3 CONCEPÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO ESPECIAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA
3.1 Perspectiva histórica: os caminhos excludentes que levaram a inclusão
3.1.1 Como os sujeitos são definidos pela norma?
Antes de iniciar a discussão sobre como os sujeitos são definidos pela norma, ainda se faz necessário diferenciar os sujeitos que são considerados como normal e anormal.
Lopes (2013) afirma que:
[...] primeiro se define a norma e depois se identificam os sujeitos, sempre de forma dicotômica ou polarizada, como normais e anormais, incluídos e excluídos, sadios e doentes, deficientes e não deficientes, aprendentes e não aprendentes, ricos e pobres, brancos e negros, etc. (LOPES, 2013, p. 43).
Sendo assim, os sujeitos definidos pela norma, são os sujeitos classificados como normal e anormal, pois “Assim, é dito normal aquele que é capaz de amoldar- se ao modelo e, em inversamente, o anormal é aquele que não se enquadra ao modelo” (VEIGA-NETO; LOPES, 2007, p. 955-956). Este modelo idealizado pode ser estabelecido por grupos, regiões e inclusive pelo período histórico na qual o indivíduo fez/faz parte.
É a própria sociedade que estipula as características de um “[...] tipo ideal” (AMARAL, 1998, p. 14)11, e, a autora reconhece que:
A aproximação ou semelhança com essa idealização em sua totalidade ou particularidades é perseguida, consciente ou inconscientemente, por todos nós, uma vez que o afastamento dela caracteriza a diferença significativa, o desvio, a anormalidade. E o fato é que muitos e muitos de nós, embora não correspondendo a esse
11 A autora Amaral (1998) afirma que a espécie humana cria esse “tipo ideal”, sendo que este “[...] corresponde, no mínimo, a um ser: jovem, do gênero masculino, branco, cristão, heterossexual, física e mentalmente perfeito, belo e produtivo”. (p.14).
protótipo ideologicamente construído, o utilizamos em nosso cotidiano para a caracterização/validação do outro. (AMARAL, 1998, p. 14).12
Desta forma, nos compatibilizamos com as palavras da autora Amaral (1998), pois muitas pessoas olham para o outro buscando identificar um padrão, uma norma, e assim classificá-lo entre normal e anormal. Lopes (2016) chama estes perfis idealizados “[...] como um armazém de boas qualidades em que não se questionam preços por serem relíquias apreciadas por todos, mas adquiridas por alguns”. (LOPES, 2016, p. 107), isso significa que quando uma norma é estabelecida, há de fato a determinação de pessoas que estarão dentro ou fora dela.
Ademais, acredita-se ser relevante resgatar a epígrafe inicial desse item, na qual o autor Bianchetti (2011) serve-nos como sustentação para afirmar que essas classificações que ocorrem na construção dos sujeitos normal e anormal acabam, muitas vezes, desencadeando o sofrimento, a degradação e a exclusão destes perante à sociedade.
Após definido o que é a norma e quais são os sujeitos determinados por ela, retornando ao esclarecimento dos conceitos das palavras normação, normalidade, normatização e normalização. Para tanto, iniciar-se-á pela normatização e normalidade, nas palavras de Lopes (2013), a normatização
[...] é o limite que, construído da lógica de assegurar a vida dos indivíduos, possibilita manter sob controle os comportamentos individuais, bem como os comportamentos forjados no interior das comunidades (estas também criam verdades, formas de ser e normativas de vida que regulam e determinam no detalhe seus integrantes). (LOPES, 2013, p. 45).
A normatização é utilizada para determinar os padrões que constituem a norma. A normalidade nas palavras de Skliar (2003), é:
[...]como significado que parece referir-se a um outro, só tem sentido se foge e refoge desse outro e se confronta a normalidade; se fere de morte a normalidade; se transfigura a normalidade. O que faz falta é perder-se e perder-nos de vista, toda vez que o único que parecemos ver, toda vez que o único é visto é a egocêntrica normalidade. Egocêntrica normalidade cujo infame tentação é a invenção do anormal. (SKLIAR, 2003, p. 154).
12 A “deficiência significativa” apontada pela autora Amaral (1998) é a própria deficiência, nas palavras da autora, um desvio peculiar. (p. 21).
