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Em busca de uma otimização do uso da água, a exemplo do que vêm ocorrendo em outros países, o Brasil, um dos maiores reservatórios de água potável do planeta, instituiu a atual Legislação de Recursos Hídricos.

Essa Lei tornou mais rígidas as regras para o uso dos recursos hídricos estabelecendo modernos mecanismos de gestão. Tal ordenamento jurídico atinge a toda a população, entretanto, alguns setores da sociedade sofrem de forma mais direta os impactos da nova Lei. Podemos citar os orizicultores que, por necessitarem de grandes volumes d’água para alimentar suas lavouras, enquadram-se neste grupo.

Desde a instauração da nova legislação, os orizicultores vêm se deparando com uma nova realidade, ou seja, o maior controle e fiscalização acerca da água que utilizam. De forma direta, tais inovações implicaram, entre outros, em novas licenças, como a outorga de direito de uso58, e na possibilidade da cobrança pela captação e uso

da água. SN exemplifica bem a atual situação,

antigamente, não existia essa fiscalização. Era à vontade! Tu queria colocá uma bomba ali. Puxá água ali. Tu botava onde tu queria, né! Hoje, pra ti colocá... Botá uma bomba pra puxá água, tu tem que tê a licença59 do... Da FEPAM e tem que tê a outorga. (SN)

58 A outorga de direito de uso de recursos hídricos é um dos instrumentos da Política Nacional de

Recursos Hídricos, estabelecidos no inciso III, do art. 5º da Lei Federal nº 9.433, de 08 de janeiro de 1997. Esse instrumento tem como objetivo assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à água.

59 Conforme o IRGA (2005), o licenciamento ambiental dos irrigantes está estabelecido na Resolução do

CONAMA 237/1997. A Resolução nº 284/2001 do CONAMA dispõe sobre o licenciamento de empreendimentos de irrigação, como é o caso da lavoura de arroz irrigado do estado do rio Grande do Sul. Os empreendimentos de irrigação são classificados em categorias, de acordo com o tamanho da área irrigada por propriedade e o método usado: aspersão (pivô central), localização (gotejamento, microaspersão, xique-xique) e superficial (sulco, inundação, faixa). O conceito de empreendimento de irrigação compreende o reservatório e captação de água, adução e distribuição, drenagem, caminhos internos e a lavoura propriamente dita. Esses empreendimentos devem estar cadastrados e licenciados pelo órgão ambiental competente, que expede a Licença Prévia-LP, Licença de Instalação-LI e a Licença de Operação-LO, isoladas ou sucessivamente, conforme a natureza, características e fase do empreendimento.

Diante desta nova realidade, onde a água começa a ser regulada, criam-se os Comitês de Bacias Hidrográficas e passa-se a exigir do agricultor, de forma direta e indireta, uma postura de proteção aos recursos hídricos, o que implica, entre outros aspectos, na diminuição das quantidades captadas e, portanto, no uso racional. Assim, indagou-se dos agricultores o que eles pensam, ou seja, como percebem a atual política nacional pertinente aos recursos hídricos.

Frente a tal questionamento os entrevistados dividiram-se em três grupos, quais sejam, aqueles que concordam e aprovam, aqueles que identificam alguma legitimidade na Lei, todavia, mostram-se desgostosos com tal ordenamento e o grupo dos radicais contrários.

Como componentes do primeiro grupo temos apenas dois entrevistados que posicionaram-se de forma concordante com a nova legislação. SC afirma,

concordo! Concordo! Por que eu vi resultado! Tanto é que, esse ano, se eles não tivessem agindo não teria água lá em baixo, eu sô o último. (SC)

Tendo vivenciado a mesma situação, SL compartilha do mesmo raciocínio e conclui,

isso aí é uma coisa que eles tão trabalhando certo! Se não fosse isso aí eu acho que até muito agricultor não taria na agricultura. Teria abandonado! Por causa disso, que quem tá lá em cima pega água. Quem tá lá em baixo não pega! Se não tem uma fiscalização do IBAMA, certinho, tem draga no rio, tem... Depois abre um buraco lá, a água já não corre prá baixo. (SL)

