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4 BREVE ENSAIO A UMA POÉTICA AUTOBIOGRAFEMÁTICA

4.1.1 Como ser diferente em uma comunidade de iguais?

Em 10 de setembro de 1980, Tomás Eloy Martínez publica pela primeira vez, em El Nacional, a narrativa “El diferente” (2006 [1980]; p. 370-372). Logo nas primeiras linhas, já podemos apreciar o estado de admiração em que se encontra o autor ao relatar sua experiência amorosa com a protagonista do romance Sophie’s Choice, do escritor norte americano William Styron: “Toda relação de amor deve ser narrada em primeira pessoa” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370, tradução nossa).96 Com esse enunciado, cuja referência à pessoa do discurso marca a característica do relato autobiográfico – definido por Philippe Lejeune (2014) como narração retrospectiva que um indivíduo faz a respeito da própria vivência –, iniciamos nossa procura por (auto)biografemas que, dispersos no texto e posteriormente reunidos, compõem a referida narrativa (auto)biografemática.

O que Martínez (2006) viveu com a polaca Sophie Zawistowska, durante duas semanas, fora tão vívido e devorador que, conforme ele mesmo esclarece, assume o caráter da confissão. Ao resumir a história construída em torno da personagem da trama, é possível destacarmos a presença de biografemas de primeiro grau: “Criada em um lar de católicos fervorosos [...]” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370, tradução nossa),97

Sophia vive numa atmosfera judaico-cristã segundo os preceitos religiosos, os quais garantiriam um lugar no paraíso. Todavia, “[...] afastada pelo acaso para o campo de Auschwitz, na primavera de 1943 [...]” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370, tradução nossa),98 presenciou e sentiu na pele as adversidades

96 Texto fonte: “Toda relación de amor debe ser narrada en primera persona” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370). 97

Texto fonte: “Criada en un hogar de católicos fervorosos [...]” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370).

98 Texto fonte: “[...] aventada por el azar hacia el campo de Auschwitz, en la primavera de 1943 [...]” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370).

promovidas por esse ambiente que, embora tivesse lhe imprimido os horrores do holocausto, não a impediu de sobreviver aos impactos das enfermidades emocionais e físicas, em que “Nenhuma humilhação parecia-lhe suficiente para redimi-la daquele passado” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370, tradução nossa).99

Diante desses pormenores, que representam, respectivamente, o espaço familiar e o processo de mudança territorial, chegamos à primeira conclusão: a paixão do jornalista argentino por Zawistowska revela o respeito pelos que enfrentam os infortúnios da vida, mas conseguem superá-los, ainda que as marcas sejam inapagáveis. Sua admiração pela protagonista não é, tão somente, o resultado do encantamento pela postura ideológica de Sophie; mas, também, o efeito da co-existência, a partir do pacto leitor/autor (Martínez/Styron), em que a escritura do Outro apresenta estilhaços de nossa vivência cotidiana, segundo concebeu Roland Barthes (1990) em Sade, Fourier, Loyola.

Numa determinada passagem da narrativa, Martínez (2006) elenca uma série de pormenores referentes à busca de Sophie para assimilar a identidade alheia, em detrimento da sua. Desejando tornar-se uma pessoa numa comunidade de iguais, ela precisou polir seu inglês para limpar as peculiaridades sonoras da língua polaca; buscou abraçar tradições e introjetar comportamentos empregados pelos heróis da maioria, sem ao menos desejar ser diferente. Após essa sequência de biografemas, o jornalista argentino faz uma revelação autobiografemática cujo conteúdo prenuncia o assunto a ser abordado – a discriminação –:

Amei Sophie Zawistowska, protagonista do último romance de William Styron – Sophie’s Choice –, não somente porque suas íntimas trevas têm o poder de consumir o leitor na surpresa e no estremecimento. Amei-a também porque é uma das metáforas mais cruéis dos tempos atuais (MARTÍNEZ, 2006, p. 371, grifo nosso, tradução nossa).100

A prática discriminatória aparece, no relato, como reação ao perigo que o diferente suscita nos membros de um determinado grupo social. Sophie é a metáfora do discriminado, numa sociedade que promove a marginalização das minorias. Nessa perspectiva, Martínez (2006) desabafa:

99

Texto fonte: “[...] Ninguna humillación le parecía suficiente para redimirla de aquel pasado” (MARTÍNEZ, 2006, p. 370).

