6 A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE EDUCACIONAL EM UMA ESCOLA DE
6.4 COMO OS GESTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PERCEBEM O
TRABALHO DO INTÉRPRETE EDUCACIONAL
Constatamos que, de certa forma, as relações que se estabeleciam entre intérprete e os demais membros da equipe bilíngue interferiam na maneira como os demais profissionais da escola viam o intérprete e seu trabalho. Porém, no contexto das relações de trabalho, outros elementos entravam em jogo produzindo novos tensionamentos.
Nos comentários feitos por gestores e professores a respeito do intérprete, identificamos algumas diferenças. Ao discorrer sobre o trabalho do intérprete, os comentários de pedagogos e coordenadores aproximou-se daqueles produzidos pelos membros da equipe bilíngue sobre o intérprete.
No decorrer das observações e durante as conversas com os profissionais da equipe bilíngue, questões como o constante atraso do intérprete, faltas injustificadas dele e a insistência por parte do mesmo em fazer pausas para ficar no computador, deixando assim diversas crianças surdas desassistidas enquanto isso acontecia, foram citadas como as causadoras de grande descrédito em relação ao seu trabalho. Percebemos que esse modo de ver o intérprete e o seu trabalho também estava presente entre pedagogos e coordenadores.
Essa constatação se tornou possível quando ouvimos os relatos desses a respeito do intérprete. Esses relatos aconteceram em momentos não sistematizados, como entrevistas, mas durante os interstícios de uma aula e outra, ou na sala dos professores durante o recreio dos alunos, ou ainda na hora da entrada dos alunos, enquanto os mesmos se organizavam nas filas.
A primeira fala, feita durante a pesquisa, que nos deu indícios sobre a imagem do intérprete envolveu uma das coordenadoras de turno. Nas primeiras semanas de observação, a coordenadora, ao perceber a presença recorrente dessa pesquisadora na escola, iniciou um diálogo no sentido de entender do que se tratava a pesquisa. Ao ser esclarecido que era sobre a atuação do intérprete teceu o seguinte comentário “Boa sorte, você irá precisar”. Essa fala, por si só, não diz nada, no entanto, acrescida das expressões faciais que a mesma fez, das expressões que outros professores faziam ao comentar sobre o intérprete e dos comentários insinuosos que os profissionais da escola faziam, suscitam tal indício de descrédito em relação ao profissional foco deste estudo.
A pedagoga externou sua posição, já nos primeiros contatos com a escola, quando buscávamos a viabilização desta pesquisa. Ao explanarmos sobre as intenções desta investigação, a pedagoga, no intuito de esclarecer como se dava a organização da escola, bem como o trabalho da equipe bilíngue, relatou muito superficialmente sobre como este se dava, atendo-se mais a pontuar quais eram os profissionais que a escola tinha. Nesse momento, ao falar sobre o intérprete, destacou que, para o quantitativo de alunos que a escola tinha, o
número de intérpretes não atendia,16 salientou, ainda, que acreditava na necessidade de alguns ajustes e esclarecimentos que deveriam ser feitos a respeito da atuação desse profissional, pois disse ter tomado conhecimento de algumas situações que não acreditava serem condizentes com a de um intérprete. Após ser interpelada sobre quais seriam, a pedagoga, procurando abrandar o rumo do assunto, disse se tratar de questões técnicas.
Contudo, ao apresentar as dependências da sala bilíngue e seus profissionais (já conhecidos por esta pesquisadora), percebeu a ausência do intérprete e questionou se o mesmo se encontrava na escola – a professora bilíngue disse que não o havia encontrado ainda, estabelecendo-se aí um breve silêncio mútuo entre as profissionais, que se entre olharam. Esse olhar, embora curto, parecia denunciar algo inapropriado. Prosseguindo, a pedagoga apresentou a professora bilíngue e se ausentou da sala deixando esta pesquisadora conversando com a professora.
Constatamos, na fala de pedagogos e coordenadores, uma tensão na relação com o intérprete, que parece estar relacionada ao não cumprimento daquilo que se imagina ser sua tarefa do intérprete. Apesar de identificarmos na fala de alguns gestores uma crítica, ainda que velada, ao trabalho do intérprete, não tivemos notícia, no período da pesquisa, de conversas e reuniões entre equipe gestora e equipe bilíngue para avaliar o trabalho desenvolvido.
