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CAPÍTULO 3: MINÉRIO OCULTO: UM TESOURO A DESVELAR

3.4 Garimpando e construindo trilhas

3.4.1 Como os professores representam Alagoas

A Análise Fatorial de Correspondência (AFC), como já mencionado acima, é um procedimento estatístico que consiste em colocar em evidências as variáveis sociodemográficas (sexo, idade, status do sujeito) assim como as variáveis de opinião ou respostas relativas aos estímulos indutores evocados pelos sujeitos entrevistados através do Teste de Associação Livre de Palavras (TALP). Quando processados, os dados são dispostos na forma de um gráfico que revelam as oposições dos sujeitos ou grupos, organizados de acordo com suas respectivas características específicas de semelhanças e diferenciações.

O gráfico 1, a seguir, é constituído de dois fatores ou eixos fatoriais que explicam como se posicionam os sujeitos ou grupos em relação ao objeto de pesquisa. O Fator 1, convencionalmente de cor vermelha e na posição horizontal, revela os dados mais importantes da pesquisa, sendo que, aqui ele explica 85,5% da variância total (valor próprio = 0.293), enquanto o Fator 2, situado na posição vertical e de cor azul, explica 7,4% da variância total (valor próprio = 0.025), ambos perfazendo um total de 92,9% dos dados explicados (Ver Anexo 4).

Conforme é possível observar no gráfico abaixo, encontram-se em oposição no eixo 1 as representações dos professores, situados no lado positivo, à direita, cor vermelha, em contraposição aos estudantes, que encontram-se no mesmo eixo, lado negativo, à esquerda.

GRÁFICO 1 : REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DOS EIXOS 1 e 2 OBTIDA A PARTIR DOS ESTÍMULOS INDUTORES DO TALP E DAS VARIÁVEIS

SOCIODEMOGRÁFICAS F2

__________________________________________31-40 anos________________________

³ | MARAVILHOSO3 ³ ³ MAL REMUNERADO3 PARAISO1 | ENSINAR DATAS IMPORTANTES3 ³ ³ | BATALHADOR2 ³ ³ | CORRUPTA1 ³ ³ BATALHADOR3 | DÁ OPORTUNIDADES4 ³ ³ USINEIRO1 HONESTO4 | INTERESSADO3 NATUREZA1 ³ ³ MACHISTA2 | BOM2 ³ ³ ATPUB4 ATRASADA1 | MAIOR4 ³

³ SOFREDOR2 OLIGARQUIA1 SOFREDOR3 | PRAIA1 VIOLENCIA4 BONITA1 ³ ³ LUTADOR2 CLASSISTA1 DIFICIL3 | DESENVOLVIDO4 ³ _CORRUPTO2__<30 anos_FRUSTRADO3_________+_______________________PROFESSOR___ F1

³ ALEGRE2 CONSCIENTE3 ESTUDANTE HIST| FELIZ2 ³ ³ FORTE2 ACONCHEGANTE1 LINDA1 | ESTUDIOSO3 CORAJOSO2 ³ DESPOLITIZADO2 POLITIZADO4 | NÃO TEM BELEZA4 ACOLHEDORA1 ³ GRATIFICANTE3 VIOLENTA1 | ORGULHOSO2 ³ DISCRIMINADO1 TRABALHADOR2 | BOM3 ORGANIZADO4 SORRISO1

³ | >40 anos TURISMO1 ³ CAPACIDADE1 ESPERANÇOSO2| BOA1 MARAVILHOSA1

³ | ³ ³ | TERRA MARECHAIS1 ³ ³ | ORGULHO3 ³ _________________________________________________________________PRAZEIROSO3

ESTÍMULOS INDUTORES FATORES

1 = Alagoas 2 = Ser alagoano

3 = Ser professor de história 4 = Outros Estados

F1= horizontal

F2 = vertical

Assim, com relação ao estímulo 1 (Alagoas), os professores consideram um Estado “bonito” (CPF2 = 63) por sua “natureza” (CPF=17), “acolhedor” (CPF= 20), confundida com a capital é considerada uma cidade “sorriso” (CPF=13), “maravilhosa” (CPF=21), atraída pelo turismo (CPF = 16), e considerada a “Terra dos

Marechais” (CPF = 10).

2

CPF significa “Contribuição por Fator”, ou seja, como cada resposta ou variável de opinião contribuiu para a construção do fator e como se organizam as representações sociais dos sujeitos no plano fatorial, numa perspectiva quantitativa ou de análise estatística de dados.

