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Comparativo das safras de soja de 1999/00 e 2004/05

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3.1.2 Estratégias produtivas em áreas de fronteira agrícola

A dinâmica do desenvolvimento da agricultura no Cerrado e na Amazônia não se refere apenas a questões econômicas, mas possui relação com as dimensões política, social e cultural regionais. Partindo desse pressuposto, Fernández (2007) mostra-nos que a migração gaúcha para o Sul do Mato Grosso, por exemplo, não possui uma relação causal direta com a atividade sojícola. A aquisição das terras foi estimulada pelas políticas e programas de colonização do governo federal e à medida que os gaúchos foram se estabelecendo as condições produtivas se tornaram favoráveis ao cultivo da soja.

Para refutar a costumeira idéia de que a chegada dos gaúchos no Cerrado deu início à atividade sojícola, ou o contrário, Fernández (2007) analisa as condições em que ocorreu a migração de famílias de colonos para o Mato Grosso. Ao mapear a trajetória dos diferentes grupos, para identificar suas regiões de origem e as estratégias que definiram as áreas em que adquiriam terras no Estado, o autor observa que há um padrão corrente entre os colonos, venda da propriedade no Rio Grande do Sul e utilização dos recursos para comprar novas terras e iniciar o preparo do solo.

No Rio Grande do Sul, os efeitos da operação tatu – que consistia na prática de sulcar profundamente o solo para a aplicação de calcário e adubo, foi um grande estímulo estatal ao desenvolvimento de atividades agrícolas modernas, orientadas pela mecanização e uso de corretivos, adubos, insumos e defensivos – e o consórcio entre o trigo (inverno) e a soja (verão), promoveram alterações na estrutura fundiária, concentração da terra e, consequentemente, a migração se tornou uma saída (FERNÁNDEZ, 2007).

Os colonos gaúchos que migraram para o Mato Grosso, com a finalidade de ampliar suas atividades agrícolas, compraram as terras através de colonizadoras particulares ou de terceiros. As terras públicas e devolutas foram pouco requeridas pelos colonos, visto que parte dessas áreas já havia sido regularizada pelas colonizadoras, empresas e grileiros. O processo de regularização de terras devolutas era estimulado pelo governo do Estado, para atrair incentivos fiscais concedidos pelo governo federal às empresas que atuassem na Amazônia Legal (FERNÁNDEZ, 2007).

Para Fernández (2007), a expansão da soja no Cerrado em direção à Amazônia foi um processo social desencadeado pela relação entre concentração da posse da terra no Rio Grande do Sul, decorrente da modernização da agricultura, e das ações implementadas pelo governo federal, programas de desenvolvimento agrícola e colonização do Cerrado e da Amazônia,

destinados à ocupação de áreas com baixa densidade demográfica no Centro-Oeste e Norte do Brasil.

3.1.3 A institucionalização da soja transgênica

A partir dos anos 1990, o cultivo da soja no Brasil adquiriu importância econômica e política, em virtude do crescimento da demanda interna e externa. A Europa passou a demandar uma quantidade maior de soja para alimentação bovina – depois da crise da vaca louca do final da década de 198041 – porque os rebanhos não poderiam mais ser alimentados com restos de animais, responsáveis pela transmissão da doença; e para a alimentação humana, muitos europeus substituíram o consumo de carnes pela proteína de soja (CASTRO, 2006).

Associado ao crescimento da demanda européia pela oleaginosa, seja para alimentação animal, seja para alimentação de seres humanos, tem-se a entrada da China no mercado consumidor internacional. Mesmo sendo um dos maiores produtores mundiais, a China se tornou um dos maiores importadores, visto que a soja é um dos principais alimentos da dieta da numerosa população (CASTRO, 2006; BICKEL, 2003). A junção dos fatores estimulou pesquisas no Brasil para o desenvolvimento de cultivares de soja mais resistentes e programas privados de engenharia genética que permitissem o aumento da produtividade.

As discussões internacionais sobre transgênicos ganham forma no ano de 1994, quando um acordo costurado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), conhecido como rodada do Uruguai, formalizou um novo modelo de proteção jurídica da propriedade intelectual, que orientava os países membros a adequarem suas legislações as novas regras e atribuía à OMC a responsabilidade de monitorar o seu cumprimento e caso necessário aplicar sanções aos países que desrespeitassem o acordo internacional.

