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3.1 ASPECTOS GERAIS ACERCA DO HABEAS CORPUS

3.1.5 Competência

O habeas corpus, como visto, sempre será dirigido para autoridade judicial superior à do coator. No que diz respeito à competência, há dois critérios fundamentais para sua fixação, quais sejam, a territorialidade e a hierarquia.67

No primeiro caso, a competência para processamento e julgamento será do juízo, em cuja comarca ou circunscrição judiciária esteja ocorrendo a violação ao direito à liberdade.68 No segundo caso, encontra-se a regra prevista no artigo 650, § 1º, do Código de Processo Penal, segundo a qual, “a competência do juiz cessará sempre que a violência ou coação provier de autoridade judiciária de igual ou superior jurisdição.” Dessa forma, compete ao juízo de primeiro grau julgar habeas corpus quando o delegado de polícia da comarca for a autoridade coatora. Todavia, não poderá resolver o writ quando intentado contra ato de magistrado de outra vara, haja vista a igualdade hierárquica existente.69

Conquanto haja a previsão geral no Código de Processo Penal, há outras regras acerca da competência estabelecidas em regimentos internos de tribunais, leis de organização judiciária, nas Constituições Estaduais e, sobretudo, na Constituição da República Federativa do Brasil, a qual se passa a expor.70

Assim, será competente para o processamento e julgamento de habeas corpus o Supremo Tribunal Federal, nos termos do artigo 102, inciso I, alínea “d”, “quando forem pacientes o Presidente da República, o Vice-Presidente, os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, os membros dos Tribunais Superiores, do Tribunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente”; será competente também, nos moldes do artigo 102, inciso I, alínea “i”, “quando forem coatores os Tribunais Superiores”, quando forem coatores ou pacientes autoridades ou funcionários cujos atos estejam sujeitos diretamente à jurisdição do Supremo Tribunal Federal.71

No texto original da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, previa-se o cabimento de habeas corpus originário no Supremo Tribunal Federal contra decisão de qualquer tribunal, mesmo de segunda instância. No habeas corpus julgado em 1989 (HC72 67.263/STF), o ministro da Suprema Corte Moreira Alves afirmava que uma

67 AVENA, 2009, p. 1.142.

68 GRINOVER; GOMES FILHO; FERNANDES, 2011, p. 288. 69 AVENA, loc. cit.

70 AVENA, loc. cit. 71 Ibid., p. 1.143. 72 HC – Habeas Corpus.

única hipótese impediria essa ação originária, mesmo como substitutivo de outros recursos: se o habeas corpus perante o Supremo Tribunal Federal fosse em substituição a recurso ordinário em habeas corpus (RHC) cabível perante o Superior Tribunal de Justiça.

Entretanto, atualmente, ao Supremo Tribunal Federal somente cabe o julgamento de habeas corpus no caso de sua competência originária – por prerrogativa de função – ou quando a coação provier de um Tribunal Superior (Superior Tribunal de Justiça, Tribunal Superior Eleitoral, Superior Tribunal Militar e Tribunal Superior do Trabalho), tal como esclarece o seguinte excerto:73

Após o advento da EC74 nº 22 /1999, não mais compete ao Supremo Tribunal

Federal processar e julgar, originariamente, ‘habeas corpus’ impetrado contra decisão emanada de Tribunal de Justiça, ainda que o fundamento da impetração seja exclusivamente de natureza constitucional. Precedente. - A locução constitucional ‘Tribunais Superiores’ abrange, na organização judiciária brasileira, apenas o Tribunal Superior Eleitoral, o Superior Tribunal de Justiça, o Tribunal Superior do Trabalho e o Superior Tribunal Militar. (HC 85.838-ED, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 31-5-2005, Segunda Turma, DJ de 23-9-2005.) No mesmo sentido: HC 88.132, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 04/04/2006, DJ 02/06/2006.75

