2.3 Dimensão intercultural no ensino de línguas
2.3.1 Competência Intercultural e aprendizagem de LE
Conforme Rozenfeld (2007:79), o conceito de CI origina-se a partir dos pilares da relação entre língua e cultura na interação, bem como das concepções de
39 interculturalidade, comunicação intercultural, interkulturelle Germanistik e Kulturwissenschaft, todos com também nos campos da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia e da Comunicação. Tais conceitos ganham força no contexto atual, marcado, cada vez mais, pela acelerada troca de informações e de intercâmbio cultural.
Volkmann (2002) define a CI como a capacidade e habilidade dos indivíduos de conhecer as diferenças entre a cultura alvo e a própria, de reconhecer essas diferenças em situações concretas e de desenvolver estratégias para lidar de forma compreensiva com os costumes da outra cultura. Vollmuth (2002) aponta para a reflexão e comparação com o outro e consigo mesmo como fundamentais e atribui ao conceito de CI um caráter que vai além do mero conhecimento de culturas distintas. Para a referida autora, essas atitudes são fundamentais no sentido de se evitar estereótipos e de transmitir uma impressão realística e multifacetada da cultura-alvo. Weier (2002) caracteriza a CI como uma competência baseada em capacidades humanas gerais, como a empatia, a tolerância frente a ambiguidades e o manejo de conflitos, fatores relevantes em situações que envolvem a compreensão entre povos distintos. Esta concepção vai ao encontro da afirmação de Cantoni (2005), quando diz que:
(...) a competência intercultural será a capacidade de perceber, usando-se de todos os mecanismos disponíveis, a diversidade do outro e compreender que o reconhecimento dessa diversidade, (...) fará com que o indivíduo adquira a competência intercultural sempre que seja capaz de dominar seus sentimentos pessoais, de neutralizar suas crenças e de pensar de forma desprevenida para poder se colocar no lugar do outro. O indivíduo tem competência intercultural quando for capaz de entender que a diversidade cultural envolve não somente a tolerância, mas também a compreensão do que está por trás da diferença e a consciência de que a outra cultura não lhe traz problemas, mas sim um valor adicional para ele (CANTONI, 2005:63).
Apesar do destaque da CI nos últimos anos, Camerer (2007) afirma que o currículo escolar, de modo geral, carece de elementos explícitos sobre essa competência. A autora salienta que a CI comunicativa é composta por conhecimentos diferentes, sendo inegavelmente uma competência mista, que depende de variáveis distintas para a sua formação. Nesse mesmo sentido, as propostas de atuação sugeridas pelo Conselho Europeu (2001), cujos parâmetros
40 (QCER) norteiam o ensino de alemão em outros países, enfatizam a necessidade da escola promover, com seus alunos, uma competência plurilíngue e pluricultural, entendida como uma competência complexa, mas resultante do desenvolvimento, em vários níveis, da competência comunicativa e da experiência em culturas diferentes (BIZARRO & BRAGA, 2006; BOLTEN, 2007).
Na presente pesquisa, considera-se que os tipos de competências necessários para lidar com aspectos interculturais, de comunicação entre pessoas de diferentes línguas e culturas, corresponde ao que Byram (2009) chama de competência comunicativa intercultural (CCI). Segundo a concepção do autor, a CCI envolve os seguintes componentes:
a) Atitudes - curiosidade e abertura, disponibilidade para suspender a descrença sobre outras culturas e crenças sobre a própria cultura.
b) Conhecimento - dos grupos sociais e seus produtos e práticas no próprio país e no do interlocutor, e dos processos gerais de interação social e individual. c) Habilidades de interpretar e relacionar - a capacidade de interpretar um documento ou evento de outra cultura, para explicá-lo e relacioná-lo com documentos da sua própria cultura.
d) Habilidades de descoberta e interação - capacidade de adquirir novos conhecimentos de uma cultura, práticas culturais e a capacidade de operar o conhecimento, atitudes e competências no âmbito das restrições de comunicação em tempo real na interação.
e) Consciência crítica cultural/educação política: a capacidade de avaliar criticamente e com base em perspectivas explícitas, critérios, práticas e produtos em nossas próprias culturas e nas de outros países.
Bolten (2007) e Bennett (2009) reconhecem os elementos acima como inerentes à CCI. Bolten (2007) aponta, ainda, a experiência como um fator decisivo para a constituição dessa competência, uma vez que aquela interfere diretamente na visão de mundo do indivíduo. O autor destaca a importância de se entender a CCI como um processo. As habilidades de escuta, observação e interpretação, análise, avaliação e mapeamento de elementos culturais, assim como habilidades de
41 resolução de conflitos interculturais, de reflexão e relativização do próprio sistema de valores, assim como a capacidade empática e flexibilidade também fazem parte desse construto complexo de competências (ibid).
A CI diz respeito à competência para responder com base em determinadas posições, configurações, capacidades de ação e de reflexão em situações interculturais, de forma eficaz e adequada (Deardorff, 2009). Uma atitude fundamentalmente positiva e aberta a situações interculturais, além da obtenção de conhecimento sobre outras culturas.
