• Nenhum resultado encontrado

2.1 POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS

2.1.3 Competências educacionais estaduais e municipais

Neste contexto é necessário identificar quais são as competências de cada esfera dentro do sistema de ensino nacional (SEVERINO, 2005). Em primeiro lugar o sistema de ensino federal exerce função re-distributiva para garantir a equalização de oportunidades educativas e qualidade de ensino mediante assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios (art. 211 da Constituição Federal de 1988, reformulado pela Emenda Constitucional 14 de 12 de Setembro de 1996). Na medida em que o Brasil não possui um sistema nacional de ensino definido, o sistema federal de ensino refere-se às instituições, aos órgãos, às leis e às normas que se

concretizam nos estados e nos municípios e penetra nas esferas estaduais e municipais, interferindo nos sistemas de ensino em seus níveis e modalidades. No âmbito do sistema federal se encontram universidades federais, Instituições de Ensino Superior, centros federais de educação tecnológica, ensino médio, escolas técnicas federais e agrotécnicas, ensino fundamental e médio vinculadas às universidades, educação especial., que estão subordinados ao ministro de Estado. Além destes, outros órgãos também estão subordinados: Secretaria de Educação Fundamental (SEF), Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC), Secretaria de Educação Especial (SEE), Secretaria de Educação Superior (SESU) e Secretaria do Programa Nacional do Bolsa- Escola. Sob a orientação do sistema federal de ensino ainda existem autarquias e outras modalidades de ensino. O Ministério da Educação e Cultura é o órgão líder e executor do sistema federal de educação, que possui seu órgão colegiado que é o Conselho Nacional de Educação, que normatiza o sistema.

O sistema estadual de ensino através do art. 24 da Constituição Federal de 1988 atribui aos estados, além da União e ao Distrito Federal, legislar concorrentemente sobre educação, cultura, ensino e desporto. Deve também proporcionar meios de acesso à cultura, à educação e à ciência e legislar sobre elas. A legislação estadual inclui a Constituição Federal, a LDB, pareceres e resoluções do Conselho Nacional de educação, a Constituição Estadual, a legislação ordinária do Poder Legislativo, as normas do Poder Executivo, e resoluções e pareceres dos Conselhos Estaduais de Educação. O sistema estadual de educação inclui sob sua orientação unidades do pré- escolar, ensino fundamental, médio e superior, além da disciplinarização do ensino particular, fundamental e médio nas suas respectivas unidades federativas.

O sistema municipal de ensino passa a ser compreendido através da Constituição Federal de 1988, como unidade ou instância administrativa. Através da colaboração da União e dos estados para organizar seu sistema de educação, o município, contudo não tem autonomia para legislar sobre o mesmo. O município deve manter, através de cooperação técnica e financeira da União e estado, programas de educação pré-escolar e de ensino fundamental (art. 30, VI), deve administrar seus sistemas de ensino, definindo normas e procedimentos pedagógicos apropriados às suas necessidades. A educação de crianças até 6 anos é dever do estado, mas responsabilidade do município, incluindo transporte e oferta de estabelecimentos nas zonas urbana e rural.

As leis na esfera municipal são elementos de articulação entre os sistemas de ensino, que foram elaboradas em outras esferas que não nos próprios municípios.

Ao aprovar a nova legislação educacional (E.C nº14, LDB nº 9394/96), o governo e o MEC impõe a descentralização e a municipalização do ensino. Desta forma trata-se de um posicionamento político e que repercute sobre o papel do Estado e a aplicação de uma política de privatização dos serviços públicos.

Numa análise mais próxima, através da averiguação da destinação do PIB nos programas de educação, percebe-se que o Brasil gasta em torno de 4,5% do PIB em programas de educação, no entanto existe grande disparidade quanto à aplicação desses recursos entre os diferentes níveis de ensino. Enquanto o país tem uma das mais altas despesas anuais por aluno de nível superior do mundo (US$ 3,5 mil), ao nível fundamental é destinado, em média US$ 350 aluno/ano (PINO, 2005).

