5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.3. Conformação por spray em escala industrial
5.3.4. Comparação entre os processos em escala experimental e
Fe43.2Co28.8B19.2Si4.8Nb4, objeto desse trabalho, também foi processada
por Triveño Rios [37] por conformação por spray utilizando o equipamento experimental do laboratório de fundição da UFSCar. O material foi depositado sobre um substrato de aço rotativo de formato circular e 10 mm de espessura sem aquecimento, gerando um depósito com ~16 mm de altura, apresentado uma região totalmente amorfa com ~2,5 mm de espessura formada na periferia do depósito em contato com o substrato. As porções intermediária e central do depósito apresentaram microestrutura composta de fases cristalinas embebidas em matriz amorfa e fases totalmente cristalinas respectivamente, como já apresentado na figura 2.29 (ver página 38). Esses resultados são comparáveis aos reportados em outros trabalhos referenciados na bibliografia envolvendo a obtenção de estrutura amorfa em diversas ligas a base de Ferro [4,7,36,37]. Nesses estudos, realizados com o mesmo equipamento, embora os
pós de overspray tenham apresentado frações de 30 a 100% de fase amorfa nas diversas faixas granulométricas analisadas, apenas uma pequena parcela dos depósitos obtidos apresentou formação dessa fase, sendo esta representada pelas suas porções periféricas e em contato direto com o substrato. Em regiões próximas a porção central dos depósitos e mais distantes do substrato (maior espessura), fases cristalinas são formadas em detrimento da manutenção da fase amorfa presente nas gotas do spray.
Por outro lado, depósitos de ligas a base de alumínio apresentadas na bibliografia desse trabalho e processadas em ambos os equipamentos, industrial e experimental, apresentaram resultados semelhantes entre si, com fração volumétrica de fase amorfa que variou de porcentagens insignificantes até uma ordem de 47% a 84%, dependendo das condições de processamento e da tendência de formação de fase amorfa (GFA) de cada liga [8, 22, 44].
Essa diferença significativa na fração volumétrica de fase amorfa entre as ligas a base de alumínio e de ferro deve-se principalmente:
- Ao menor ponto de fusão das ligas de alumínio em detrimento das de ferro, diminuindo enormemente a quantidade de energia térmica a ser extraída das gotas pelo gás de atomização e do depósito por condução e convecção; - A maior condutividade térmica das ligas a base de alumínio, aumentando a extração de calor das gotas e do depósito em detrimento às ligas de ferro; - A menor densidade das ligas de alumínio comparadas as de ferro, permitindo obter, para uma mesma vazão de gás, uma maior razão mássica entre gás e metal (RGM), parâmetro determinante na formação e solidificação das gotas que formam o depósito.
Com relação às ligas a base de ferro, a principal dificuldade no seu processamento é a manutenção da estrutura amorfa presente nas gotas do spray tanto durante seu vôo, quanto durante a deposição e resfriamento. Nesse caso, os parâmetros e condições de processamento reportados na literatura, não foram suficientes para evitar a formação de fases cristalinas nos depósitos quando a espessura dos mesmos extrapolasse 1-2 mm, dada a baixa eficiência da extração de calor tanto pelo substrato circular, quanto pelo gás de atomização, não sendo capazes de manter a temperatura do material abaixo
da temperatura de cristalização (Tx). A tabela 5.3 sumariza os resultados reportados na literatura para as ligas a base de Al e Fe e os obtidos para todos os depósitos desse trabalho, tomando como base de comparação a RGM e os tipos de substrato/condições de processamento de cada liga.
Tabela 5.3: Comparação da fração volumétrica e da espessura máxima de fase amorfa obtidas para diversas ligas a base de Ferro e Alumínio processadas por conformação por spray em diversas condições. Fa é a fração volumétrica de fase
amorfa presente no depósito e e é a espessura obtida em milímetros.
Liga (mRGM 3/kg) Substrato Movimento (mm) e (%) Fa Região do depósito Fe43.2Co28.8B19.2
Si4.8Nb4
Depósito 1 2,24
Cilíndrico
aquecido longitudinal Rotação e 2,5 1 - 6,7- 20
Em contato com o substrato Fe43.2Co28.8B19.2 Si4.8Nb4 Depósito 2 2,34 Plano aquecido Longitudinal 2,5 1 - 6,7- 20 Em contato com o substrato Fe43.2Co28.8B19.2 Si4.8Nb4 Depósito 3 2,26 Cilíndrico
aquecido longitudinal Rotação e 2 – 4,0 8,5 – 85,5 Diversas regiões Fe43.2Co28.8B19.2 Si4.8Nb4 [37] 0,94 Circular frio Rotação 2,5 1- 15,6** 6,2- Periférica/em Contato com o substrato Al85Y8Ni5Co2
[44] 4,7 aquecido Longitudinal 5,7* Plano 47,6 Diversas regiões Al83Y5La5Ni5Co2
[44] 6,7 aquecido Longitudinal 8,9* Plano 74,6 Diversas regiões Al84Y3Ni8Co4Zr1
[8, 22] 8,7 Circular frio Rotação — 0,0 — Al85Y8Ni5Co2 [8] 10 Circular frio Rotação — 76,0 Diversas regiões
Al85Y8Ni5Co2 [8] 6,4 Circular frio Rotação 0,0 0,0 —
Fe63Nb10Al4Si3B20
[36] 0,25 Circular frio Rotação 1,0 —
Periférica/em Contato com o substrato Fe83Zr3.5Nb3.5B9Cu1
[4] 0,23 Circular frio Rotação 1,0 —
Periférica/em Contato com o substrato Fe66B30Nb4 [7] 0,48 Circular frio Rotação 0,5 10,6
Periférica/em Contato com o substrato
* valor calculado com base na espessura de 10-12 mm obtidas nos depósitos. ** valor calculado com base na espessura máxima de 16 mm do depósito.
De acordo com a tabela 5.3, fica evidente que a mudança de parâmetros, como o aumento da RGM e facilidades como a possibilidade de mudança da posição do substrato em relação ao cone de spray e também da rotação do substrato sobre seu eixo, no caso de substratos cilíndricos, aumentaram muito a extração de calor do depósito por convecção, além do pré-aquecimento do substrato, que promoveu maior interação entre este e o material, levando a maior extração de calor dos depósitos por condução, gerando resultados muito mais expressivos que os reportados pela literatura, resultando na obtenção de estrutura amorfa em todos os depósitos obtidos, sendo mais pronunciada no depósito 3, que apresentou frações dessa fase da ordem de 8% a ~84% com espessura mínima de 2 mm e máxima 4 mm, dependendo da posição no substrato, resultados que contribuem no desenvolvimento de vias alternativas às técnicas tradicionais de processamento de ligas amorfizáveis com alto ponto de fusão e baixa condutividade térmica, como a liga em estudo.