No mesmo eixo, lado esquerdo encontram-se os estudantes que representam Alagoas diferentemente dos professores, com atribuições de valorações negativas, não presente entre os professores. Para os estudantes, Alagoas é uma terra de “usineiros” (CPF=14), “atrasada” (CPF=21), “oligárquica” (CPF=17),

“classista” (CPF=18), alvo de “discriminação” (CPF=14), embora, seja também

caracterizada positivamente como “linda” (CPF = 61), e “aconchegante” (CPF = 15).

Com relação ao estímulo 2 (Ser Alagoano), ainda no Fator 1, lado positivo, os professores consideram que o alagoano é “bom” (CPF=27), “batalhador”

(CPF= 11), “feliz” (CPF= 38), “corajoso” (CPF=17), “orgulhoso” (CPF=35.). Por outro lado, nesse

mesmo fator, lado esquerdo, os estudantes constroem uma miscelânea de valores opostos, considerando o alagoano “machista” (CPF=14), “sofredor” (CPF=31), “lutador” (CPF=34), “corrupto” (CPF=18), “alegre” (CPF=38), “forte” (CPF=12), “despolitizado” (CPF=19).

Sobre o estímulo 3 (ser professor de história), no eixo 1, à direita, os professores atribuem unicamente qualidades positivas na própria atividade profissional, pois consideram que é “maravilhoso” (CPF=13), que são “estudiosos” (CPF=22), e tem

“orgulho” (CPF=15), de exercer um trabalho “prazeroso” (CPF=15) e que o professor de história deve “ensinar datas importantes” (CPF=13). De modo inverso, no lado

esquerdo do eixo, o estudante possui uma representação absolutamente diferenciada, na medida em que o professor de história é percebido como um “sofredor” (CPF=28), “frustrado” (CPF=22), embora “consciente” (CPF=17), e que tem

“dificuldades” (CPF=15), mas que também deve ser “gratificante” (CPF=17).

Finalmente, com relação ao Fator 1, o último estímulo que interroga sobre como a amostra da pesquisa representa os outros Estados do País (estímulo 4), no lado direito do gráfico, cor vermelha, os professores evocam poucas

respostas, afirmando que existe “violência” (CPF=12), “não tem beleza” (CPF=20), mas são “organizados” (CPF=13).

No lado negativo referente ao Fator 2, abaixo, ainda no que se refere ao estímulo 1 (Alagoas) há associação a palavras como “boa” (CPF = 44),

”maravilhosa” (CPF = 28), “turismo” (CPF = 15) que remetem ainda a belezas naturais do

Estado, mas também encontra-se a palavra “violenta” (CPF = 19) que declara uma

certa característica do ethos da sociedade alagoana. Ainda registra-se a expressão “Terra dos Marechais” (CPF = 31) que certamente traduz os efeitos da propaganda

veiculada na mídia nos últimos anos pelo Governo do Estado por ocasião da inauguração do Memorial à República enaltecedora das personalidades dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto recém-inaugurado no município de Maceió. Além dessas palavras aparece também o termo “discriminado” (CPF=14)

em alusão ao entendimento do modo preconceituoso com que Alagoas tem sido retratada na mídia nacional desde a última década do Século XX.

No que se refere ao estímulo 2 (ser alagoano), registra-se no lado positivo, a associação às palavras “batalhador” (CPF = 47) e “bom” (CPF = 15) que

ressaltam qualidades socialmente referendadas e desejáveis, mas também aparece o adjetivo “machista” (CPF = 11) que remete ao modelo patriarcal da sociedade

alagoana. No lado negativo referente ao Fator 2, ainda no que se refere ao estímulo 2 (ser alagoano), encontra-se o termo “trabalhador” (CPF = 15) e “esperançoso” (CPF = 18) que remetem ao entendimento de que a atual situação vivenciada pelos

alagoanos pode ser superada.

Quanto ao estímulo 3 (ser professor de História), encontra-se no lado positivo a expressão “ensinar datas importantes” (CPF=47) que traduz uma concepção

manifesta a profissão docente de forma idealizada. Logo em seguida, encontram-se as palavras “mal-remunerado” (CPF=35) e “batalhador” (CPF=33) numa alusão às

dificuldades profissionais vivenciadas cotidianamente. Além da palavra “interessado”

(CPF=12) remetendo a uma qualidade esperada de quem atua em um ofício que requer

aperfeiçoamento intelectual. Ainda no que se refere ao estímulo 3 (ser professor de História), palavras como “bom” (CPF=24), “gratificante” (CPF=12), “prazeroso” (CPF=48) e

“orgulho” (CPF=48) que buscam traduzir aspectos compensatórios da profissão

docente.