A porta de entrada para as novas biotecnologias no Brasil foi a adequação de sua legislação nacional à rodada do Uruguai, mediante a sanção, em abril de 1997, da Lei 9.456, a Lei de Cultivares e Patentes (GARCIA, 2002), que abriu caminho para as empresas multinacionais de biotecnologia ampliarem suas atividades no país. A Lei 9.456 estabeleceu que as empresas poderiam desenvolver novos cultivares e poderiam registrá-las no MAPA e, assim, garantir os direitos comerciais do produto.

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Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), vulgarmente conhecida como doença da vaca louca, teve seu primeiro caso confirmado em 1986 na Europa (CASTRO, 2006). A doença não possui cura, é de difícil diagnóstico e pode ser transmitida aos seres humanos.

83 As implicações da liberação para o desenvolvimento de cultivares transgênicos de soja foram muitas. Segmentos organizados da sociedade civil, órgãos ambientais e de defesa do consumidor entraram na justiça, no final dos anos 1990, contra o plantio de grãos geneticamente modificados, porque não se sabia quais os impactos poderiam ser causados na natureza, e contra a utilização destes grãos na produção de alimentos e contra o plantio. Além disso, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) destruiu lavouras de soja transgênica no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

No início dos anos 2000, várias cidades brasileiras proibiram a produção e venda de produtos transgênicos. Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC) aprovaram leis em 2000, exigindo a retirada imediata dos estabelecimentos comerciais de produtos feitos a partir de transgênicos. Em 2001, o prefeito de Porto Alegre (RS) sanciona lei que exige que todos os produtos elaborados com qualquer quantidade de material geneticamente modificado deveriam fornecer a informação no rótulo. Nos anos seguintes, outras cidades também elaboraram leis semelhantes.

A soja transgênica começou a ser plantada no Rio Grande do Sul, e do Estado vinham os principais argumentos em defesa do seu cultivo. Os agricultores defensores da soja transgênica assinalavam que a principal vantagem era a redução dos custos produtivos. A soja convencional necessitava de 3,75 kg de agroquímicos por hectare, ao passo que a soja transgênica requeria apenas 1,44 kg por hectare. Além disso, a soja transgênica representava um aumento da produtividade, porque não divide os nutrientes do solo com plantas daninhas.

Os argumentos contrários ao cultivo da soja transgênica se pautam no fato da produtividade da soja convencional ainda ser maior que a transgênica, por hectare plantado, e que estudos em Palmeira das Missões (RS) mostraram que o principal cultivar de soja transgênica, Roundup Ready (RR) da Monsanto, está produzindo super-ervas-daninhas, o que acaba aumentando o uso de herbicidas. Outro argumento contrário é que o cultivo de soja transgênica pode representar o desaparecimento da soja convencional devido o contato com máquinas agrícolas utilizadas em lavouras transgênicas.

3.2 ATIVIDADE SOJÍCOLA E MUDANÇAS SOCIOAMBIENTAIS NO CERRADO E NA AMAZÔNIA LEGAL

O Estado desempenhou papel fundamental para o estabelecimento e desenvolvimento da soja no Cerrado e na Amazônia (GIORDANO, 1999; BICKEL, 2003; FERREIRA, 2004; ALVES; 2006; DALL’AGNOL, 2007; LIMA e MAY, 2008; FERREIRA, 2008; ANDRADE,

2008) através de políticas de desenvolvimento agrícola e de programas de colonização. O PRODECER, por exemplo, promoveu o assentamento de agricultores considerados

experientes do Sudeste e Sul do Brasil para assegurar uma fonte alternativa de soja aos

japoneses e modernizar a agricultura no Cerrado (SCHLESINGER, 2006).

Os investimentos governamentais em infraestrutura contribuíram para o desenvolvimento da sojicultura na região amazônica. A pavimentação da BR-163, no Pará, foi essencial para a expansão da soja a partir do Mato Grosso e do Maranhão. O baixo custo para o escoamento da produção de grãos do Mato Grosso pelo Porto da Cargill, em Santarém (PA), e sua articulação com o Porto de Itacoatiara (AM), contribuiu para que grandes grupos compradores e processadores de grãos se instalassem na região Norte, estrategicamente na calha do rio Amazonas: ADM, Bunge, Cargill e Maggi (ARAÚJO et al., 2008).

