É possível comparar as informações disponibilizadas pela PNAD com os dados do levantamento feito pelo IEA / CATI ? Quais dessas duas bases de dados estariam revelando as condições reais sobre o valor da remuneração dos empregados na cana-de-açúcar, comparativamente com os de outras lavouras?
Para buscar respostas a essas questões, é necessário considerar a importância da operação de colheita para a geração total de empregos, e a duração desta atividade em cada cultura.
A cana-de-açúcar é uma cultura intensiva em mão-de-obra com uma distribuição de demanda nas várias fases do processo produtivo bastante concentrada na colheita. Pelas
informações disponíveis para meados da década de 1990 (safra 1995/96), verifica-se, na Tabela 24, que a colheita concentra 83% da necessidade de mão-de-obra comum. Pode-se dizer, então, que parte significativa da mão-de-obra não especializada empregada na lavoura da cana-de-açúcar concentra-se nas operações de corte manual.
Tabela 24 - Percentual de dias-homens utilizados nas lavouras de cana-de-açúcar. Estado de São Paulo, 1995/96
1995/96 Operação
Manual Mecânica
Preparo do solo 0,9 22,2
Plantio e adubação 7,7 28,3
Tratos culturais 8,4 32,3
Colheita 83,0 17,2
Total 100,0 100,0
Fonte: IEA apud Gonçalves (1999, p. 78)
Como o dado da PNAD é o rendimento mensal da atividade principal do empregado, para facilitar a comparação o valor da remuneração diária na empreita de colheita de cana, obtida dos dados do IEA / CATI, foi multiplicado por 25. Ressalta-se que a colheita da cana é realizada nos meses de abril a dezembro de cada ano, e é razoável admitir que os empregados no corte trabalham cerca de 25 dias úteis por mês. Os resultados que estão no Gráfico 37 mostram que as remunerações mensais obtidas das duas fontes são muito próximas no período 1995-1999. De 1999 a 2003 os dados da PNAD apresentam tendência de queda, enquanto os dados do IEA indicam crescimento. De 2003 em diante as duas fontes apresentam trajetória de crescimento do rendimento mensal do trabalho.
Vale lembrar que, para comparar os dados sobre remuneração do trabalho na colheita obtidos pelo IEA com os dados da PNAD, procurou-se considerar, na PNAD, apenas os trabalhadores agrícolas não especializados empregados em lavouras no estado de São Paulo, conforme discussão presente na subseção 4.2.1.
550,46
1995 1996 1997 1998 1999 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
R$
PNAD IEA/CATI
Gráfico 37 - Evolução do rendimento médio mensal do trabalhador agrícola na lavoura da cana-de-açúcar, conforme os dados da PNAD, e da remuneração mensal obtida na colheita por empreita, de acordo com os dados do IEA/ CATI. São Paulo, 1995 a 2007
Fonte: IBGE (1992 - 2007) e IEA (vários anos)
A laranja é outra cultura bastante intensiva em mão-de-obra, com concentração da demanda no processo de colheita. De acordo com Amaro et al. (2001), a colheita absorve em média 79,6% do total de dias-homem exigido pela cultura nas condições paulistas (Ver Tabela 25). Só que, segundo Baptistella et al. (1999), a safra da laranja se estende de maio a dezembro, mas tem como principal período de colheita os meses de setembro a novembro de cada ano. O período com atividade intensa de colheita é inferior a 3 meses. A necessidade de colher os frutos maduros dentro de um prazo relativamente curto reduz o poder de barganha dos produtores ao contratar os trabalhadores.
Tabela 25 - Percentual de dias-homens utilizados durante o ano agrícola nas lavouras de laranja.
Estado de São Paulo, 1997/98
Operação %
Preparo do terreno 0,4
Plantio e adubação 1,3
Adubação em cobertura 1,8
Tratos culturais 16,8
Colheita 79,6
Total 100,0
Fonte: IEA apud Amaro et al. (2001, p. 39)
Cabe destacar que, até a safra 1995/96 o produtor geralmente vendia a produção no pé e a indústria compradora se encarregava da contratação da empreita. Mas, a partir de então, segundo Amaro et al. (2001), a administração da colheita e o transporte da fruta dos pomares para as fábricas de suco passou a ser integralmente de responsabilidade dos produtores. Anteriormente, a indústria empregava pessoas e descontava dos produtores os custos incidentes e previamente fixados nos contratos de compra e venda da fruta. Essa é uma das maiores mudanças registradas na citricultura paulista nas últimas décadas 28.
Para confrontar os dados do IEA / CATI com os da PNAD, é preciso considerar que existe certa integração entre os mercados, de modo a não existir muita diferença no pagamento pela empreita da colheita de laranja e de outras frutas cítricas. Assim, as informações sobre remuneração dos empregados na citricultura29 obtidas pela PNAD serão comparadas com os valores das empreitas dos citros (laranja, tangerina e limão).
O Gráfico 38 apresenta a evolução do pagamento por empreita na colheita de laranja, limão e tangerina e o rendimento mensal do trabalho dos empregados na citricultura do estado de São Paulo.