Para ele a legislação veio frear os abusos cometidos pelos orizicultores o que considera

positivo! Hoje pra colocá uma bomba no rio, se não é legalizado pelo IBAMA, tu vai lá e desmata dez árvores pra chega no rio. Hoje não. Hoje tu tem o IBAMA. Tu vai lá tira uma licença. Ele vai lá demarca uma área pra ti desmatá. Pra ti tirá tantas árvores tu tem que plantá tantas. (SL)

Entretanto, a maior parte dos orizicultores entrevistados enquadram-se entre o segundo e o terceiro grupo, tais orizicultores possuem opiniões similares, pois mesmo aqueles que consideram os motivos que promoveram tal ordenamento, mostram-se desconfiados e receosos quanto aos métodos do mesmo.

No segundo grupo encontram-se nove agricultores. Representante do segundo segmento, SN avalia

acho que tiveram motivo pela falta d’água, né. Ou falta d’água ou o pessoal não respeitava. (SN)

Isso aí, acho que fundamento tem! Isso aí até teria que te sido há mais tempo. (SJ)

SM, fazendo referência à atuação de alguns orizicultores, acrescenta

isso aí, por um lado, vai se bom, né! É. Porque se fiscalizarem, tem gente aí, grande, que tá... Que planta uma quantia. Tá plantando mais... Além da... (SM)

É importante salientar que no discurso de SM ao dizer “por um lado”, ou seja, o ordenamento poderá ser positivo apenas em alguns aspectos comprovando sua dúvida quanto às contribuições efetivas do mesmo. Portanto, pode-se dizer que, para estes agricultores, a nova legislação é justificável, entretanto, causa receio, desconfiança e alguma contrariedade, pois impõe a necessidade de licenças, como a outorga. Embora as outorgas emitidas até o presente momento limitem-se a regularizar as quantidades captadas, posto que não houve restrições aos volumes requeridos pelos agricultores, elas implicam em custos para os mesmos. SQ ilustra o sentimento comum a muitos orizicultores

essa outorga não tem fundamento nenhum, né! Só é bem caro, isso sim! O laudo técnico e uma taxa no banco que o cara paga ali. (SQ)

O grupo dos que se colocam radicalmente contrários à nova legislação, ou seja, oito orizicultores entrevistados, defendem que a única finalidade da mesma é arrecadar fundos para o governo. Nesse sentido SG afirma

Eu pago aquela... Comé que é... licença ambiental. A outorga. Mas eu até hoje não tive relação nenhuma com esses cara. É prá capta dinheiro. Pegá dinheiro! Todos os ano tem que pagá essa outorga, né. Tu paga o laudo de dois em dois ano. Se tu pagá dois ano tu tem uma vantagezinha. Mas... Não sei por que isso aí! Se é prá melhorá alguma coisa. Eu não tô vendo nada! (SG)

O que funciona é as taxa! (SO)

Temô vendo! Temô acompanhando! E, eu pelo menos, na minha visão, tem algumas coisas que são boas. Tem outras que deixam algumas dúvidas. No fundo, no fundo, a dúvida maior nossa é o seguinte: Será que não vai ser só mais uma forma de arrecadação? (...) Por que no fundo, no fundo, no finalmente, se chama taxas! É uma forma de pode tê cobranças. Então se é pra tê, mais uma taxa, e, nós não vê outros benefício, não teria sentido! (SD)

ele tem que produzí atento a essas questões ambientais de preservação da natureza. Mas ele sê, sobretaxado, por exemplo, no uso da água para irrigação na minha opinião é complicado. (SE)

SE faz alusão às atuais exigências sociais atribuídas ao agricultor, como a preservação do ambiente e proteção do entorno, com as quais ele, aparentemente, concorda. Todavia, mostra-se contrário a forma como o Estado encontrou para fazer com que os orizicultores passem a utilizar a água de modo racional, ou seja, através dos instrumentos previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos. Aqui, no caso, a outorga, classificada por ele como sobretaxas aplicadas a orizicultura.