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G. Frankfurt Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012.

5.1 COMPATIBILISMO NAS CARTAS 194 E 195: AO ABADE E AOS MONGES DE HADRUMETO

O motivo para Agostinho escrever tais Cartas se mescla à sua intenção de confirmar a doutrina da liberdade e da Graça como verdades bíblicas e de fé. O Bispo de Hipona descreve seu desejo de que os monges de Hadrumeto tivessem a convicção que tanto a liberdade como a Graça eram dádivas concedidas por Deus para que esses irmãos piedosos pudessem desfrutá- las e assim não cair no engodo de algum radicalismo que afirmava uma em detrimento da outra, ou seja, alguns “hereges” (Ep., 194) que disseminavam a ideia de que apenas a liberdade ou a graça eram postulações verdadeiras, e a existência de um automaticamente implicaria na negação de outro.

A Carta (194) é endereçada ao mosteiro de Hadrumeto, uma comunidade religiosa em Cártago, sendo Hadrumeto uma importante cidade na África Romana. Havia uma tensão no mosteiro. De um lado, a radicalização da liberdade; e, do outro, a radicalização da Graça, onde a negação da graça desembocaria “a negar o valor da liberdade humana” (Ep., 194), isto, devido a forma de compatibilismo que Agostinho compreendia nesta relação deste antinomismo.

A posição admitida por Agostinho se concentrava “à ajuda da liberdade por parte da graça” (Ep., 194); pois, quando Deus “retribui a cada um conforme suas obras, se depara com nossas boas obras, que Deus já antes havia preparado para que nelas andássemos” (Ep., 194). Essa é o cerne do compatibilismo agostiniano, um compatibilismo conforme visto, onde mostra a liberdade plena, possível apenas com o auxílio da Graça de Deus. Ao fazer uma exposição do julgamento de Deus (Rm 3,6) e da salvação do mundo (Jo 3,17), Agostinho revele a necessidade da liberdade como forma sine qua non para o julgamento final, bem como a Graça, presente como único elemento imprescindível para a salvação do homem:

Pelo que o livro ou a carta, que os monges me trouxeram, deve ser entendida de acordo com esta fé, e assim não negueis a graça de Deus nem defendais o livre arbítrio a ponto de torná-lo independente da graça de Deus, como se pudéssemos sem ela pensar ou fazer algo em ordem a Deus. Para isto não temos a capacidade de forma alguma. Essa é a razão pela qual o Senhor, ao falar dos frutos da justiça, disse aos discípulos: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5) [...]. Os referidos hereges, no entanto, ao pensar que se podem justificar sem a intervenção de Deus, por suas próprias forças, não se gloriam no Senhor, mas em si mesmos. O Apóstolo, dirigi-lhes esta advertência: Pois quem é que te distingue? Ele o diz porque somente Deus pode distinguir o homem da massa daquela perdição originária de Adão para torná-lo vaso de eleição (Ep., 194).

Desse modo, Agostinho defende que o homem deve preservar essas duas doutrinas como concomitantes, não sendo possível a anulação de um elemento se quer. Agostinho aponta através de uma exposição exegética que não há nenhum dom que não seja advindo de Deus, nem o começo da fé ou da perseverança dos santos (doutrina que influenciou toda uma geração dos Protestantes a partir do século XVI), excluindo assim todo possível mérito atribuído ao homem (Ep., 194)

Nessa Carta 194, Agostinho ainda mostra que Deus não dá a Graça conforme merecimentos humanos (isto seria parte da defesa dos hereges) sejam estes futuros ou presentes (Ep., 194). Agostinho reconhecia que alguns, utilizavam-se dos seus escritos para formularem doutrinas que geravam dissensões (Ep., 194). Aqui é uma das primeiras objeções que o Bispo de Hipona faz aos pelagianos que se utilizavam dos seus escritos, principalmente da obra De Libero arbítrio, para fundamentarem uma liberdade libertária, o que para Agostinho seria uma má compreensão e uma utilização de má fé de sua obra (Ep., 194).

Portanto, nessa primeira Carta (194), Agostinho revela que a liberdade e a Graça são existentes concomitantes entre si e necessárias, donde, sem auxílio da Graça de Deus não é possível à conversão, a perseverança e sem a liberdade não é possível gozar e desfrutar das dádivas advindas de Deus.

Na Carta 195, Agostinho volta a falar dos erros dos novos pelagianos, assim como ele fez na Carta 194.

A liberdade, assim como a Graça, são pontos para uma questão importante da escatologia agostiniana, onde o conceito de compatibilizar esses dois termos, refere a uma projeção de condenação ou absorção no juízo final. Fazendo uma análise sobre a leitura do Mártir Cipriano, acerca da Oração Dominical, diz:

[...] assim como sua orientação para que não afastemos da graça divina, ao pretendermos procurar apoio no livre arbítrio. Com a mesma leitura, mostramos que o mesmo glorioso mártir admoestou a respeito do dever de rezarmos também pelos nossos inimigos, que ainda não creram em Cristo, a fim de que acredite. Seria esta uma doutrina sem sentido, se a Igreja não acreditasse que até a vontade má e infiel pode-se voltar para o bem pela graça de Deus (Ep., 195).

Agostinho requer uma moderação, um meio termo, que ao mesmo tempo admita a Graça, como também coloque a liberdade como necessidade, fazendo uma compatibilização deste antinomismo.

Desse modo, Agostinho admite claramente o compatibilismo e a interação desses dois conceitos, que são salutares para a fé. Agostinho faz uma exegese e mostra que há dois caminhos, sendo um da direita e o da esquerda, donde o da direita deve ser almejado, pois, o caminho da direita é muito bom e o da esquerda é o indesejado. Porém segundo o Bispo de Hipona, o texto descrito em Pr 4,26-27 não nos manda declinar nem para um nem para outro, mesmo o caminho da direita sendo muito bom. Com isto, pois, o homem deve andar em um caminho retilíneo de equilíbrio, pois esses dois caminhos implicam em dois conceitos, deste modo, explica Agostinho:

Consequentemente, todo aquele que diz: “Basta-me a minha vontade para praticar as boas obras”, declina para a direita. Por outro lado, declinam para a esquerda os que julgam ser preciso desistir da retidão da vida, quando ouvem exaltar a Graça de Deus a ponto de levar a crer e entender que ela torna boas a vontades perversas dos homens e preserva as que torna boas, e por isso dizem: Não haveríamos de fazer o mal para que venha o bem? (Rm3,8). Eis a razão por que ele vos disse: Não declines nem para direita nem para a esquerda, ou seja, não deveis defender a liberdade a ponto de atribuir-lhe as boas obras sem a graça de Deus; e não deveis defender a graça de Deus a ponto de preferir as más obras, como se tivésseis a garantia da graça. Tal não permita a própria graça de Deus (Ep., 195).

Portanto, Agostinho reluta com aqueles que radicalizam apenas a Graça (como estava incorrendo este erro no mosteiro de Hadrumeto). Pois, segundo ele, os que radicalizavam a graça estavam propícios a viver uma vida dissoluta, por achar que pela graça estariam livres de quaisquer impunidades, mas esquecem de que viver na graça seria então, morrer para o pecado;

bem como critica também, aqueles que postulam a radicalização da liberdade, pregando uma compatibilização dos dois termos.