4. PODE UM PROCESSO DE EXCEPCIONAL COMPLEXIDADE CUMPRIR OS
4.1. Compatibilização em abstracto da Declaração de Excepcional Complexidade
direito à decisão em prazo razoável)
Cumpre antever que abstratamente a declaração de excepcional complexidade dos autos não se incompatibiliza com o direito a um processo equitativo, na vertente de direito a uma decisão em tempo útil e célere o que se compreende pelo facto de ambos coexistirem no nosso ordenamento jurídico, ordenamento esse que espelha o Estado de Direito que integramos.
A declaração de excepcional complexidade visa permitir que, atenta as características que permitem afirmar terem os autos dificuldades acrescidas relativamente aos restantes processos, seja, por exemplo, pelo volume anormal do
387 Cfr. o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 11 de Outubro de 2007, processo n.º 07P352,
Relator Santos Carvalho.
92 processo, pelas dificuldades e complexidade das investigações, ou pelo elevado número de arguidos, os sujeitos processuais disponham de prazos mais alargados prática de actos processuais. Assim, o Ministério Público dispõe de um maior prazo para realizar as investigações inerente à fase de inquérito e os restantes sujeitos processuais dispõem ainda de um prazo mais alargado para a apresentarem requerimento de abertura de instrução, contestação e interporem recurso. Tais medidas são realizadas em nome da descoberta da verdade material, ainda que haja direitos que quando em confronto com este princípio tenham que ceder, como sucede com o direito à liberdade do arguido que vê o prazo da prisão preventiva alargado com a declaração da excepcional complexidade do processo. No entanto, ainda que este direito fundamental do arguido possa – ou continue a – ser limitado com a declaração de excepcional complexidade dos autos, tal apenas se verifica
caso os pressupostos da sua aplicação continuem verificados389, pelo que o seu
decretamento não implica a necessária manutenção da prisão preventiva que exista, apenas torna lícita a sua manutenção por um maior período de tempo (verificados os restantes requisitos). Assim, encontrando-se em conflito dois princípios essenciais é possível limitar proporcionalmente a aplicação de um deles (direito à liberdade do arguido) desde que hajam fundamentos para o efeito (descoberta da verdade material).
No que concerne ao princípio da celeridade, conforme advoga CONDE CORREIA, o direito fundamental à decisão em prazo razoável serve interesses do
arguido, mas também objectivos da comunidade e até mesmo da vítima390. Quanto
aos interesses do arguido, parece evidente que o mesmo pretenda ver o termo do processo o mais brevemente possível, uma vez que, ainda que vigorando o princípio da presunção de inocência, são diversas as consequências (processuais e quotidianas) que tal qualidade pode ter na vida do arguido. Por outro lado, quanto mais tempo for necessário para o término do processo, menos confiança tem o cidadão comum na realização da justiça, imprimindo na sociedade a ideia de ineficácia e logo descrença na justiça. Por outra via, interessa ainda à vítima que o arguido seja punido rapidamente, para que a prática do crime materialize a sua ideia de justiça e não faça perdurar injustificadamente o seu sofrimento. Acresce
389 Cfr. o art. 212.º, n.º 1, alínea b), do Código de Processo Penal.
390 Cfr. CONDE CORREIA, Prazos máximos de duração do inquérito, publicidade e segredo de justiça,
93 ainda que, o decurso do tempo tende a complicar as investigações, dissipando-se provas e contribuindo para que as testemunhas não retenham a memória viva destes acontecimento, o que naturalmente prejudica a descoberta da verdade material e a realização da justiça. Para mais, o facto de que quanto mais célere se tornar a efectivação da Justiça, menos processos se encontram pendentes na administração da Justiça, contribuindo para uma maior eficácia judiciária e consequentemente uma melhor aplicação da justiça.