Ao Superior Tribunal de Justiça, por sua vez, competirá o julgamento do habeas

corpus, conforme previsto no artigo 105, inciso I, alínea “c”, “quando forem coatores ou

pacientes os Governadores dos Estados e do Distrito Federal, os membros dos tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que oficiarem perante tribunais”, e, por fim, será competente “quando for coator tribunal sujeito à jurisdição do Superior Tribunal de Justiça, Ministro de Estado ou Comandante da Marinha, do Exército, ou da Aeronáutica.”76

Aos Tribunais Regionais Federais competirá o julgamento do writ, nos termos do artigo 108, inciso I, alínea “c”, “quando a autoridade coatora for Juiz Federal.” Aos Juízes Federais caberá o julgamento da ordem, nos moldes do artigo 109, inciso VII, “quando o constrangimento provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a outra jurisdição.”77

Quando a autoridade coatora for magistrado atuante no Juizado Especial Criminal, segundo Avena, prevalece o entendimento de que a competência para julgamento do habeas

73 LOPES JUNIOR, 2012, p. 1.342. 74 EC – Emenda Constitucional. 75 LOPES JUNIOR, op. cit., p. 1.342. 76 AVENA, 2009, p. 1.142.

corpus será da Turma Recursal, a qual se constitui órgão de segunda instância dos Juizados.78

No mesmo sentido, é o entendimento de Chimenti.79 Da mesma forma o Superior Tribunal de Justiça se posicionou:

CRIMINAL. INJÚRIA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. PEDIDO NÃO ANALISADO PELO TRIBUNAL A QUO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. NÃO- CONHECIMENTO. HABEAS CORPUS IMPETRADO CONTRA AUTORIDADE COATORA DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL FEDERAL. IMPOSSIBILIDADE. COMPETÊNCIA DAS TURMAS RECURSAIS DO JUIZADO ESPECIAL FEDERAL. ORDEM DENEGADA. [...] O critério prevalente para a determinação da competência para o processo e julgamento de habeas corpus impetrado contra ato de membro integrante do Juizado Especial Criminal Federal é o da hierarquia jurisdicional, sobressaindo a competência das Turmas Recursais dos Juizados Especiais para o processamento do feito. Precedente. Ordem denegada.80 (grifo nosso).

Todavia, Tourinho Filho 81 e Mirabete82, não se filiam a essa corrente, tendo em vista atribuírem tal competência ao Tribunal de Justiça Estadual ou Federal, conforme se trate de juiz estadual ou federal.

Quando a autoridade coatora for a Turma Recursal, o entendimento vigente até pouco tempo atrás era o de que o habeas corpus impetrado contra decisão de Turma Recursal deveria ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal, entendimento este, inclusive, contido na Súmula nº 690, desse tribunal, a qual dispunha competir “originariamente ao Supremo Tribunal Federal o julgamento de habeas corpus contra decisão de turma recursal de juizados especiais criminais.”83

Apesar de não revogada expressamente a Súmula nº 690 do Supremo Tribunal Federal, que atribuía a si esta competência, atualmente, a Suprema Corte passou a considerar- se incompetente para julgamento de habeas corpus contra decisões das Turmas Recursais Criminais. Inclusive, essa foi a deliberação adotada na análise da questão de ordem levantada no julgamento do Habeas Corpus 86.009/DF, ocasião em que o Supremo Tribunal Federal

78 AVENA, 2009, p. 1.148.

79 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e pratica dos juizados especiais. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

(Mídia eletrônica).

80 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HC: 32510 GO 2003/0230650-7, Relator: Ministro GILSON DIPP,

Data de Julgamento: 24/05/2004, T5 - QUINTA TURMA, Data de Publicação: DJ 02.08.2004 p. 447. Disponível em:

<https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sSeq=476898&sReg=200302306507&sData=2 0040802&formato=PDF>. Acesso em: 15 ago. 2013.

81 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Comentários à lei dos Juizados Especiais Criminais. São Paulo:

Saraiva, 2000. p. 123.