Finalmente, no tocante ao estímulo 4 (outros Estados), encontram-se as palavras “maior” (CPF=13) e “desenvolvido” (CPF= 12) que traduzem o sentimento de

que Alagoas é um Estado relativamente pequeno territorial e economicamente em relação aos demais Estados da Federação. A expressão “dá oportunidades” (CPF=18)

revela a crença de que os outros Estados oferecem melhores oportunidades de emprego e renda, e o adjetivo “honesto” (CPF=12) acusa a adesão do estereótipo de

que os outros Estados têm instituições e governos que atuam e funcionam honestamente diferentemente dos de Alagoas.

A tabela de freqüências abaixo apresenta as porcentagens das palavras evocadas pelos sujeitos da pesquisa aos quatro estímulos a eles apresentados (estímulo 1: Alagoas; estímulo 2: ser alagoano; estímulo 3: ser

professor de História; estímulo 4: Outros Estados). Vale lembrar que o número total de sujeitos consultados foi N = 90 e que cada estímulo apresenta cinco possíveis respostas para cada sujeito consultado. Por isso a soma das freqüências relativas a um dado estímulo geralmente não é igual a 100%.

TABELA 1: Tabela de Freqüências ALAGOAS % SER ALAGOANO % PROFESSOR DE HISTÓRIA % OUTROS ESTADOS % Praia Bonita Linda Pobre Violenta Sol Boa Corrupta Aconchegante Natureza Atrasada Acolhedora Maravilhosa Cultura Turismo Pequena Discriminada Terra ds Marechais Paraíso 38 31 24 23 22 15 13 11 10 09 09 09 09 08 08 08 07 06 06 Pobre Feliz Acolhedor Orgulho Alegre Corrupto Lutador Sofredor Amigo Inteligente Violento Forte Trabalhador Discriminado Corajoso Triste 20 18 17 16 14 12 12 12 11 11 11 10 10 08 08 06 Difícil Bom Pesquisador Inteligente Estudioso Batalhador Gratificante Frustrado Sofredor Discriminado Maravilhoso 17 16 16 15 14 12 11 10 09 08 07 Desenvolvido Maior Violenta Economia Frio Não tem beleza

Valorizado Educação Dá oportunidades Politizadas Honesto Organizado 53 18 13 12 10 09 09 09 08 07 06 06

No que diz respeito ao terceiro estímulo (ser professor de História), as respostas foram categorizadas como: afetividade, comportamental, social (ver tabela 2).

TABELA 2: Categorização das respostas ao Estímulo SER PROFESSOR DE HISTÓRIA:

Afetos Positivos Negativos Comportamental Social Bom Gratificante Maravilhoso Frustrado Sofredor Difícil Pesquisador Inteligente Estudioso Batalhador Discriminado

As professoras entrevistadas consideram que ser professor de História é principalmente “difícil, bom, requer pesquisa e inteligência”, revelando mais uma vez um indício na ausência de respostas relativas a representação de conteúdo político do trabalho docente. Essa lacuna, simultaneamente oculta e se manifesta como demonstração de um interdito. Os professores tendem a apresentar uma visão mais idealizada da profissão docente: “maravilhoso, estudioso, orgulho, prazeroso”.

Ser alagoano e ser professor de história são estímulos que implicam a identidade do entrevistado que, sintomaticamente, encontram-se esvaziados de conteúdo político. A ausência de respostas, supostamente previsíveis em tais estímulos, fornece pistas com relação a “zona muda” na medida em que indicam o “nível de implicação e a distância em relação ao objeto jogam um papel determinante na inibição ou na produção da zona muda”(ABRIC, 2003b; p.80).

Quanto ao estímulo outros Estados da Federação brasileira, a alteridade apresenta-se para os sujeitos consultados, de modo predominantemente positiva, distribuídas em: Política, Afetividade, Social, Natureza Física (ver tabela 3):

TABELA 3: Categorização das respostas ao Estímulo OUTROS ESTADOS: Afetos Política Negativos

Social Natureza Física Desenvolvido Economia Dá oportunidades Politizadas Honesto Frio Valorizado Educação Organizado Violenta Maior Não tem beleza

O exame dessa tabela de freqüências revela que as professores consideram os outros Estados economicamente mais desenvolvidos e territorialmente maiores.