Assim sendo, a normalidade é um produto das “[...] ações dos sujeitos sobre si mesmo” (LOPES, 2013, p. 46), o ser humano seu único produtor (TOMASINI, 2015) e configura a existência dos sujeitos normal e anormal, pois o sujeito fora da norma identificada pela normalidade é determinado como anormal.
Assim sendo, faltam ser identificados os significados das palavras normação e normalização. Nas palavras de Lopes (2013),
[...] normação (típico de uma sociedade disciplinar) e de normalização (típico de uma sociedade denomidada por alguns como de seguridade, por outros de controle ou ainda de normalização), pois ambos constituem as práticas que determinam a inclusão no presente. (LOPES, 2013, p. 41).
Para deixar mais claro, “[...] a norma opera na população por normação” (LOPES, 2013, p. 42), já o processo de normalização é “[...] um processo inverso ao de normação. A normalização parte do apontamento do normal e do anormal dado a partir das diferentes curvas de normalidade, para determinar a norma” (LOPES, 2013, p. 43). Portanto, normação é o processo que parte da norma, para diferenciar os sujeitos normal e anormal (VEIGA-NETO; LOPES, 2007, p. 956) e a normalização, como Lopes e Fabris (2013), é o processo contrário da normação, que determina que os sujeitos anormais tentem se aproximar das características daquele sujeito considerado como normal,
É em decorrência disso que se fica com a impressão de que ela é natural, pois, na medida em que, nesse processo de normalização, aquele que já estava (naturalmente) aí é assumido como um (caso) normal, tudo o mais que dele se deriva parece ser também natural (VEIGA-NETO; LOPES, 2007, p. 956).
Ou seja, a normalização é tida como um processo natural, já que os sujeitos normal e anormal, surgem procedente do estabelecimento da norma. Quando nos retratamos a normalização, referimo-nos também aos processos que são utilizados para tentar fazer com que o sujeito considerado anormal, se torne normal.
Esses processos são considerados “[...] mecanismos de correção” (TOMASINI, 2015, p. 114), que são criados buscando a correção do sujeito que é considerado anormal. Visando compreender os processos de correção à qual os sujeitos fora da normalidade, tomemo-nos os exemplos trazidos por Sibilia (2016), a autora faz um comparativo entre duas situações que envolvem a correção de duas plantas. A
primeira planta é uma árvore que está com seu tronco tortuoso, a segunda, um broto do qual o genoma fora alterado para ser transformado em um organismo transgênico. Nos dois casos foram utilizados mecanismos para corrigir as plantas, na árvore foi realizada uma tentativa de corrigi-la de “[...] fora para dentro” (SIBILIA, 2016, p. 02), pois colocaram um tronco retilíneo amarrado em seu tronco tortuoso, a fim de endireita-lo. Já no broto, a intervenção fora realizada de “[...] dentro para fora” (SIBILIA, 2016, p. 02), na tentativa de modificar a estrutura do broto. Sendo assim, as práticas que são realizadas na tentativa de normalização do sujeito com deficiência são, de certo modo, uma forma de “[...] implementar determinados saberes e ferramentas, que foram inventados para transformar os organismos vivos com o propósito de satisfazer objetivos, necessidades ou desejos humanos” (SIBILIA, 2016, p. 02), com o interesse de estabelecer a normatização. Essas ideias serão retomadas futuramente, quando se trará discussões acerca do corpo humano visto como uma máquina.
Por conseguinte, foram determinadas as concepções em torno das palavras norma, normação, normalidade, normatização e normalização (LOPES, 2013, p. 41), para identificar que atualmente o papel da educação especial, perante à construção do sujeito anormal/deficiente, através de instituições,
[...] mantém esses indivíduos sob seus domínios, na tentativa de, através de seus programas especiais, garantir uma certa simetria entre o que a sociedade tem como padrão de normalidade e a maciça expressividade do indivíduo que diverge. Para isso são engendrados mecanismos de “correção”, de “ortopedia” da individualidade, corporificados em fórmulas terapêutico-educacionais. (TOMASINI, 2015, p. 119).
Contudo, na próxima subseção tentar-se-á responder ao questionamento do início desta seção sobre “O que acontece com os indivíduos que não se enquadram nos padrões que são impostos pela norma?”.
3.1.2 O que acontece com os indivíduos que não se enquadram nos padrões impostos