Compreendemos a CI para além dos conhecimentos puramente factíveis sobre a geografia, costumes e produção linguística, incluindo o conhecimento sobre modelos de comunicação e comportamento de pessoas de outras culturas. Compartilhamos a noção de CI de Rozenfeld (2007), em sentido mais amplo, como forma de contato e capacidade de entendimento do outro a partir da análise do próprio eu, da reflexão e da sensibilização para as diferenças. De acordo com Spitzberg e Schagnon (2009), essa competência contribui para a tolerância, aceitação, para a compreensão do outro e para possíveis reformulações de preconceitos e facilidade de adaptação em diferentes contextos.
Com a inserção da abordagem intercultural, faz-se necessário, cada vez mais, fomentar uma visão sociológica no ensino de línguas. A afirmação de Rozenfeld (2007), a seguir, sugere que a imagem (ou a visão estereotipada) da língua alemã está intimamente relacionada ao contexto sócio-econômico-cultural de sua época.
No Brasil, a partir da prática no ensino de alemão durante muitos anos, verificamos a forte presença de imagens do alemão como, por exemplo, língua difícil, e do povo alemão, associadas à história da Alemanha, em especial, às guerras (Rozenfeld, 2007:56).
Em seu estudo acerca de estereótipos e ensino intercultural, Bolognini (1993) pondera sobre certos clichês que os brasileiros têm sobre os alemães e sobre o quão relevantes essas visões padronizadas são para o ensino de base intercultural. A autora discorre sobre uma pesquisa desenvolvida com alunos de alemão como língua estrangeira, com base em declarações espontâneas feitas pelos aprendizes em sala de aula. Bolognini (ibid) parte da premissa de que indivíduos pertencentes a grupos sócio-culturais distintos dispõem de uma memória social que norteia o processo interacional entre eles. Os estereótipos são
42 considerados traços pertencentes a essa memória cultural, que podem muitas vezes dificultar a interação entre os indivíduos. É importante ressaltar que o Brasil é um país marcado por um passado colonizado, o que pode trazer algumas visões estereotipadas sobre a Alemanha e sobre outros países, caracterizando uma forma de pensamento colonizado, marcado por sentimentos de inferioridade. Sob essa perspectiva, a visão do Brasil como um lugar repleto de problemas sociais e políticos contrapõe-se à ideia que alguns brasileiros podem dispor sobre os países europeus, como lugares excepcionalmente organizados, repletos de justiça social e alta qualidade de vida (BOLOGNINI, 1993). A mesma autora identifica, ainda, traços de ordem intelectual, econômica e histórica, que permeiam a memória social dos brasileiros com relação aos alemães e influenciam diretamente a visão que têm sobre este povo. A existência de grandes pensadores, escritores, músicos e compositores alemães, o conhecimento sobre a posição econômica da Alemanha no cenário mundial e o passado marcado pelo nazismo na Alemanha, são exemplos de fatores que compõem a memória social e que influenciam diretamente na forma de enxergar o outro. Ainda no que tange ao ensino intercultural, vale citarmos os estudos de Bolognini (1991, 1993, 1998), que tecem valiosas reflexões acerca das relações de contato entre a Alemanha e o Brasil. A autora parte do princípio de que os sujeitos das duas culturas em contato são frutos dos respectivos discursos em seus determinados contextos e que as imagens que idealizam sobre uma determinada cultura são fundamentadas histórica e culturalmente. Ao explanarem sobre a origem de certas visões de brasileiros acerca da cultura alemã, Bolognini (2005) e Bohunovsky (2011) destacam fatores históricos como disparadores de construções de imagem, que moldam a forma como alguns brasileiros enxergam os europeus. Segundo as autoras, isso é consequência de um passado marcado pela colonização, que gerou uma forma de pensamento colonizado, com indícios de inferioridade com relação à própria cultura e a supervalorização de aspectos da cultura europeia.
Jansen (2002) destaca a necessidade de uma mediação cultural e pedagógica do estudante brasileiro, durante a aprendizagem de alemão como LE, segundo os pressupostos da interculturalidade. A autora ponta a minimização do papel do outro como um dos principais geradores de dificuldades pedagógicas e limitadores do diálogo cultural no ensino de LE. Jansen (ibid) reconhece, enfim, uma
43 relação dialética entre a própria cultura e a cultura alheia, no sentido de um diálogo cultural como um dos objetivos básicos da Germanística Intercultural.
Segundo Bolognini (1993), o ensino intercultural tem como objetivos principais promover uma visão crítica da própria cultura e possibilitar o contato com uma outra. Nesse contexto, Rozenfeld (2007) considera as práticas pedagógicas interculturais de grande valia e relevância para o ensino contemporâneo de LE, como porta para outras culturas, na medida em que propõe uma (re)leitura do outro, uma ressignificação do próprio e um diálogo entre culturas.
Como vimos anteriormente, existem diversos fatores que contribuem efetivamente para o desenvolvimento da CI dos indivíduos nas aulas de língua estrangeira. Ainda sob uma perspectiva intercultural, a área de Landeskunde, descrita a seguir, tem uma relação complementar com essa proposta de ensino, na medida em que contribui para a construção de uma visão crítica sobre culturas distintas, através da difusão de informações culturais.