100 Texto fonte: “Amé a Sophie Zawistowska, protagonista de la última novela de William Styron – Sophie’s Choice –, no sólo porque sus íntimas tinieblas tienen el poder de sumir siempre al lector em la sorpresa y el

estremecimiento. La amé tambiém porque es una de las metáforas despiedadas de los tiempos que corren”

Não tem pior desgraça do que ser diferente numa comunidade de iguais. Por sua qualidade de estranho, por sua impossibilidade de compartilhar com a tribo as experiências adolescentes e os códigos familiares, por saber o que a tribo não sabe e o contrário, por não saber o que ela sabe, o diferente suscita temor. E tudo o que se teme deve ser destruído. Em nome das boas causas, da identidade tribal ameaçada, do lugar ao sol que furta os outros com sua fome e sua necessidade de trabalho, o diferente deve ser destruído (2006, p. 371, tradução nossa).101

Diante desse fato, é possível conceber a desaprovação do jornalista argentino frente à proposta de destruição do diferente, bem como apreciar a marca da indignação em seu discurso, o que evidencia sua militância na luta em favor das causas sociais. Na ordem em que se estrutura a narrativa (auto)biografemática, Martínez (2006) menciona que, no romance Sophie’s Choice e em histórias atuais de alguns povos, certos intelectuais, dentre os quais não podemos deixá-lo de fora, “[...] mostram a cara, num relâmpago de lucidez, para declamar a necessidade de compreender o diferente e de respeitar sua cultura” (p. 371, tradução nossa).102 Dessa forma, é em “El diferente” que o intelectual argentino propaga essa necessidade, recorrendo a uma das metáforas mais desumanas da atualidade: Sophie Zawistowska. Isso se justifica pelo fato de a personagem ser uma demonstração das minorias, para as quais é concedido o direito de viver em seus guetos, preservar seus costumes e salvaguardar filamentos de suas tradições.

A protagonista é, portanto, a expressiva alegoria dos indígenas, dos mexicanos, dos kurdos, do imigrante expulso para outras terras pela violência do poder e pelos efeitos maléficos dos quais a miséria constitui a principal causa, conforme Martínez (2006). O que o jornalista argentino aborda como tema central da narrativa leva-nos a refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelas minorias, as quais tentam identificar-se com a tribo, da qual um ser em particular pretende tornar-se parte integrante. Entretanto, por sentir-se ameaçada pelo diferente, a tribo imediatamente reage por meios de atitudes discriminatórias.

A intensa relação de amor que Martínez viveu com Zawistowska, e confessada em primeira pessoa, constitui o autobiografema afetivo do autor. Do elo estabelecido entre os

101 Texto fonte: “No hay peor desgracia que la de ser diferente en una comunidad de iguales. Por su cualidad

de extraño, por su imposibilidad de compartir con la tribu las experiencias adolescentes y los códigos familiares, por saber lo que la tribu no sabe y a la inversa, por no saber lo que Ella sabe, el diferente suscita temor. Y todo lo que se teme debe ser destruido. En nombre de las buenas causas, de la identidad tribal amenazada, del lugar al sol que hurta a los otros con su hambre y su necesidad de trabajo, el diferente debe ser destruido” (MARTÍNEZ, 2006, p. 371).

102

Texto fonte: “[...] asoman la nariz, en un relámpago de lucidez, para declamar la necesidad de comprender

dois, temos o testemunho: “[...] aprendi com ela que renunciar a ser diferente não ameniza o ódio das maiorias, senão estimulá-lo. Aprendi que nenhuma conversa, por mais entusiasta que seja, fará jamais esquecer as ‘impurezas’ de sua origem” (MARTÍNEZ, 2006, p. 372, tradução nossa). Em vista disso, podemos inferir que a protagonista do romance Sophie’s Choice proporcionou a Tomás Eloy Martínez outras formas de encarar o diferente, numa sociedade em que ainda prevalecem traços cruéis da discriminação.