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APÊNDICE E – TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA COM GUILHERME

E, como tu falaste, me define: o que é a paz?

É tu te sentir bem consigo mesmo. Cada vez mais eu me olho no espelho e mais eu gosto do que vejo. Fiz aniversário dia 26 de setembro. Uma coisa que mudou muito foi a questão de me vestir. Usava sempre a mesma roupa, camiseta e calça jeans femininos, por que eu não podia me vestir como eu queria. Por que eu ia ser uma lésbica bem masculina, usar a roupa que eu podia usar. Hoje em dia, eu entro em loja e experimento roupa masculina, compro no masculino, o que eu não fazia.

E como é sair na rua?

Em relação a medo, eu não tenho. Mas eu sei que o preconceito e a violência estão aí. Mas eu não vou deixar de fazer as coisas pelo preconceito, pela violência que eu possa sofrer, se as pessoas se derem conta de que eu sou homem transexual. Isso não é maior que a minha vontade de sair. Eu tenho consciência, só que isso não me barra. Nem para eu ir em um estádio de futebol, um ambiente que é cheio de homem! E a gente sabe que um ambiente que é cheio de homem junto, bebendo, pode ser mais perigoso. E eu quero ir.

Essa coisa do preconceito é mais do homem?

Não acho que seja mais do homem, mas o homem pode se tornar mais violento que a mulher. Por exemplo, se eu entrar em um banheiro feminino, eu posso até sofrer olhares, mas ninguém vai me agredir lá dentro. Acho muito difícil. Agora, no masculino, o homem vai querer mostrar quem é o macho dentro do banheiro! E sobre isso, eu acho um absurdo. Eu não quero me tornar um homem como esses. É machista.

Encerramos por aqui...

Só um parêntese, sobre o meu trabalho. Está sendo muito bacana e eu estou sendo apoiado nessa transição. Eu não senti nenhuma resistência no RRHH, eu achei sensacional isso. Minha chefe disse para mim que ela tem conhecimento que eu sou o primeiro caso. E o que acho que seria interessante e que eu até estaria disposto, é que o hospital pegasse meu exemplo para pautar uma ação interna ou externa. Do tipo: "isso existe, porque nós temos um colega transexual e a gente acolheu ele, ajudou ele na transição e troca de nome". Para servir de exemplo mesmo. O que eu penso: nosso quadro de funcionários lá deve ser uns três mil funcionários. Talvez quantas pessoas têm essa mesma vontade? Talvez isso encorajasse outras pessoas. Com certeza, eles me apoiaram em tudo. Mas seria muito interessante partir deles uma atitude assim. Nós temos um jornalzinho interno, lá dentro do hospital mesmo. Por que não pegar aquele jornal e contar minha história? E mostrar para todos que o hospital apoia a causa? Só que aí me questiono: será que apoia? Eles têm que fazer isso por que eles sabem que, como empresa grande, não vão "queimar o filme deles" com funcionário. Mas não sei até que ponto é verdade ou não... eu estaria disposto a dar minha cara a tapa.

Estamos em um ponto de equilíbrio em tua vida? Ele está começando. Espero que ele se mantenha.

Se tu fosses uma pessoa que tivesse passado pela transição já e, em busca de emprego, tentasse trabalho no hospital, o que aconteceria?

Eu, com certeza, ia sentir resistência. Agora, depois da transição, se eu for buscar uma vaga no mercado de trabalho, eu acredito que vou encontrar dificuldade. Eu permaneço lá porque eu já estava lá. Pelo contexto é, acho que sim. Vejo que

muitos amigos com quem converso têm dificuldade de conseguir emprego por essa questão do preconceito. Tem, sim, bastante gente desempregada ou em empregos informais, como motoboy, pintor, azulejista etc. Uma coisa fixa e formal, alguns têm. Mas, por exemplo, eles já estavam empregados antes de “transicionar”. Um outro colega que criou o grupo que eu disse antes, ele já estava em uma empresa. Daí ele falou com o chefe dele sobre a transição e ele foi acolhido. É muito mais fácil a pessoa estar empregada, “transicionar” e permanecer, eu acho.

O problema é o depois?

É, as pessoas não querem ter que lidar com essa situação, de conviver com uma pessoa trans mesmo, porque elas não sabem como tratar da pessoa depois. Eu acho que ver o processo ameniza, porque as pessoas já te conhecem de antes. Eu não posso te dizer que seria assim, mas eu acredito que seria, pelo que eu vejo os outros falando. É desconfortável para os outros lidarem com a gente. E isso é muito pior para mulheres trans do que para homens trans.

Em que medida?

Ah, mulheres trans e travestis sofrem muito mais preconceito. Porque a sociedade entende que, desde um ponto de vista meu, parece que eu deixar de ser do gênero feminino para o gênero masculino, tudo bem. Eu estou virando homem, estou virando macho. Evoluí! O contrário, não. É como se tu tivesse te diminuindo. Eu acho que é inferiorizar-se: a pessoa vai deixar de ser macho para virar mulherzinha? É uma leitura muito pontual minha, mas eu acho que é a realidade. Tá, tudo bem tu ser lésbica... tu é “pegador”, tu "tá pegando" as mulheres, entendeu? E até aí, tudo bem. Ser gay, por exemplo, é outra coisa. Claro que gênero não tem a ver com orientação sexual, mas eu coloco assim como eu vejo que a sociedade age em relação a essas coisas. Então tu virar macho... (pausa) parece ser mais fácil.

É como se esses preconceitos conversassem, viessem juntos?