• Nenhum resultado encontrado

Da análise das críticas, dos escritos pedagógicos e de divulgação de Freitas Branco, publicados sensivelmente desde o seu maior envolvimento no ensino oficial da música até aos últimos momentos da sua vida, quando ainda produzia textos com o mesmo intuito de publicação, embora alguns tenham surgido na esfera pública já postumamente, as ideias do autor e compositor sobre pedagogia ficam claras. A par com uma carreira longa e variada está uma visão que pouco se alterou ao longo das décadas:

ou seja, um pensamento baseado numa organização sistemática da história, através de

52 Freitas Branco 1951g:1.

61

divisões bem estanques entre períodos clássicos e românticos, dicotomia que é replicada, respectivamente, nas ideias de racionalismo, polifonia e equilíbrio, por um lado e, por outro, nos conceitos de irracionalismo, harmonia e desequilíbrio. Para Luís de Freitas Branco, o período barroco e o que chama de época do baixo cifrado teria precisamente pela introdução desta técnica iniciado uma época romântica caracterizada pela banalização da sétima de dominante, banalização essa que urgia ser contrariada com a criação e consolidação de um novo período clássico. Uma mentalidade clássica seria a mais adequada à sua contemporaneidade, segundo Freitas Branco uma época que se queria fundamentalmente racional e que, no contexto português, deveria passar por uma reapreciação de momentos passados como a Idade Média e o Renascimento – momentos tidos como períodos áureos da história nacional, anteriores ao declínio da nação e consequente degradação da música nacional.

Se este pensamento já se verificava nas ideias de Freitas Branco sobretudo a partir da sua ligação com o monárquico, conservador e nacionalista Integralismo Lusitano na segunda metade da década de 1910, continua inegavelmente presente nos escritos do compositor publicados nos anos 1920, destacando-se a edição dos seus Elementos de Ciências Musicais e a sua produção no contexto da semelhante Acção Realista Portuguesa, nos anos 1930 e 1940 na revista Arte Musical, órgão de propaganda do seu nacionalismo neoclassicizante, e em textos de objectivo pedagógico como a História Popular da Música, e nas vésperas do seu falecimento, quando a mesma sistematização da história é repetida no suplemento do Comércio do Porto.

A simples insistência de Luís de Freitas Branco no ensino e divulgação da história não se altera nem esmorece no decorrer das décadas, mantendo o autor uma produção relativamente constante de textos de cariz pedagógico com esta mesma filosofia que passava também pela organização da história universal e da história nacional através das acções de grandes génios – algo que tanto se percebe na narrativa sobre figuras como Duarte Lobo, Beethoven ou Wagner, como na perpetuação da sua própria imagem enquanto mestre de discípulos que, finalmente, se proporiam à alteração do panorama musical nacional, ou seja, construindo ele próprio uma ideia de genealogia.

Revela-nos essa insistência possivelmente uma angústia ou um sentimento de incompletude. O que Luís de Freitas Branco via como inevitabilidade nos anos 1910 – a

62

criação de uma nova época clássica – continuou a seu ver sem se cumprir nos anos 195053, algo que de certo modo confessa nos vários artigos em que menciona ainda a necessidade de abandono do romantismo; do mesmo modo, a sua visão histórica e palavra que tentava propagar através do ensino pareciam não se concretizar devido a uma reforma que negara o avanço do ensino musical e contrariara as suas ideias, inclusivamente a própria relevância do ensino da história54. Ou seja, tanto o modo de exposição da história da música como o lamento acerca do incumprimento dos objectivos por si definidos na reforma de 1919 manter-se-ão até à década de 1950.

Tendo os seus escritos pedagógicos praticamente o mesmo carácter ao longo do tempo, talvez o ensino ministrado por Luís de Freitas Branco não se tenha alterado substancialmente nas décadas em que acompanhou os seus muitos alunos. Embora tenha leccionado ao longo de sensivelmente quarenta anos de contacto com discípulos, logicamente, de gerações diferentes, em contextos mais ou menos oficiais ou institucionais, o modo como os conteúdos foram abordados talvez não tenha diferido – o que nos leva a crer que, apesar de possíveis diferenças significativas nas filosofias e concretizações dos seus discípulos, essas terão sido essencialmente motivadas por apreciações individuais distintas dos mesmos ensinamentos, do mesmo mestre. A conclusão de que Freitas Branco manteve essencialmente as mesmas ideias ao longo das décadas está subjacente, como já brevemente mencionado, no estudo de Manuel Deniz Silva sobre a Abertura Solene “1640” de Luís de Freitas Branco, numa análise da obra que desmente o modo como a mesma tem sido encarada como profundamente paradoxal no meio do pensamento de Freitas Branco por parecer alinhar-se com os desígnios do regime salazarista. Contudo, para Manuel Deniz Silva, “by 1940, even if he had in the meantime distanced himself from the right-wing Nationalism, his ideas had not changed radically” (Silva 2016:155), conclusão que podemos, observando os escritos do compositor da década de 1950, alargar a toda a sua vida, tanto a nível composicional, como aos níveis pedagógico e jornalístico.

53 Nos anos 1950 Freitas Branco manifesta ainda a pertinência e urgência da passagem para uma época clássica, demonstrando assim que as suas previsões dos anos 1910 não se haviam ainda cumprido: “É para esta nova fase de espírito realista e portanto clássico, anti-romântico, que se torna indispensável a nova orquestração” (Freitas Branco 1953g:131).

54 Na mesma revista, na mesma década, Freitas Branco lamenta ainda as suas tentativas frustradas de imposição de um ensino musical - o ensino da composição - baseado na consciência histórica: “Saímos do Conservatório Nacional em 1939 sem termos conseguido que o estudo da composição se iniciasse com o contraponto, sendo ministradas simultaneamente as noções de harmonia apenas indispensáveis para vir o estudo a fundo da harmonia depois de atingido pelo aluno um estágio avançado na arte polifónica rigorosa”

(Freitas Branco 1952h:22).

63