I. LIBERDADE DO CORPO
1.3. Compatibilidade entre medo e liberdade
Após precisar o que entende por liberdade e por homem livre, Hobbes passa, no capítulo XXI do Leviatã, a tratar de duas compatibilidades: as existentes entre a liberdade e o medo e entre a liberdade e a necessidade.
O pensador inglês inicia por compatibilizar liberdade com o medo em um parágrafo curto, de apenas três períodos:
§ 3 (1) O medo e a liberdade são compatíveis: como quando alguém atira seus bens ao mar com medo de fazer afundar seu barco, e apesar disso o faz por vontade própria, podendo recusar fazê-lo se quiser, tratando-se portanto da ação de alguém que é livre. (2) Assim também às vezes só se pagam as dívidas com
medo de ser preso, o que, como ninguém impede a abstenção do
ato, constitui o ato de uma pessoa em liberdade. (3) E de maneira geral todos os atos praticados pelos homens no Estado, por medo da lei, são ações que seus autores têm a liberdade de não praticar220.
Trata-se de uma mudança nos rumos do texto. Aparece na passagem um elemento que não havia sido tratado no plano da liberdade: o medo. Hobbes defende aqui que ele é compatível com a liberdade. Tendo-se em vista o que foi antes estipulado, acompanha- se a conclusão de Hobbes ao se considerar que o medo é algo interno e não um corpo externo.
De fato, o medo está entre as paixões analisadas por Hobbes na primeira parte do Leviatã, em seu capítulo VI, “Da origem das paixões”. De acordo com o filósofo, o medo é uma espécie de aversão: “a aversão, ligada à crença de dano proveniente do objeto, chama-se MEDO”221. Já a aversão caracteriza-se pelo esforço
220 HOBBES, Leviatã, p. 172.
interno no agente em sentido contrário a alguma coisa222, em oposição ao desejo ou apetite.
A se considerar o papel que o medo desempenha na teoria do pacto de união de Hobbes, o medo de fato não poderia se colocar como elemento impeditivo à liberdade de contratar para formar o Estado civil. No sistema do Leviatã, o pacto de união e o medo como elemento ensejador dele aparecem antes da presente discussão sobre a liberdade. Hobbes defende, em sua teoria da transmissão de direitos presente no capítulo XIV do Leviatã, que “os pactos celebrados por medo, na condição de simples natureza, são válidos”, oferecendo ainda diversos exemplos a corroborar a assunção223. Com isso, talvez se possa pensar se Hobbes não criou uma nova definição de liberdade somente para depois poder deixar o medo ser válido como elemento na fundamentação no contrato social. Pode-se questionar se o filósofo inglês não teria primeiro uma conclusão em mãos e depois teria criado as premissas necessárias para tal conclusão ser válida.
No primeiro período acerca da relação entre medo e liberdade, Hobbes postulou inicialmente uma afirmação categórica – o medo é compatível com a liberdade – e depois a provou por meio de um exemplo. E depois explicou o exemplo. Hobbes, entretanto, não explicou diretamente o motivo de o medo não ser incompatível com a liberdade. Tal motivo pode ser deduzido em função do que foi debatido anteriormente: pelo fato de o medo não ser um impedimento corporal externo, mas sim como “parte da constituição da própria coisa” (na passagem do primeiro parágrafo) ou ainda algo pertencente a “vontade, desejo ou inclinação” (como no segundo parágrafo).
222 HOBBES, Leviatã, p. 47, Martins Fontes. Hobbes ainda oferece uma análise etimológica do termo a complementar sua definição.
Apesar de agir por medo, o homem faz o que faz por vontade própria. Por quê? Porque poderia agir diferente. Não existe nada externo ao homem que o obrigue a jogar seus bens ao mar. Se aparecesse uma criatura monstruosa e segurasse o homem e controlasse seus movimentos a ponto de forçá-lo a jogar suas coisas ao mar, aí sim seria o caso de ausência de liberdade. Mas o medo não é o caso. O homem ainda tem a possibilidade de jogar ou não as coisas ao mar. É livre para decidir a respeito: aqui ele tem opção, “podendo recusar fazê-lo se quiser”. E por isso “tratando-se da ação de alguém que é livre”. Ainda resta uma opção.
O exemplo trazido por Hobbes é emprestado da tradição. Está presente no livro III, 1110a, da Ética a Nicômaco, de Aristóteles, curiosamente o maior adversário de Hobbes nas questões a respeito da liberdade. Mas as consequências obtidas a partir do exemplo são bem distintas para o filósofo inglês em relação ao Estagirita. Este considera que quem atira seus bens ao mar por medo atua em parte por vontade e em parte não conforme a vontade224. O exemplo também, dentro da obra de Hobbes, não é original do Leviatã: está presente desde 1640 na redação dos Elementos.
Hobbes segue desenvolvendo a explicação da compatibilidade entre liberdade e medo mobilizando outro exemplo no segundo período do parágrafo. Nesse ponto Hobbes segue a linha do período anterior, tratando agora do pagamento de dívida. A pessoa pode pagar ou não: “ninguém impede a abstenção do ato”. Em ambos os exemplos são colocados em jogo elementos fundamentais: o primeiro é a vida, o segundo é a própria liberdade (ou seja, evitar ser preso). Aqui é a liberdade de agir para manter a própria liberdade. E novamente Hobbes realça os temas fundamentais da passagem recorrendo às fontes em itálico: “medo” e “liberdade”.