O Pará é um dos Estados brasileiros que vem apresentando maior crescimento do plantio de soja. Com o estabelecimento do terminal graneleiro da Cargill, em Santarém, as grandes empresas produtoras de grãos passaram a se interessar pelas terras do planalto santareno. A logística para o transporte da soja na Amazônia utiliza rodovias até Porto Velho e balsas, passando pelo Porto de Itacoatiara (AM) até o Porto de Santarém (PA). Esse sistema multi-moldal representa uma diminuição de 1.000 km em relação ao Porto de Paranaguá (PR). O avanço da soja no planalto santareno representou um intenso processo de valorização das terras cultiváveis e a concentração de terras compradas ou griladas. Por outro lado, o cultivo da soja não representou um aumento do desmatamento, porque as áreas plantadas já eram utilizadas na atividade pecuária. Entretanto, a expulsão dos pequenos produtores de suas terras e a capitalização de madeireiros implicou na formação de novas frentes de desmatamento (ARAÚJO et al., 2008).

À medida que a soja avançava sobre o Cerrado e a Amazônia Legal deixava um rastro de desmatamento nas florestas tropicais nacionais:

A expansão da soja na região de floresta amazônica do Estado do Mato Grosso é, por certo, a maior responsável pelo número recorde de 26.130 quilômetros quadrados de desmatamento da Amazônia entre agosto de 2003 e agosto de 2004, um crescimento de 6% em relação ao período anterior, concentrado em cerca de 50% no Mato Grosso (12.556 quilômetros quadrados). (SCHLESINGER, 2006, p. 45).

Além do desmatamento, a taxa de crescimento da soja na Amazônia é proporcional ao número de conflitos pela posse de terra. Bickel (2003) nos mostra que o desenvolvimento da atividade sojícola na região amazônica representou o surgimento de conflitos agrários e

85 grilagem; são mais de 100 milhões de hectares grilados. A grilagem afeta principalmente os agricultores familiares, que não possuem a documentação da terra, e populações indígenas que não tiveram suas reservas demarcadas pelos órgãos públicos responsáveis pelo processo.

3.2.1 Complexo agroindustrial da soja e a competitividade regional

Castro (2002) analisou o Subsistema Agroalimentar da Soja (SAS) e os planos de expansão industrial no Centro Oeste, a fim de avaliar o papel das empresas esmagadoras de grãos no avanço da sojicultura no Cerrado e na Amazônia Legal. O complexo agroindustrial da soja, até 1997, era composto pelos grandes grupos nacionais que atuavam no processamento de grãos e carnes, que instalaram esmagadoras de grãos no Centro Oeste, para aproximar suas plantas industriais da matéria-prima. Os grupos internacionais adotavam estratégias conservadoras com poucos investimentos.

No final dos anos 1990, o complexo agroindustrial da soja começou a ser modificado, e os grandes grupos empresariais de capital nacional passaram a focalizar o seu negócio principal e vender os demais para fazer frente às dificuldades financeiras. A Sadia vendeu suas plantas industriais processadoras de grãos para a ADM para investir nos produtos da cadeia protéica e no setor das refeições prontas. O Grupo Hering vendeu a Agro Industrial dos Cereais do Vale S/A (CEVAL) para a Bunge, a fim de centrar suas atividades no segmento têxtil (CASTRO, 2002).

O mercado de soja no Brasil é formado por quatro empresas multinacionais que detêm 44% da produção de farelo e óleo bruto, Bunge, ADM, Cargill e Coinbra (Louis Dreyfus), e duas empresas nacionais, a Caramuru e a Maggi (ver Mapa 5), e a Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (COMIGO). As multinacionais dominam o mercado mundial de soja e utilizam estratégias agressivas de aquisição de empresas para ampliarem suas atividades.

As quatro gigantes multinacionais do complexo soja vêm adquirindo do produtor cerca de dois terços da produção de grãos. Tradicionalmente dedicadas a atividades mais voltadas para a comercialização de grãos, passaram a operar com maior ênfase na industrialização e a ampliar continuamente seu domínio sobre o setor (SCHLESINGER, 2006, p. 48).

Castro (2002) sugere que o crescimento da produção de soja nas áreas que formam o Cerrado e a Amazônia, e a consolidação das opções de escoamento da produção, reduziram os custos de transporte das regiões produtoras aos mercados consumidores nacionais e aos portos

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