipulação dos objetos e os procedimentos de segurança (LORD et.

al., 2010, p. 97).

Em laboratório, cada peça terá de ser examinada para verificar quais serão os melhores procedimentos a serem seguidos, passando por diferentes etapas da curadoria arqueológica. Logo abaixo os procedimentos geralmente adotados, a fim de garantir a integridade física e química da peça e as informações a ela associadas:

Exame (avaliação): toda atividade prévia com o objetivo de determinar a estrutura de um bem cultural, os materiais de que o mesmo é constituído, sua história (quando é pertinente) e seu estado, que inclui uma avaliação da degradação, das modificações e das partes faltantes. O exame compreende também o estudo dos fatos históricos e contemporâneos apropriados ao bem (ACCR e ACRP, 2000, p. 14). Para a arqueologia, seria a avaliação dos procedimentos que serão adotados desde a higienização das peças ao seu acondicionamento.

Tratamento: toda intervenção direta sobre um bem cultural com o objetivo de retardar a deterioração ou de facilitar sua leitura. A amplitude da intervenção pode variar de uma simples estabilização a uma restauração ou mesmo uma reconstituição (ACCR e ACRP, 2000, p. 15).

Higienização: ato de remover a sujidade das peças. Existem diversos tipos de limpeza, basicamente podemos distinguir entre: a limpeza mecânica; a limpeza química e a limpeza baseada na utilização de métodos modernos como o laser e o ultrassom (FLÓS, 1993, p. 254).

Marcação: ato de relacionar as informações documentais (registro) à peça, a partir da aplicação de números nos objetos. Tais números compõem o sistema numérico, que podem ser: com um partido (numeração com apenas um item identificador), bipartido (numeração com dois itens identificadores) ou tripartido (numeração com três ou mais itens identificadores). Os itens identificadores de um partido num sistema numérico, em arqueologia, podem ser definidos por várias razões: pelo tipo de trabalho realizado (escavação, salvamento, registro, identificação, etc); pela organização em laboratório;

pelos materiais; pela região de origem; etc. Dentre tais modelos, aquele que parece mais justificável, em arqueologia, é o que relacione a peça ao contexto de origem: o sítio arqueológico. A escolha de um local para a numeração, num objeto arqueológico, deve obedecer às características particulares da peça, no que concerne a composição, possibilidades de estudo e musealização. Todavia, a devida escolha de um local ao número, bem como o tamanho que ele vai ter em relação ao objeto, é, sem dúvida, uma questão de bom senso.

Conservação: toda a ação que visa salvaguardar um bem cultural em uma perspectiva de longa duração. O objetivo da conservação é estudar, documentar, preservar e restaurar as características culturais essenciais presentes na estrutura física e química de um bem cultural, limitando o máximo possível a intervenção. A conservação compreende o exame, a documentação, a conservação preventiva, a preservação, o tratamento, a restauração e a reconstituição (ACCR e ACRP, 2000, p. 13).

Consolidação: realiza em determinadas peças cujo estado requer uma determinada proteção, quer dizer, quando se trata de melhorar as propriedades mecânicas de tais peças. Normalmente é uma fase posterior à limpeza, porém em certas peças se realiza antes, já no sítio, já que sua fragilidade impede a manipulação. Os produtos utilizados devem ter boa resistência a luz e aos agentes químicos, não modificar o aspecto estético, ter boa profundidade de penetração e serem reversíveis (FLÓS, 1993, p. 254).

Reconstituição ou reintegração: ambas se realizam por razões de apresentação, para apreciar formas inteiras e para dar maior resistência mecânica às peças. O princípio de reversibilidade é, também aqui, prioritário (FLÓS, 1993, p. 254).

Restauração: toda as ações feitas para modificar a estrutura e os materiais constitutivos de um bem cultural com o objetivo de representar um estado anterior conhecido. A restauração tem como objetivo revelar as características essenciais de um bem cultural; baseado no respeito aos materiais de origem e se apoia na informação precisa do objeto em seu estado anterior (ACCR e ACRP, 2000, p. 15).

Acondicionamento: colocação das peças em embalagens quimicamente inertes, as quais devem proporcionar proteção física, química e biológica.

Armazenamento: guarda das peças na reserva técnica, isoladas ou agrupadas por classes, em caixas e/ou embalagens identificadas que assegurem as informações a elas associadas e a sua integridade.

Importante ressaltar que todos os procedimentos realizados em um acervo arqueológico devem ser documentados de acordo com os protocolos do laboratório e/ou museu. Dada a natureza diversificada dos suportes materiais, o estudo da conservação pode tornar-se bastante especializado

A pesquisa em conservação é que irá garantir maiores informações de como ocorre a deterioração, quais os melhores métodos de estabilização da matéria, bem como as formas de guarda e exposição adequadas. Portanto, é extremamente importante o incentivo à pesquisa em conservação, dotando recursos nos orçamentos dos projetos de Arqueologia Preventiva.

Vale lembrar uma máxima para muitas situações na vida: “Mais é menos”. Ou seja, não inicie um tratamento de conservação em campo, a menos que você tenha total segurança do que está fazendo! Catharine Sease no livro A Conservation Manual for the Field Archaeologist oferece duas dicas importantes a serem levadas em conta: O que menos você fizer é melhor” e “O que geralmente precisa ser feito não deve ser feito”

(SEASE, 1994, p. 1-3). Muitas vezes, ações precipitadas ou tratamento ligeiros realizados em campo podem levar danos ao artefato ou custar mais tempo de laboratório

para remoção de adesivos ou substâncias consolidantes. A atuação do profissional conservador durante as práticas da coleta garantirá melhores decisões de manuseio, transporte e tratamentos futuros.

Como último ponto de reflexão, é preciso considerar que os procedimentos de gestão do patrimônio arqueológico devem ser orientados por três princípios de conservação básicos: a) a reversibilidade - a habilidade de reverter qualquer tratamento de conservação, ou não impedir qualquer novo tratamento; b) a intervenção mínima - o aspecto e a composição de um item deve ser alterado o mínimo possível para receber os cuidados de um conservador; e, c) a compatibilidade de materiais - qualquer novo material introduzido deverá ser o mais próximo possível do material original. (Price apud SWAIN, 2007, p. 181).

Grande parte do que foi tratado até aqui, implica considerar que a formação deve ser contínua, aprendendo e buscando se atualizar periodicamente, envolvendo-se com o cotidiano da instituição em uma visão abrangente e uma abordagem integrada na gestão dos acervos arqueológicos:

Todas as pessoas que se movimentam na instituição têm uma responsabilidade com relação ao patrimônio conservado; sua ignorância, sua incompetência, quem sabe sua má vontade podem levar a catástrofes a curto ou longo prazo. Fora do museu, é preciso se comunicar com os poderes públicos e os outros parceiros de modo a chamar sua atenção para essas questões e poder contar com seu apoio. É uma boa prática, enfim, informar ao público sobre as razões de certas medidas provisórias ou permanentes: por exemplo, a iluminação fraca das salas de arte gráfica ou a retirada de um quadro para a restauração em consequência de desgastes acidentais (GOB et.

al., 2019, p. 222).

Sugestão de leituras: BRUNO, 1996; FERNANDES et. al., 2018; FRONER, 1995; GHETTI, 2015; PEREIRA, 2015; TOLEDO, 2017; VASCONCELOS, 2014;

WICHERS, 2010.

Documentos relacionados