Hobbes termina o terceiro parágrafo com um período em que, a partir de um novo exemplo, acaba conduzindo a discussão para um novo tema (ou até uma nova espécie de liberdade, a liberdade civil, a liberdade no interior do Estado). No terceiro período, alguns temas tratados anteriormente são trazidos para possibilitar-se uma nova conclusão. Encontra-se na passagem a liberdade civil, a liberdade no interior do Estado civil, caracterizada pela observação à lei. A lei já havia sido mencionada por Hobbes no exemplo da fala livre, caracterizada como a fala que não é proibida por lei. Hobbes defende que os atos praticados por medo da lei são mesmo assim atos livres. De fato, pois são atos praticados por medo da lei. Se fossem praticados por coerção física (como levar preso alguém), aí não haveria liberdade. Mas o homem pode escolher seguir a lei ou não. É possível mais de uma ação, pois o constrangimento físico, no caso da lei, não é absoluto.
O fito da lei de forçar seu cumprimento a partir do medo de punição é também um elemento trazido do direito romano para o sistema de Hobbes, de acordo com os textos do jurista romano Ulpiano225.
A partir do exposto, já vai se conformando a noção de que a liberdade existe ainda dentro do Estado civil. O homem é livre, mesmo se amarrado por leis. Pois não tem sempre um constrangimento físico para agir. A lei não acaba totalmente com a liberdade, mas sim a restringe. Esse tema será decisivo para as propostas de Hobbes a respeito da existência de liberdade no plano político.
Por fim, encontra-se presente nessa abordagem do medo no Leviatã uma modificação na teoria de Hobbes, uma vez que no Do cidadão o filósofo considerou ser o medo um impedimento arbitrário à liberdade. No nono capítulo dessa obra, Hobbes
225
De acordo com SKINNER, “o Digest [Digesto], 1985, I.1.1, v.1, p. 1, cita Ulpiano para a concepção de que a lei nos torna bons sobretudo por induzir ao medo de punição (‘metu poenarum’)”. Cf. Liberdade
alega haver dois tipos de impedimento à liberdade: o primeiro seria o impedimento externo e absoluto (com os exemplos retomados no Leviatã da água represada e do viajante impedido de prosseguir por muros) e o segundo o impedimento arbitrário. O arbitrário seria aquele proveniente de um processo de escolha, impedido pela força da paixão, destacando-se dentre as paixões exatamente a paixão do medo226. Em um momento posterior do texto, Hobbes ainda retoma a situação por meio do medo de se desobedecer a Deus227, como algo exterior ao agente (tanto o castigo estatal como o poder de Deus) mas incorpóreo, que leva a uma força emocional do agente a não agir228. Skinner, em Hobbes e a liberdade republicana, explica essa alteração na teoria (dada a exclusão dos impedimentos arbitrários ou intrínseco ao movimento, restando no Leviatã apenas o impedimento externo e corpóreo) em função de dois motivos. A primeira causa seria para resolver o problema da relação entre liberdade de agir e poder de executar a ação. A modificação está presente já no tratado contra Bramhall Sobre liberdade e
necessidade, em duas passagens características229. Trata-se, afirma Skinner, de um topos escolástico, essa relação entre não poder andar por estar amarrado e por estar doente. Os escolásticos diziam que em ambos os casos falta liberdade. Hobbes diz que apenas em um dos casos. Um exemplo de escolástico que defende isso é Roderico de Arriaga, nas suas Disputationes de 1644230. Já a segunda explicação da mudança de posição de Hobbes seria para resolver a confusão entre agir voluntariamente e agir
226 Cf. HOBBES, Do cidadão, 9.9. 227 Cf. HOBBES, Do cidadão, 15.7.
228 Cf. SKINNER, Hobbes e a liberdade republicana, pp. 113-115. 229
Quais sejam: “diz-se que a água desce livremente, ou tem a liberdade de descer pelo leito do rio, por não haver impedimento nessa direção, mas não de lado, pelo impedimento das bordas. E, embora a água não possa subir, nunca se diz que ela carece da liberdade para subir, mas da faculdade ou do poder, por estar o impedimento na natureza da água e ser a ela intrínseco (Hobbes, 1840a, pp. 272-4)” e “assim, também dizemos que, quem está amarrado carece da liberdade de partir, por estar o impedimento fora dele, nos laços que o prendem; ao passo que não dizemos o mesmo de quem está doente ou paralítico, por estar o impedimento nele próprio (Hobbes, 1840a, p. 274)”. Ambas citadas por SKINNER, Hobbes e a
liberdade republicana, pp. 129-130.
compulsoriamente, como no exemplo de jogar os bens no mar para se salvar. O medo seria um impedimento arbitrário, ou seja, o medo tiraria a liberdade, o que Hobbes em outras passagens diz o contrário, para justificar as convenções aceitas por medo. Eliminando os impedimentos intrínsecos essa confusão se resolve. O medo não é um impedimento externo, então ele não tira a liberdade. No Leviatã, XXI, fica claro que, quando o homem joga os bens ao mar para se salvar, age voluntariamente231.