Verifica-se que, quando multiplicados por 25 dias de trabalho, os valores estimados das empreitas de laranja e outros citros são bem mais elevados do que o valor do rendimento mensal dos trabalhadores na citricultura obtido na PNAD.
28Para maiores detalhes ver Amaro (1997) e Amaro et al. (2001).
29 O código V9906=1112, correspondente à atividade desenvolvida em empreendimentos cuja atividade principal é a a laranja, inclui também atividades ligadas à culturas de limão, tangerina, ponkan e citros em geral.
456,93
CITRUS PNAD LARANJA - IEA TANGERINA - IEA LIMÃO - IEA
Gráfico 38 - Evolução do salário mensal do empregado na lavoura de citricultura, conforme os dados da PNAD, e da remuneração diária obtida na colheita de laranja, limão e tangerina, de acordo com os dados do IEA / CATI. São Paulo, 2002 a 2007
Fonte: IBGE (1992 - 2007) e IEA (vários anos)
O valor da remuneração diária das pessoas empregadas na citricultura obtido da PNAD de 2007 corresponde a 54,5%, 59,5% e 65,2% do valor diário das empreitas na laranja, na tangerina e no limão, respectivamente, conforme as informações do levantamento do IEA.
No caso café, por se tratar de uma cultura que exige cuidados permanentes, e de a colheita ser predominantemente manual, há forte demanda por mão-de-obra ao longo do ano agrícola, em várias etapas do ciclo produtivo. Segundo dados do trabalho de Veiga et al. (2001), o número de empregados permanentes nesta cultura no estado de São Paulo na safra 1999/2000 é de 70.323, sendo 82% contratados como mensalistas30.
No período de colheita, realizada no período de abril a setembro de todo ano, também é contratada a mão-de-obra temporária, e esta geralmente é remunerada diariamente. A respeito da importância da colheita, constata-se, na Tabela 26, que na safra 1997/98 esta operação absorveu 72,6% do total de dias-homem ocupados na cafeicultura paulista. Já na safra 2004/05, a colheita
30 O mensalista é o trabalho assalariado fixo, encarregado dos serviços gerais, ou seja, dos tratos culturais, do manejo, do preparo da secagem, etc. (VEIGA et al., 2001, p. 8).
correspondeu a 89,1% do total de dias-homem ocupados.
Veiga et al. (2001) afirmam que a colheita é a operação que mais emprega mão-de-obra comum no café. Os autores também dizem que várias modalidades de colheita estão disponíveis ao segmento, o que permite ao produtor decidir entre colheita manual, manual/ mecânica e estritamente mecânica.
Segundo trabalho mais recente de Vicente et al. (2007), na safra 1997/98 a colheita manual foi efetuada em 94,0% do total de pés colhidos, e em 2004/05 este tipo de colheita representou 75,6% da colheita total da lavoura cafeeira paulista. Trata-se de um indicador importante para evidenciar a evolução das técnicas adotadas nas operações agrícolas do café
Tabela 26 - Percentual de dias-homens utilizados durante o ano agrícola nas lavouras de café.
Estado de São Paulo, 1997/98
Operação 1997/98 2004/05
Preparo do terreno 0,6 0,2
Plantio e adubação 1,6 0,8
Adubação em cobertura 2,8 2,6
Tratos culturais 22,4 7,3
Colheita 72,6 89,1
Total 100,0 100,0
Fonte: IEA / CATI apud Vicente et al. (2007, p. 3)
Comparando as séries de dados da PNAD e do IEA sobre o valor da remuneração do empregado na lavoura de café, constata-se a grande disparidade entre o salário mensal e o pagamento pela empreitada na colheita (Ver Gráfico 39).
955,52
1995 1996 1997 1998 1999 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
R$
CAFÉ EM COCO - IEA CAFÉ CEREJA - IEA CAFÉ-PNAD
Gráfico 39 - Evolução do salário mensal do empregado na lavoura de café, conforme os dados da PNAD, e da remuneração diária obtida na colheita de café cereja e café em coco, de acordo com os dados do IEA/ CATI. São Paulo, 2002 a 2007
Fonte: IBGE (1992 - 2007) e IEA (vários anos)
Veiga e Baptistella (2007) afirmam que a colheita de café constitui-se como a operação de maior peso no custo total de produção, justamente pelo emprego de grande contingente de mão-de-obra volante, cuja remuneração tende a ser mais elevada em virtude da dificuldade de arregimentação de mão-de-obra. O período de admissão de pessoas coincide com o período de pico de demanda por mão-de-obra temporária de outras atividades agrícolas.
Assim, a análise das duas bases de dados investigadas mostra que não é possível separar, nos dados da PNAD, especificamente a remuneração das pessoas empregadas no processo de colheita da cana-de-açúcar, do café e da citricultura. Os resultados indicam que, de fato, os apanhadores de café (em coco ou cereja) recebem remunerações mais elevadas do que os cortadores de cana. Mas, quando considerados todos os trabalhadores não especializados, incluindo empregados em outras operações agrícolas, a remuneração na cana-de-açúcar é a mais elevada.