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Compadrio e a trajetória de vida entre escravos e libertos

No documento MARCELO ALBERTO PINTO (páginas 83-92)

Dos 726 batismos registrados, encontramos 68 padrinhos na condição de escravos, 29 classificados como libertos e 609 não tem suas características descritas juridicamente. A maneira encontrada nos registros para compreender a condição jurídica, era como o nome das pessoas estava registrado, e tomamos como critério que uma pessoa livre, tinha um sobrenome, diferentemente de um indivíduo na condição de escravo34. Os batismos estavam classificados como legítimos e ilegítimos, nos levou a detectar que houve a predominância de crianças do sexo masculino nos registros, questão muito mais ligada à natalidade, sem ter ligação com preferências.

O primeiro registro da década de 1860 nos apresenta o caso de Ambrosina, uma criança de dois meses, filha de pai incógnito e de Ana, escrava solteira de Pedro Siqueira Cortes. Os padrinhos são José Joaquim de Almeida, e sua mulher Maria Izabel de Belém. O vigário fez questão de apontar a ligação religiosa tanto do dono da escrava, bem como dos padrinhos, uma expressão costumeiramente utilizada nos registros paroquias na Vila de Guarapuava. Este caso é um exemplo de que os padrinhos eram livres, podemos chegar a hipótese de que o apadrinhamento, oferecia condições de alimentar a tão sonhada liberdade.

De todos os 726 batizados, além, de assumirem a mesma fé que os senhores professavam, também estabeleceram fortes laços com seus padrinhos, se colocando sob sua proteção. Já a partir de 1860 encontramos a quantia de 195 registros de batismos, número que nos interessa no período proposto neste trabalho.

34 Daniele Weirgert identificou que em Palmas, seguia esse procedimento. A autora analisou fontes, sobre as quais retratam que, a união entre escravizados, e os casos levados à pia de batismo envolvendo esses indivíduos constam somente o primeiro nome. Weigert, Daniele. Compadrio e família escrava em Palmas, província do Paraná (1843-1888) – Curitiba, 2010, p. 86-88. Sobre isso ver Nas Bênçãos de Nossa Senhora do Rosário: relações familiares entre escravos em Mambucaba, Angra dos Reis, 1830 a 1881, Dissertação de Mestrado em História-UFF, 2001.

Se antes de 1850 as relações matrimoniais encontravam maiores dificuldades, já na segunda metade do século, com a proibição do tráfico internacional e o fortalecimento do tráfico interno, pode ter favorecido a formação de famílias e de relações parentais. O que determinou a elevação do status social seja das crianças e de seus pais que ligados por relações de compadrio acendiam socialmente.

Daniele Weigert (2010) afirmou que em Palmas houve preferência por parte dos escravizados por pessoas livres. Quanto a essa escolha a autora afirma que

não se pode esquecer que em Palmas em sua maior parte era formada por pessoas livres, ademais os livres sem posse de terras certamente trabalhavam em atividades rurais, em terras de outros, e é provável que tivessem contato ao menos na lida com escravos. (WEIGERT, 2010, p. 85).

É possível afirmar que essa proximidade no local de trabalho, propiciou o interesse de formular laços familiares pelo compadrio, se levarmos em conta que mesmo na execução das atividades campeira, conseguiam desenvolver a convivência entre si.

Segundo Fernando Franco Netto (2007) em Guarapuava na Província do Paraná, nos períodos que compreendem 1850-1869 e 1870-1888 75,7% e 85,2% dos compadres e comadres eram respectivamente livres. (FRANCO NETTO, 2007, p. 302-304).

É razoável afirmar, que, os mecanismos que se valeram os escravizados, envolvem relações de poder, estratégias o que contribuíram para a formação de uma sociedade com escravos atuantes. Muito embora os escravizados, não formavam grupos coerentes o suficiente como eram os senhores, e para oporem de modo parelho com essa classe hierarquizada, precisavam negociar o tempo todo. Para Norbert Elias (2000), o grupo que está no poder, possui um alto índice de coesão e de integração, o que reserva aos membros desse grupo hierárquico, posições sociais e um poder muito mais elevado. Elias argumenta, é que grupos no poder procuram estigmatizar, aqueles que julgam inferiores, no caso dos escravizados, mesmo depois de livres, quer fossem e classificados como “preto”, “pardo”, ou “livre”, essa pessoa vai ter que carregar a vida inteira o estigma de inferiorização.