82 MIRABETE, Julio Fabbrini. Juizados especiais criminais. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

83 AVENA, Norberto Cláudio Pâncaro. Processo penal. Série concursos públicos. 4. ed. Método: São Paulo.

assentou a competência para julgamento de habeas corpus impetrados contra atos das Turmas Recursais dos Juizados Especiais Criminais Estaduais aos Tribunais de Justiça Estaduais e contra decisão de Turmas de Recursos dos Juizados Especiais Criminais Federais aos Tribunais Regionais Federais, modificando, pois, sua jurisprudência.84

Ressalte-se que o motivo dessa alteração de entendimento consiste no fato de que os juízes integrantes das Turmas Recursais dos Juizados Especiais estão submetidos, nos crimes comuns e nos crimes de responsabilidade, à jurisdição do Tribunal de Justiça ou do Tribunal Regional Federal, conforme se trate de Juiz de Estadual ou Juiz Federal. Assim, “por simetria, a estes Tribunais incumbe o julgamento dos habeas corpus impetrados contra ato que tenham praticado os juízes integrantes de Turmas Recursais.”85

Não obstante, não há que se falar em julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça de habeas corpus impetrado contra decisão de Turma Recursal, isso porque esse Tribunal assevera, a teor do disposto no artigo 105, inciso I, alínea "c"86, da Constituição da República Federativa do Brasil, que as Turmas Recursais de Juizados Especiais não podem ser qualificadas como "Tribunal”, para fins de autorizar a inauguração da competência desta referida Corte.87

HABEAS CORPUS. PENAL. COMUNICAÇÃO FALSA DE CRIME OU CONTRAVENÇÃO. [...] ORDEM IMPETRADA CONTRA ACÓRDÃO PROFERIDO POR TURMA RECURSAL. INCOMPETÊNCIA DESTA CORTE. WRIT NÃO CONHECIDO. 1. As Turmas Recursais de Juizados Especiais não se qualificam como ‘Tribunal’, não estando, assim, abrangidas pela previsão contida no art. 105, I, ‘c’, da Constituição Federal, o que impede a inauguração da competência do Superior Tribunal de Justiça para apreciar habeas corpus impetrado contra suas decisões. 2. Ordem não conhecida. (STJ, Habeas Corpus n. 223.550 – SP, de Brasília, rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, 27-03-2012).

No que diz respeito à Justiça do Trabalho, a Emenda Constitucional nº 45/2004 inovou o sistema jurídico nacional, ao modificar a competência da Justiça do Trabalho para

84 AVENA, 2008, p. 601.

85 AVENA, loc. cit.

86 Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I - processar e julgar, originariamente: c) os habeas

corpus, quando o coator ou paciente for qualquer das pessoas mencionadas na alínea "a", ou quando o coator for tribunal sujeito à sua jurisdição, Ministro de Estado ou Comandante da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral. (BRASIL, 1988).

87 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Habeas-corpus nº 223.550, da 1ª Turma, Brasília, DF, de 27 de março

de 2012. 2012a. Disponível em:

<https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sSeq=1134799&sReg=201102605539&sData= 20120510&formato=PDF>. Acesso em: 02 out. 2013.

nela incluir o habeas corpus e aquietou as discussões acerca da possibilidade de apreciação do

writ pelo Judiciário, quando a coação à liberdade é decorrente de matéria trabalhista.88

Essa nova competência, no entanto, sofreu duas grandes derrotas impostas pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: a primeira quando recusou competência criminal à Justiça do Trabalho (ADI n. 3684) e a segunda quando proibiu a prisão civil do depositário infiel (SV 25)89, esvaziando, assim, as

possibilidades fáticas de ofensa à liberdade de locomoção reparável no foro trabalhista.90

Desse modo, no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.684 o Supremo Tribunal Federal entendeu que a Emenda Constitucional nº 45/2004 não atribuiu competência criminal genérica à Justiça do Trabalho, razão pela qual, atualmente, a este órgão não incumbe a apreciação de habeas corpus em matéria criminal, tendo, portanto, a previsão do artigo 114, inciso IV, da Constituição da República Federativa do Brasil91, tornado-se inócua, já que, nesses casos (de matéria criminal), o habeas corpus é julgado pela Justiça Federal. Esse entendimento já havia sido objeto da Súmula nº 165 do Superior Tribunal de Justiça, a qual prevê competir à Justiça Federal processar e julgar crime de falso testemunho cometido no processo trabalhista.92