Nesse sentido, era perceptível que as ações realizadas na sala bilíngue acontecia de maneira desassociada das ações da escola, caminhando, no período observado, paralelamente a tudo que se desenvolvia na escola. Era aquilo que se pode chamar de “apêndice da escola”.
No que se refere aos comentários dos professores, outros elementos são apontados como foco de tensão. Enquanto os gestores, que estão preocupados com a organização geral do trabalho na escola, apontam aspectos referentes, principalmente, à pontualidade e à assiduidade, os
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Vale lembrar que, nesse período da pesquisa, havia dois intérpretes, um todos os dias da semana e outro que cumpria dois dias na semana.
professores chamam atenção para a não presença desse profissional em todas as aulas e para a política de inclusão.
Uma fala a respeito do intérprete foi feita pela professora de Ciências, que, em um momento em que os alunos faziam atividades, disse que achava uma covardia o aluno não estar com o intérprete em todas as aulas, salientando que se sentia muito mais confortável quando o surdo tinha as explicações do intérprete, pois assim percebia que o aluno surdo estava assistido. Contudo, fez o seguinte comentário: “pena que não é sempre que se pode contar, né?”, logo sendo interrompida por uma aluna de outra turma que a chamou à porta.
Em uma outra oportunidade, a professora de Geografia, durante o recreio na sala dos professores, ao conversar com a pesquisadora sobre o aluno surdo da sétima série, ponderou sobre a inclusão de alunos com necessidades especiais. Disse achar bem complicado a forma como a inclusão é feita nas escolas. Apontou que, muitas vezes, os alunos são matriculados na sala de aula, aprendem pouco do que é ensinado pelos professores, mas disse que “as coisas que não prestam eles aprendem rapidinho com os colegas”. Demonstrou-se resignada com essa situação, quando fez o seguinte comentário “Mas não tem jeito, é a política do MEC. Inclusão, inclusão e inclusão. A gente é quem tem que se virar”. Intencionando chegar até o intérprete, comentamos com essa professora que, no que tange ao surdo, “pelo menos tem o intérprete”. A professora não aparentando tanto entusiasmo concordou encerrando o assunto com um “é... pelo menos.”
O professor de Matemática, por sua vez, salientou que trabalha há anos nessa escola, inclusive no noturno, que, conforme foi relatado anteriormente, tem tradição no ensino de jovens e adultos surdos. Dessa forma, relata que aprendeu alguns sinais como os de menor, maior, igual, diferente, certo e errado, os quais o ajudam na hora de ensinar, principalmente, porque o intérprete, segundo o professor, é figura rara nas aulas. Ao ser perguntado sobre o porquê do intérprete ser raro nas aulas, o professor disse não saber muito bem, mas relativizou dizendo que, às vezes, o intérprete fica na aula de Matemática, mas na maioria das vezes não.
A fala dos professores evidencia que o intérprete que atua nessa escola, no turno vespertino, não está dando conta da demanda: o intérprete é “figura rara” nas aulas, é alguém com quem “não se pode contar sempre”.
No que se refere, especificamente, ao trabalho desenvolvido por ele, apenas a professora de Ciências fez um comentário, apontando que se sentia muito mais confortável quando o aluno surdo tinha as explicações do intérprete.
Nos comentários dos professores, o elemento de tensão diz respeito às condições em que a política de inclusão de sujeitos surdos no ensino comum se efetiva: não há intérpretes para todos os alunos surdos da escola.
Torna-se notório, por meio das falas dos profissionais mencionados, que o afastamento entre aqueles que trabalham na sala bilíngue e o intérprete, de alguma forma, é refletido em toda escola. Mesmo sem termos a clareza se o descrédito em torno do intérprete parte da sala bilíngue ou da sala dos professores, podemos observar aí algumas figurações de poder que se estabelecem, as quais certamente interferem no bom desempenho do intérprete no contexto da mediação pedagógica.