A classificação jurídica dos escravizados busca inserir o escravo numa condição jurídica antiga de distinção, mostrando que há diferença entre uma pessoa que é liberta, e outra que nasceu livre. Assim, os senhores reforçavam seu poder, fazendo com que os escravos o reconhecessem.

O compadrio amplia a dimensão social do escravizado, não se sabe em que grau de compreensão, isso era alimentado, mas não se pode negar, que essa era uma manter estratégica. Parafraseando Schwartz (2001), o compadrio pode criar laços entre o escravizado e o livre, o que significa dizer, que esses laços ligavam indivíduos socialmente desiguais. E que o compadrio era segundo o autor um primeiro motor para facilitar essas relações.

Observando a localidade de Guarapuava, e a condição jurídica e social dos padrinhos, como indicativo que aponta para o grau de representação na sociedade. Silvia Brugguer observou que:

Afinal, o padrinho, segundo a própria doutrina católica, constituía-se num segundo pai, em um com-padre: ou seja, alguém, com quem, de algum modo, se dividia a paternidade. Nada mais “normal” do que a pretensão de que esta divisão pudesse ser feita com homens situados socialmente num patamar superior e que pudessem dispor de mais recursos – não só financeiros, mas também políticos e de prestígio – para o “cuidado” dos afilhados (BRUGGER, 2007, p. 286).

De acordo com Brugguer (2007), o compadrio possibilitava ao escravizado, ampliar contatos com pessoas livre, e através desses laços, obter certo prestígio, que não só favorecia os pais, mas muito mais a crianças que recebiam maior cuidado.

Denise Vieira Demétrio (2008) estudou as famílias escravas do Recôncavo da Guanabara entre os séculos XVII e XVIII, e observou que mesmo que os casamentos e batismos fossem atos que atribuíam legalidade e legitimação de tal ato, “os assentos permanecem marcados pela particularidade e também pela memória que os padres produziam”. (DEMÉTRIO, 2008, p. 6).

Os registros eclesiásticos da Vila de Guarapuava, também foram marcados pela particularidade e memória dos padres. Em alguns casos há notas adicionais nas laterais do registro para explicar alguns detalhes, o que ajudou nossa análise, observando os registros de óbitos, por exemplo, foi possível averiguar que alguns constavam inclusive a causa da morte, a condição em que viviam a pessoas, sua condição jurídica, bem como ficou o viúvo ou viúva se fosse o caso.

Detalhes que foram observados nos registros de batismos, em que o Vigário anotava ao lado uma nota explicativa, que apontava a condição da pessoa que seria batizada. As pequenas notas serviam para mostrar em que condições, estava a criança que o proprietário então batizava. O cuidado do padre por alguma razão não explícita, ele considerou importante para o momento deixar registrada a condição do batizando.

Observe como cuidadosamente o Vigário Antonio Braz de Araújo fez o seguinte registro:

Aos vinte dias do mês de janeiro do ano de um mil oitocentos e sessenta e quatro nesta Matriz da Villa de Guarapuava baptisei, e pus os santos óleos à Theodóro inocente, nascido há doze dias, filho legítimo de Manoel de Nação, e de Lusia, crioula, escrava do Tenes Manoel Moreira dos Santos. Forão padrinhos= Pedro Jesuíno de Araûjo, e sua mulher Maria Duarte de Oliveira: Todos desta Parochia. E para constar faço este assento que assigno. O Vigário Antonio Braga de Araûjo. (Livro de Assento de batismo de Escravos- Paróquia Nossa Senhora de Belém- Guarapuava).

Nota-se que a condição do infante não é descrita, exceto que é filho legítimo, o que de certa maneira reforça a legitimidade de sua situação. Por outro lado percebe-se que a condição jurídica dos pais, ainda era de escravizados e propriedade de Manoel Moreira dos Santos.