No entanto, o direito a obter uma decisão num prazo razoável não poderá ser obtido a qualquer custo. Os processos de excepcional complexidade justificam pelas suas características que os prazos legais sejam adaptados à realidade processual existente. Assim, não é razoável que o Ministério Público disponha de idêntico prazo para proferir acusação num processo com apenas um arguido, sem complexidade técnica e organizativa do crime e localizado num perímetro reduzido do que para realizar a investigação da prática de crimes por grupos organizados, plurilocalizados e altamente especificados para a prática do crime. Se tal sucedesse a investigação estaria condenada desde início e seria um desperdício de recursos humanos e monetários. Também não é razoável que o arguido disponha do mesmo prazo para contestar a acusação contra si deduzida quando o processo tem apenas um volume ou quando o mesmo soma já várias dezenas ou centenas de volumes. Caso tal se verificasse as garantias de defesa estariam gravemente diminuídas podendo constituir até uma negação de justiça.
Acresce que, o facto de o processo de excepcional complexidade prever prazos mais alargados e consequentemente um processo que decorrerá num período temporal superior, não determina que o direito do arguido a uma decisão célere não seja cumprido. Primeiramente, parece de difícil defesa afirmar que os prazos legalmente instituídos – porque superiores – violaram este direito fundamental. Além disso, este direito apenas é incumprido quando o tempo processual seja manifestamente excessivo para que seja proferida uma decisão final nesse âmbito – onde não se incluem, naturalmente, os prazos superiores legalmente previstos, ou quando nele existe um interregno de tempo no qual injustificadamente não é praticado qualquer acto processual.
De resto, se assim não se considerasse, a norma seria passível de violar um direito constitucionalmente consagrado. No entanto, a aplicação do regime de
94 excepcional complexidade afigura-se não só legal e constitucional, mas também necessária como medida de adaptação processual às concretas características dos autos, proporcionando a consequente aplicação de disposições legais específicas. Aliás, a declaração de excepcional complexidade parte do juízo ponderativo do juiz – o qual pressupõe a aplicação de critérios de razoabilidade e proporcionalidade – que, verificados determinados pressupostos, considera justificada a aplicação das consequências legalmente inerentes a esta declaração. De facto, conforme entendimento consignado recentemente na jurisprudência nacional “a atribuição
da classificação de especial complexidade deve ser ponderada e ter por referência critérios de equidade” 391.
A compatibilização de tais princípios é salvaguarda com a declaração realizada em juízo quando conhecidas as concretas características do processo. Não existindo crimes que sejam ope legis considerados de excepcional complexidade, tal juízo é essencial para permitir um processo mais equitativo, uma vez que do facto do crime objecto dos autos constar da lista de crimes caracterizados como terrorismo, criminalidade violenta e criminalidade altamente organizada não emerge necessariamente a especial dificuldade do mesmo, pelo que poderá a declaração em questão ser indeferida. Mais, a opção legislativa por uma decisão ope judicius constitui a solução que melhor se coaduna com o respeito pelos direitos do arguido, nomeadamente, o seu direito a um processo célere e equitativo, porquanto aplicará consequentemente os prazos que melhor se coadunam com o andamento do processo, uma vez que apenas ficará sujeito a este regime no caso de existir fundamento para considerar aquele concreto processo, com as suas características como de excepcional complexidade. Acresce que, sendo certo que a declaração de excepcional complexidade possibilita eventuais
alargamentos da investigação e, eventualmente, da prisão preventiva 392 – mas
também ao alargamento dos prazos para a prática de actos processuais pelo arguido – os direitos do arguido apenas poderão ser limitados se, empregando critérios de proporcionalidade se considerar que deve prevalece a realização da
391 Cfr. o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 09.10.2018, processo n.º 48/17.6MCLSB-A.L1-
5, Relator José Adriano.
392 Como é sabido, a prisão preventiva é aplicada caso se verifiquem os requisitos constantes do art.
202.º, do Código de Processo Penal, encontrando-se previstos mecanismos de apreciação da manutenção da prisão preventiva, bem como de apreciação da legalidade da aplicabilidade desta medida privativa de liberdade, como no caso do habeas corpus.
95 justiça e a protecção da segurança dos cidadãos. Assim, a circunstância de se verificarem crimes que assumem estas características poderá ser indiciador, funcionando como “pré-requisito” para a declaração. No entanto, não constitui um factor imperativo para o seu decretamento.
Assim, é forçoso concluir que, de forma abstrata, o direito a decisão em prazo razoável não é violado pela declaração de excepcional complexidade do processo, não tendo esta qualquer interferência no direito fundamental do arguido. Pelo contrário, tal declaração revela-se fundamental para uma correcta administração da justiça.