Esta desigualdade na aplicação dos recursos resulta em um ensino fundamental carente de material didático de qualidade e com profissionais pouco treinados e mal remunerados, o permite através desta política, a participação privada nestes setores.

A Emenda Constitucional nº 14 altera os arts. 34, 208 e 211 da Constituição federal e modifica a redação do art. 60 das disposições transitórias. Esta emenda apresenta dois tipos de mudanças na Constituição: a) transferência das responsabilidades com a educação da União para os Estados e Municípios; b) na forma de financiamento. Desta forma, determina compulsoriamente, a municipalização do ensino fundamental e, através da Lei 9424/96, regulamenta a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundão). Este fundo é formado por 15% dos recursos destinados ao Estado, mais 15% dos municípios oriundos do Fundo de Participação dos Estados e Municípios e do ICMS, administrado pelos governos estaduais. Além disso, estabelece que 60% do total dos 25% do orçamento deve ser aplicado no ensino fundamental, sendo que o repasse dos recursos deve ser realizado de acordo com o número de alunos matriculados no município, tendo como conseqüência imediata o sucateamento, terceirização e privatização da educação infantil e do ensino médio (2º grau).

A lógica difundida é de que existem recursos e falta gestão competente. Defende-se a idéia da descentralização, e da transferência de responsabilidades entre o Estado e Município porque traduz a democratização, e permitiria a transferência e a fiscalização do ensino pela população.

Contudo a municipalização não garante a autonomia financeira e administrativa e pedagógica das escolas, porque a maioria das cidades depende dos repasses das verbas advindas do Estado e da União. Além da avaliação de rendimento escolar; aumenta

significativamente a inspeção escolar e o controle ideológico nos estabelecimentos escolares (PINO, 2005).

É curioso como a distorção em torno das deliberações sobre a autonomia dos municípios alcança a participação da comunidade nos processos decisórios sobre a Educação.

A Lei no. 9.131. de 24/11/1995, art. 7o. prevê as “atribuições de assessoramento ao ministro de Estado da Educação e do Desporto, de forma a assegurar a participação da sociedade no aperfeiçoamento da educação nacional”. Contudo desaparece da LDB o Fórum Nacional de Educação, inscrito no projeto aprovado na Câmara (art. 10), concebido para o CNE e o MEC “como instância de consulta e de articulação com a sociedade”. A participação da sociedade é circunscrita ao CNE, o que não figura no texto da LDB, por intermédio dos conselheiros “indicados em listas [...] mediante consulta a entidades da sociedade civil, relacionadas às áreas de atuação dos respectivos colegiados”, sendo que “a escolha e nomeação dos conselheiros será feita pelo presidente da República” (art. 8o, da Lei no. 9.131 de 24/11/1995. Novamente este encaminhamento aponta mais para um processo de centralização e desconcentração do que, realmente de descentralização (PINO, 1995).

Ainda no curso de entendimento da formalização das políticas educacionais, o entendimento da presença ou não de determinadas disciplinas se faz necessário. Segundo Santos (1994), a proposta curricular de uma disciplina em uma determinada época representa a hegemonia de um grupo através de uma determinada posição naquele campo de conhecimento. A compreensão da história da implementação de alguma matéria ou disciplina deve considerar o conjunto de grupos competidores, lutando por suas posições, onde estes incluem ou excluem conhecimentos, garantindo assim efeitos sobre a sociedade.

Ou seja, as disciplinas escolares se constituem na combinação de diversas partes e variáveis, onde a exposição do conteúdo, exercícios, práticas de incitação e motivação em um determinado campo, funcionam como colaboradoras a interesses da escola e da ideologia dominante.

Segundo Draibe (2001), de forma geral a descentralização da educação ainda não foi totalmente monitorada e analisada por sistemas modernos e ágeis de supervisão. Esta ausência tem permito que haja lacunas na compreensão do verdadeiro alcance das medidas utilizadas. Estas lacunas se acentuam quando percebemos o rápido

envelhecimento das regras e normas implementadas, assim como pelas dificuldades para manter a articulação de estruturas em âmbito regional, municipal e estadual.