Se para Stuart Schwartz (2001), quando estudou sobre o compadrio e família escrava na Bahia e em Curitiba, o batismo de escravos se tornou algo costumeiro, por iniciativa dos senhores, ou mesmo pelos escravizados, que, forçavam, pressionando socialmente para que se cumprisse tal ato.

A historiadora Silvia Maria Brugger (2002), analisa os desdobramentos das relações de compadrio, e como suscitou a utilização deste como mecanismo, praticado por duas vias. A autora concluiu que a relação de compadrio beneficiava a ambos, o que não pode ser visto somente como uma barganha, mas também como representatividade de capital político. Brugger afirma que:

A especificidade do compadrio talvez residisse exatamente no fato de apresentar uma grande possibilidade de extensão – uma pessoa poderia apadrinhar um número infindo de afilhados, incorporando à sua parentela inúmeras unidades familiares – e, ao mesmo tempo, permitir que se criassem sólidos vínculos entre pessoas das mais diferentes condições sociais, que passavam a se reconhecer como parentes. Por outro lado, entre eles não haveria qualquer implicação de ordem patrimonial, como ocorria, por exemplo, no estabelecimento de alianças matrimoniais. O afilhado, embora pudesse ser beneficiado pelo padrinho, não era seu herdeiro necessário. Por isso, a rigor, ninguém em princípio teria motivos para recusar um apadrinhamento. Pelo contrário, ter afilhados era um “capital” político importante. (BRUGGER, 2002, p. 325).

As alianças formadas entre escravos e libertos na Guarapuava do século XIX, seja através da formação da família escrava ou de laços de compadrio e amizade, permite

pensar na vida comunitária desses indivíduos, e como eles viviam e partilhavam de experiências em vários espaços sociais.

Quando analisamos as brechas nos registros de batismos na primeira metade do século, é possível inferir que, muitas relações socio-afetivas, foram tecidas por sujeitos que compartilhavam da mesma base senhorial. Ao que parece, esses sujeitos queriam reconstruir na escravaria, a consciência da vida em comunidade, mesmo que em condições desfavoráveis, com isso tecer as redes de sociabilidades, desta forma promovendo a vivência comunitária.

Fernanda Gomes Rocha (2016) estudou os laços de família em Rio das contas na Bahia. A historiadora afirma que:

Seja como for, o batismo era utilizado como um instrumento de purificação e inserção do pagão na comunidade cristã e foi o primeiro sacramento religioso católico concebido aos africanos e crioulos escravizados no Brasil. Para esses sujeitos, o sacramento do batismo ultrapassou os significados estabelecidos pela Igreja Católica e os limites do cativeiro, especialmente, por possibilitar fortalecer laços sociais, relações de amizade, solidariedade e reciprocidade. (ROCHA, 2016, p. 103).

Veja, por exemplo, o caso de um registro de batismo, composto por escravos apadrinhando a criança.

As quatro dias do mês de septembro do ano de mil oitocentos e cincoenta e seis, nesta Matriz da Villa de Guarapuava baptisei solenemente, e pus os santos óleos à Moncórso, inocente de seis meses de idade, filho de pai incógnito e de Eufrásia, crioula, escrava solteira do Majór Antonio de Sá Camargo. Forão padrinhos= Maximiliãno, escravo de Manoel Ferreira de Almeida, e Rita, escrava do mesmo Majór de Sá Camargo= todos fregueses desta Paróchia. Do que para constar faço este assento, que assigno-O Vigário Antonio Braga de Araújo. (Livro de Assento de Batismo de Escravos- Paróquia Nossa Senhora do Belém, 1856).

A transcrição do registro acima é um caso em que os padrinhos são escravos da mesma paróquia, e pode servir de exemplo para compreender que uma possibilidade, seria a reconstrução e manutenção da comunidade escrava dentro da mesma propriedade. Quando analisamos os registros a partir da década de 1860, encontramos diferenças, antes a formulação de parentesco estava muito mais voltada para uma melhor condição de sobrevivência, depois, aliado a isso tem o forte desejo pela liberdade. As políticas de caráter abolicionistas estão em discussão, o que se torna um elemento importante, e fortalece o desejo dos escravizados pela liberdade.

Na obra de Slenes (1999), Na Senzala uma Flor, parafraseando o autor, os escravos e suas estratégias, nos permite a tentativa de entender, as várias formas de organização familiar, nas diversas regiões do tempo do Brasil escravista. Elas apontam para as recordações, e as esperanças alimentadas pelos escravizados.

Verificamos na localidade de Guarapuava, que buscar laços de compadrio foi uma brecha encontrada pelos escravizados, mesmo dentro da formalidade necessária, ampliar o contato com o mundo externo ao cativeiro. Alguns estudos apontam as considerações em torno da escolha dos padrinhos feita pelos escravizados, conforme afirma Schwartz (2001, p. 277) por exemplo, deduziu que “(...) os padrões de seleção indicam uma participação considerável dos próprios escravos na escolha dos padrinhos de batismo”. A análise do autor mostra um dado relevante em sua pesquisa, que é a escolha dos padrinhos recair sobre um indivíduo de outro plantel.

Embora, em nossos esforços para interpretar as fontes, outros entendimentos sejam possíveis, elas nos sinalizam, por exemplo, também, que os escravos desejavam seguir certos padrões de sociabilidade, procurando através do compadrio, serem membros de uma família.

No entanto no caso de Guarapuava, as escolhas dos padrinhos recaiam sobre os proprietários e, em menor proporção, sobre os escravizados. Compreendemos que a presença de um padrinho como parte da família, podia representar uma opção política, uma aliança. Mas, também, o desejo de criar laços familiares. É o caso, por exemplo, do batizado da inocente Clementina, filha de Rita, escrava de João Simão Gonçalves dos Santos. Nesse caso, o padre não anotou qualquer descrição, se Rita teve companheiro e nem informação sobre o pai da criança. O batizado foi realizado na matriz da Vila de Guarapuava, em 10 de abril de 186535. Não há nada que indique sobre algum tipo de união de Rita, e a escolha recaiu sobre Caetano dos Santos, liberto e solteiro, tendo como madrinha Josefa, escrava de Dona Zeferina de Almeida.

No assento de batismo de Clementina, é possível analisar alguns vestígios da vida familiar desses sujeitos, e as relações que, formalizadas pelo batismo, sacramentavam o ato, demonstravam, por um lado, a vida religiosa com a inserção da criança na vida católica e em seus rituais; de outro modo, o batismo possibilitava uma nova interpretação social, pois, por meio dele, os escravizados teciam suas redes ampliando

as possibilidades pelos laços que constituíam no batizado, assim fortalecendo os laços com os padrinhos e madrinhas.

A mãe de Clementina procurou formalizar laços de amizades, e afetividades mantidas com a vizinhança e com pessoas livres. Vivência de Rita, escrava permite perceber como que no batismo as ações dos escravizados permitiu construírem suas histórias no cativeiro, convidando comadres e compadres, para assim manterem relações fora das escravarias. Rita convidou Josefa, escrava de outra propriedade o que nos levou a pensar que Rita desejava em parte obter o mesmo tratamento dado a Josefa por parte de sua senhora, já a escolha do padrinho, podemos inferir que, foi a construção de uma relação vertical, pois o apadrinhamento feito por um livre, permitia ao filho acessar outros estratos sociais que o pai talvez nunca poderia conseguir.

A representação do sacramento do batismo reforçava a intenção e legitimava o desejo dos escravizados. Stuart Schwartz (2001, p. 266) afirmou que “podiam ser usados, para reforçar laços de parentescos já existentes, solidificar relações com pessoas de classe social semelhante ou estabelecer laços verticais entre indivíduos socialmente desiguais”.

Em Caminhos Cruzados, tese de doutorado de Silmei Petiz (2009), o historiador analisou o Oeste do Rio Grande do Sul, analisou que as formas de apadrinhamento dali, diferentes daquelas estudadas por Slenes (1999), Gudeman (1988) e Schwartz (1988). Na análise, Petiz observou que as possíveis combinações em que ambos são escravos, eram um pouco maiores frente aos livres. Salvos algumas características e detalhes menores ocorridos, pesava como importante para aquela sociedade, de que o apadrinhamento ocorresse com mais frequência entre os próprios escravizados. No caso do estudo de Silmei Petiz (2009), mostra que os pais escolhiam os padrinhos e madrinhas para os filhos, e, que independia da condição de a criança ser filho legítimo ou ilegítimo, e que a escolha, estava associada ao status. Em que, sua maioria, as relações sociais ou as redes que esses indivíduos iam tecendo, possibilitada ascensão, mas não só isso, essas redes ampliavam para além dos escravizados, chegando aos forros e livres.

A tentativa dos escravizados era de criar seus próprios espaços de liberdade, e pelos detalhes aqui apontados, encontrar um caminho que viabilizasse a construção de um espaço, que no mínimo desse à eles condições de sobrevivência e sonhar com a liberdade. Essas características evidenciam que eles, ao longo de todo o século XIX, criaram redes de solidariedade entre si e seus parentes. Na localidade de Guarapuava,

circularam por toda a Vila, onde podiam encontrar seus parentes, criar laços de amizades e familiaridade, como o compadrio.

É possível afirmar que aquela ideia há muito sustentada pela historiografia de uma comunidade escrava homogênea, foi quebrada. Observar o escravo somente como mercadoria, poderia permitir ao historiador resolver seus problemas teóricos e metodológicos em analisar o escravizado com condições de agir, mas limitado em parte no campo de sua inteiração. Ainda que as relações familiares e o compadrio em alguns casos tenham sido elementos de análise, para muitos ficou restrito a um determinado campo, que muitas vezes deixou de levar em conta a capacidade desse indivíduo que, mesmo sujeito às vias horizontais, foram capazes de crias suas verticalidades com sujeitos fora do mundo dos escravizados.

Para Denise Aparecida da Silva (2004) em seu estudo sobre escravidão na localidade de Joinville, para ela o compadrio traz os seguintes resultados “como já se discutiu o batismo se apresentou como uma rica oportunidade aos cativos para instruir e ampliar as relações sociais tanto com seus parceiros como com os homens livres” (SILVA, 2004, p. 80).

As ações dos escravizados na localidade de Guarapuava podem ser compreendidas na construção das redes de sociabilidades entre escravizados na localidade de Guarapuava, que pelo compadrio, como um elemento importante para alimentar senão do próprio escravo, o sonho de uma condição melhor para os filhos no futuro.

Conforme observamos alguns estudos, a relação de compadrio em Guarapuava segue algumas características diferentes, o que a historiografia parece não ter levado em conta. A presença de números tão altos de proprietários batizando seus escravos, o que nos leva a inferir que em Guarapuava, houve uma maior aproximação dos senhores com seus escravos, a ponto de exercerem uma espécie de cuidado paternal. Muito embora desconfiemos disso na análise das fontes, pois se considerarmos os mecanismos políticos a favor da libertação dos escravos, essa foi mais uma estratégia dos proprietários de manterem esses indivíduos debaixo de um “cuidado” coercitivo.

A complexidade para compreender a relação de compadrio pode estar associada a relação populacional de determinada localidade. Em alguns casos, os escravizados podem ter buscado muito mais manter e aumentar as relações entre os próprios escravizados, o que difere em Guarapuava, se levarmos em conta as características do

local, em que os escravos, como afirmamos, buscavam tecer teias de sociabilidades com pessoas livres.

Franco Netto sustenta que havia dificuldade de encontrar padrinhos e madrinhas com a mesma condição jurídica, o que vai comprovar que os escravizados procuravam amenizar, ou mesmo vencer as dificuldades buscando padrinhos na condição de cativos; ou seja, quanto maior a propriedade, também era maior a probabilidade de maior número de padrinhos livres, como foi a tendência em Guarapuava. O compadrio se revelou, nesse caso, como um fio condutor para entender, através das leituras dos documentos, as estratégias nas relações sociais dos escravizados desta localidade, haja vista as enormes barreiras que dificultavam os arranjos sociais fora do cativeiro com pessoas livres.

A quantidade expressiva de batismos nos dá um número de 3,5 batismos por proprietário, considerando que, dos 726 atos registrados, são 206 os proprietários. Esses dados comparados, com os inventários, nos levam a pensar na hipótese de quantas crianças estavam nascendo, e levantar o número médio de crianças em cada plantel. É claro que essa é uma hipótese, pois é preciso considerar, como já observamos, que em

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